domingo, dezembro 30, 2018

A política nacional é um território onde, genericamente, os pobres não entram


Parafraseando o Evangelho de São Marcos ("é mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus"), este é um dos grandes paradoxos da política em Portugal: sendo um dos países com um nível de escolaridade média mais baixa da Europa, é no entanto, em simultâneo, um dos países com uma classe política mais elitista.
.
A política nacional é um território onde, genericamente, os pobres não entram. Existem, é claro, exceções - mas que fazem o habitual serviço das exceções: confirmam a regra.
.
Basta olhar para o panorama das atuais lideranças partidárias com assento no Parlamento. Jerónimo de Sousa é a exceção: nasceu em meios desfavorecidos da periferia operária de Lisboa (Loures, onde aliás ainda vive), começando a trabalhar aos 14 anos como afinador de máquinas. Filiou-se no PCP depois do 25 de Abril e ascendeu na hierarquia do partido por via do sindicalismo metalúrgico.
De resto, temos António Costa (filho da elite intelectual de Lisboa); Rui Rio (educado num dos mais seletos colégios privados do Porto, o Colégio Alemão); Catarina Martins (filha de pais professores, classe média do funcionalismo público); Assunção Cristas (mãe médica, pai herdeiro de empresas na Angola colonial).
.
E se olharmos para o panorama geral das lideranças partidárias em Portugal desde o 25 de Abril constata-se exatamente o mesmo, desde os "pais fundadores" do regime (Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, todos originários de meios sem dificuldades), passando para as gerações seguintes: Cavaco Silva (filho de um proprietário agrícola e comercial do Algarve), Jorge Sampaio (elite do funcionalismo público), Carlos Carvalhas (proprietários rurais de Viseu). 
 .
E as outras a seguir também: António Guterres, Durão Barroso, José Sócrates, Pedro Passos Coelho, António José Seguro, Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes, Pedro Santana Lopes, Manuel Monteiro, Paulo Portas, só para dar alguns exemplos; ou ainda o corpo fundador do Bloco de Esquerda (Francisco Louçã, Fernando Rosas, Miguel Portas e Luís Fazenda): nenhum deles nasceu na pobreza e, nalguns casos, muito pelo contrário.
Mais uma vez, há sempre exceções. Mas na verdade é preciso procurar com uma lupa para as encontrar. Vítor Constâncio, por exemplo, foi quase tudo em Portugal - membro do governo, governador do Banco de Portugal, líder do PS -, chegando na UE ao cargo de vice-presidente do BCE, apesar de ter sido criado num dos bairros mais pobres de Lisboa, o Bairro da Liberdade.
.
Ora, o que acontece é que Portugal não tem apenas uma classe política em que os pobres pouco ou nada entram. Na verdade, essa marca distingue o país dos outros da UE, nomeadamente Espanha, Itália, França, Alemanha, Reino Unido ou os países escandinavos. "Portugal sempre teve uma elite política mais elitista do que as outras"
.
António Costa Pinto, cientista político no ICS (Instituto de Ciências Sociais), tem dedicado o essencial do seu esforço como investigador nos últimos anos ao estudo das elites políticas não só portuguesas como europeias. Foi, por exemplo, um dos coorganizadores de um estudo sobre o recrutamento de todos os ministro dos países da Europa do sul entre 1840 e 2000 ("Quem governa a Europa do sul", edições Imprensa de Ciências Sociais). Baseado no que estou estudou, assegura: "Portugal sempre teve uma elite política mais elitista do que as outras."
.
E a coisa não é de hoje. Como tudo, tem uma raiz histórica: na 1.ª República, fundada em 1910, "a grande maioria dos ministros eram licenciados" - algo particularmente extraordinário num país com quase 80% de analfabetos; depois Salazar (filho de um feitor agrícola de Viseu) recrutou essencialmente nas elites académicas da universidade (Coimbra, em particular, a universidade onde se formou). Conta-se até que António Ferro (1895-1956), o principal artífice da propaganda do Estado Novo e da imagem (interna e externa) do regime liderado por Salazar, nunca chegou a ministro porque o ditador recusava não licenciados no seu executivo.
.
Qual foi então o fator que distinguiu - e ainda distingue - Portugal dos restantes países? Costa Pinto avança uma explicação: por múltiplas circunstâncias, no espaço entre as duas grandes guerras do século XX, "não existiram em Portugal grandes partidos que romperam com as formas tradicionais de recrutamento" do seu pessoal, recrutando a partir da base da hierarquia social e em vez de a partir das classes médias ou do topo.
.
Esses partidos foram, nos restantes países, os partidos comunistas, fascistas e trabalhistas. Nos comunistas, o recrutamento fez-se em grande parte - e até com formas de discriminação positiva - nos setores operários (o que explica que hoje o líder do PC português seja um operário); os partidos fascistas como o alemão e o italiano e até um pouco o espanhol também se afirmaram mobilizando os setores mais desfavorecidos da sociedade, que alguns qualificam mesmo como a ralé; e os partidos trabalhistas, que deram origem aos partidos socialistas e sociais-democratas, também nasceram a partir de estruturas sindicais (daí chamarem-se trabalhistas).
.
Nada disso existiu em Portugal. O PCP nasceu em 1921 e no final dessa década já tinha sido declarado ilegal. Cinco décadas na clandestinidade (até ao 25 de Abril de 1974) nunca lhe permitiram tornar-se um grande partido de massas - e muito menos um partido dominante. 
 .
Os fascismos italianos e alemão e a sua forma de organização e recrutamento também nunca se transladaram para o partido único do Estado Novo, a União Nacional, uma organização que Salazar nunca permitiu que fosse de massas; e o PS português, que é o partido homólogo dos partidos trabalhistas europeus, não teve origem sindical, sendo antes formado a partir de elites liberais ( principalmente advogados, começando pelo próprio Mário Soares).
.
A pobreza e o combate à pobreza ocupam uma parte significativa dos discursos políticos hoje em dia. Mas a pobreza nunca foi um território que tivessem habitado.
(Publicado originalmente a 14 de agosto de 2018)

O MARAJÁ PORTUGUÊS


"AO CUIDADO DE DOM TARTUFO E AO BRONSEADO TONY"

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, cão, mesa e interiores
Jose Ferreira partilhou uma publicação.
59 min
Sandra Batista
ISTO É A REALIDADE DO PAÍS ONDE EU VIVO. No país onde o MINISTRO do MAI se indigna com as fotos de Ladrões na NET.
Isto acontece, em plena cidade de Lisboa.
Isto sim Sr. Ministro merece indignação.
ENTRE tantas outras.
Vergonhoso...

"O BRONZEADO TONY COSTA"


"É TEMPO DO ARTISTA TONY COSTA IR COLHER URTIGAS"

Opinião

Uma legislatura longa demais para António Costa

António Costa começa agora a pagar, com três anos de atraso, o seu pecado original: andar a vender obsessivamente ao país que a austeridade do governo Passos estava errada, quando sabia perfeitamente que não havia alternativa a ela.
António Costa conseguiu um milagre no qual só mesmo ele acreditaria na noite de 4 de Outubro de 2015, após a sua inesperada derrota eleitoral: completar uma legislatura como primeiro-ministro, com o apoio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista. Esse facto, que muitas vezes é despachado (injustamente) como “habilidade política”, merece o meu respeito e a minha admiração. Contudo, é muito possível que o milagre de 2015 venha agora a revelar-se a maldição de 2019, se as greves continuarem a este ritmo e a degradação dos serviços públicos acelerar. A aprovação do último Orçamento do Estado, celebrada como mais uma vitória de Costa, pode muito bem ter sido menos uma vitória de Costa e mais uma vitória de Pirro, com o primeiro-ministro a acabar refém do seu próprio sucesso.
Se assim for, e se 2019 for o ano em que a esquerda comunista e bloquista se vai vingar de todos os sapos que engoliu durante a legislatura, colocando o governo que diligentemente apoiou a fritar em lume brando até Outubro, é caso para dizer: é muito bem feito, senhor primeiro-ministro. Porque se eu admiro a arte política que António Costa revelou nos últimos anos, e se continuo a considerar – como sempre considerei – que ele é o melhor quadro que o PS tem para oferecer ao país, há uma coisa que não lhe deve ser perdoada: ter assinado um pacto de governo com base numa mentira escandalosa, que fica para a História como “o virar da página da austeridade”.
Quando fazemos o balanço destes três anos, houve muitas medidas económicas que o governo tomou e com as quais não concordo, mas só uma delas posso classificar como verdadeiramente obscena – a redução do horário de trabalho de 40 para 35 horas na função pública. Essa, sim, é uma medida imperdoável. Mas, fora isso, não houve aumentos de 2,9% para a função pública em vésperas de eleições, como nos saudosos tempos de José Sócrates, nem delírios como a Parque Escolar ou o TGV. Ou seja, de um modo geral, a política adoptada por Costa e Centeno está dentro de padrões de responsabilidade financeira aceitáveis, ao contrário do que era prática comum no Partido Socialista.

"AS NOSSAS ESTRELAS DE TELEVISÃO"

Carlos Garcia partilhou uma publicação.


"PORTUGAL: "UM PAÍS DE LOUCOS, OU DAR PÉROLAS A PORCOS"
.
Salários Milionários dos "Srs. E Sras. Da Televisão" , muitos deles da empresa pública RTP.
Meu Deus que País é este !!!!!!!!!!!!!!!
Ainda por cima, muitos deles são semi-analfabetos!...

Ver Mais

JUSTIÇA; "UMA PARA O POBRE - OUTRA PARA O RICO"


A justiça da aparência


(Daniel Oliveira, in Expresso, 29/12/2018)
Daniel Oliveira
DanielEm entrevista ao Expresso, Maria José Morgado anunciou que tinha deixado de existir uma justiça para ricos e outra para pobres. Ou que essa ideia tinha desaparecido. Passou a ser mais barato aceder à justiça? Passaram os pobres a ter advogados públicos que lhes garantam uma verdadeira defesa? Deixou de ser possível arrastar processos durante anos, numa corrida de fundo que só os mais abonados podem pagar? Quem não pode esperar anos para que se resolva a ilegalidades do patrão, da grande empresa ou do Estado tem agora uma justiça rápida e segura? Nada disso.
Se há coisa que em Portugal continua a ser muito diferente para os ricos e para os pobres é a justiça. Mas eu estou a falar da justiça quotidiana, que não dá manchetes, não transforma magistrados em estrelas mediáticas e pela qual a cúpula do nosso poder judicial nunca será avaliada.
Maria José Morgado estava a falar da aparência da forma como a justiça trata alguns poderosos.Digo que é aparência porque nem essa mudança é real. Quase nenhuma das poucas pessoas em que Morgado estaria a pensar foi ainda condenada. Só aí saberemos se o Ministério Público fez o seu trabalho. Acusar é fácil. Pôr escutas e interrogatórios nas televisões, organizar julgamentos mediáticos e fazer buscas a ministérios por causa de bilhetes de futebol também. Difícil é preparar uma investigação sólida que leve um juiz a condenar, mesmo perante o excelente advogado que a defesa conseguir pagar.
Como vemos no caso e-toupeira, mesmo quando um crime entra pelos olhos dentro, o Ministério Público deixa o peixe graúdo fugir. Pressinto que isto se repetirá. Nem sequer foi o MP que fez ruir o castelo de corrupção mais relevante deste país. Nem os jornalistas. Foi a crise financeira que, ao fazer colapsar o Banco Espírito Santo, destapou a rede subterrânea de interesses que Ricardo Salgado administrava. Antes disso, a justiça pouco fazia e o jornalismo económico passeava os banqueiros num andor.
A autossatisfação do Ministério Público não vem dos resultados, vem da popularidade. Importante não é fazer justiça, é que o povo sinta que ela está a ser feita. E que atribua isso aos procuradores. Como o desejo de popularidade exige discursos simples, instalou-se uma narrativa que deveria ser estranha à justiça: a do “nós” contra “eles”, a do “povo” contra os “poderosos”.
Deste discurso para o ataque demagógico aos eleitos vai o passo de um Ventinha. E é por isso que temos o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público a dizer que a proposta de Rui Rio (de que discordo) é uma tentativa de o poder político impedir que a corrupção seja investigada.
Que um líder populista ponha sob suspeita toda a classe política é natural. Que isso seja feito por alguém que, por dever de ofício, devia sentir repugnância por qualquer tipo de generalização criminal é bem mais grave. E assusta que seja precisamente quem os procuradores escolheram para os representar. Mas é fácil de perceber o que se passa.
Quando os magistrados começaram a sentir que o século XXI seria “o século do poder judicial” (até o escreveram na apresentação de um congresso de juízes, em 2008), passaram a preocupar-se com a sua popularidade. E quem se preocupa com a popularidade dá prioridade à aparência. Num sistema de justiça cheio de problemas, o Ministério Público não passou a fazer melhor. Passou a fazer o mesmo com muito mais espalhafato.

TAILÂNDIA: "FESTIVIDADES DO ANO VELHO PARA O NOVO"

752 veículos apreendidos de motoristas embriagados nos primeiros dois dias de repressão na passagem do Ano Novo
 
Tailândia 29 de dezembro de 2018 11:15

The Nation

Autoridades apreenderam temporariamente 752 veículos de motoristas intoxicados nos primeiros dois dias dos “Sete Dias Perigosos” dos feriados do Ano Novo.

O coronel Sirichan Ngathong, porta-voz do Conselho Nacional de Paz e Ordem, disse em uma entrevista coletiva no sábado que na sexta-feira, o segundo dia da intensificação da fiscalização, 451 motos e 213 outros veículos foram apreendidos pelas autoridades de motoristas, intoxicados, demais, para dirigir com segurança.

De quinta a sexta-feira, 514 motos e 238 outros veículos foram apreendidos e no período de dois dias, 25.826 motoristas bêbados foram presos, acrescentou.

Só na sexta-feira, 21.383 motoristas bêbados foram presos, ela disse.

"ACTOR RUY DE CARVALHO PRESTADOR DE SERVIÇOS"

Rui de Campos
APLAUSOS PARA O DESASSOMBRO E A CORAGEM!!!
Ruy de Carvalho é, nos dias que correm, um homem que, finalmente, aprendeu com quem estava a lidar. Bateu-lhe à porta. E à porta de outros irá ainda bater. Para que também aprendam.
.
Num texto publicado ontem no Facebook, o veterano ator revela-se indignado com o ministro das Finanças, que acusa de “institucionalizar o roubo”, perante “o silêncio do Primeiro–Ministro e os olhos baixos do Presidente da República”. Ruy de Carvalho esclarece que decidiu manifestar a sua indignação depois de ter recebido uma carta das Finanças que indica que já não é “artista” e passou a ser apenas “prestador de serviços”, deixando de ter direitos conexos e de propriedade intelectual.

.
Eis a carta:
Senhores Ministros:
Tenho 86 anos, e modéstia à parte, sempre honrei o meu país pela forma como o representei em todos os palcos, portugueses e estrangeiros, sem pedir nada em troca senão respeito, consideração, abertura – sobretudo aos novos talentos – e seriedade na forma como o Estado encara o meu papel como cidadão e como artista. Vivi a guerra de 38/45 com o mesmo cinto com que todos os portugueses apertaram as ilhargas. 
 .
Sofri a mordaça de um regime que durante 48 anos reprimiu tudo o que era cultura e liberdade de um povo para o qual sempre tive o maior orgulho em trabalhar. Sofri como todos, os condicionamentos da descolonização. Vivi o 25 de Abril com uma esperança renovada, e alegrei-me pela conquista do voto, como se isso fosse um epítome libertador. Subi aos palcos centenas, senão milhares de vezes, da forma que melhor sei, porque para tal muito trabalhei.
.
Continuei a votar, a despeito das mentiras que os políticos utilizaram para me afastar do Teatro Nacional. Contudo, voltei a esse teatro pelo respeito que o meu público me merece, muito embora já coxo pelo desencanto das políticas culturais de todos os partidos, sem excepção, porque todos vós sois cúmplices da acrescida miséria com que se tem pintado o panorama cultural português.
.
Hoje, para o Fisco, deixei de ser Actor… e comigo, todos os meus colegas Actores e restantes Artistas destes país – colegas que muito prezo e gostava de poder defender.
.
Tudo isto ao fim de setenta anos de carreira! É fascinante. Francamente, não sei para que servem as comendas, as medalhas e as Ordens, que de vez em quando me penduram ao peito?
.
Tenho 86 anos, volto a dizer, para que ninguém esqueça o meu direito a não ser incomodado pela raiva miudinha de um Ministério das Finanças, que insiste em afirmar, perante o silêncio do Primeiro-Ministro e os olhos baixos do Presidente da República, de que eu não sou actor, que não tenho direito aos benefícios fiscais, que estão consagrados na lei, e que o meu trabalho não pode ser considerado como propriedade intelectual.
.
Tenho pena de ter chegado a esta idade para assistir angustiado à rapina com que o fisco está a executar o músculo da cultura portuguesa. Estamos a reduzir tudo a zero… a zeros, dando cobertura a uma gigantesca transferência dos rendimentos de quem nada tem para os que têm cada vez mais.
.
É lamentável e vergonhoso que não haja um único político com honestidade suficiente para se demarcar desta estúpida cumplicidade entre a incompetência e a maldade de quem foi eleito com toda a boa vontade, para conscientemente delapidar a esperança e o arbítrio de quem, afinal de contas, já nem nas anedotas é o verdadeiro dono de Portugal: nós todos!
.
É infame que o Direito e a Jurisprudência Comunitárias sirvam só para sustentar pontualmente as mentiras e os joguinhos de poder dos responsáveis governamentais, cujo curriculum, até hoje, tem manifestamente dado pouca relevância ao contexto da evolução sociocultural do nosso povo. A cegueira dos senhores do poder afasta-me do voto, da confiança política, e mais grave ainda, da vontade de conviver com quem não me respeita e tem de mim a imagem de mais um velho, de alguém que se pode abusiva e irresponsavelmente tirar direitos e aumentar deveres.
.
É lamentável que o senhor Ministro das Finanças, não saiba o que são Direitos Conexos, e não queiram entender que um actor é sempre autor das suas interpretações – com diretos conexos, e que um intérprete e/ou executante não rege a vida dos outros por normas de Exel ou por ordens “superiores”, nem se esconde atrás de discursos catitas ou tiradas eleitoralistas para justificar o injustificável, institucionalizando o roubo, a falta de respeito como prática dos governos, de todos os governos, que, ao invés de procurarem a cumplicidade dos cidadãos, se servem da frieza tributária para fragilizar as esperanças e a honestidade de quem trabalha, de quem
verdadeiramente trabalha.

.
Acima de tudo, Senhores Ministros, o que mais me agride nem é o facto dos senhores prometerem resolver a coisa, e nada fazer, porque isso já é característica dos governos: o anunciar medidas e depois voltar atrás. Também não é o facto de pôr em dúvida a minha honestidade intelectual, embora isso me magoe de sobremaneira. 
 .
É sobretudo o nojo pela forma como os seus serviços se dirigem aos contribuintes, tratando-nos como criminosos, ou potenciais delinquentes, sem olharem para trás, com uma arrogância autista que os leva a não verem que há um tempo para tudo, particularmente para serem educados com quem gera riqueza neste país, e naquilo que mais me toca em especial, que já é tempo de serem respeitadores da importância dos artistas, e que devem sê-lo sem medos e invejas desta nossa capacidade de combinar verdade cénica com artifício, que é no fundo esse nosso dom de criar, de ser co-autores, na forma, dos textos que representamos.
.
Permitam-me do alto dos meus 86 anos deixar-lhes um conselho:
aproveitem e aprendam rapidamente, porque não tem muito tempo já. Aprendam que quando um povo se sacrifica pelo seu país, essa gente, é digna do maior respeito… porque quem não consegue respeitar, jamais será merecedor de respeito!

RUY DE CARVALHO

MESMO A PROPÓSITO


Tinha eu acabado de fazer uma Forte Crítica (penso eu) à Comunicação Social Portuguesa através de uma Notícia Deturpada na Revista Visão, quando me aparece esta Antologia: 
António Barreto sobre a Actual Comunicação Social
É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capitalA banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.
 .
Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal. Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.
.
Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.
.
Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.
.
É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.
.
Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, suicídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.
.
A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.
.
Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.
.
A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos papagaios”* no seu melhor!
.
Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão. 
*papagaios não, chilreada de periquitos sim!
-
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico. 
.
Nota: Os “chefes” das televisões deviam ser obrigados a ler este texto até o saberem de corRecebido de DC e enviado por CV