Parafraseando
o Evangelho de São Marcos ("é mais fácil passar o camelo pelo fundo de
uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus"), este é um dos
grandes paradoxos da política em Portugal: sendo um dos países com um
nível de escolaridade média mais baixa da Europa, é no entanto, em
simultâneo, um dos países com uma classe política mais elitista.
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A política nacional é um território onde, genericamente, os pobres não entram. Existem, é claro, exceções - mas que fazem o habitual serviço das exceções: confirmam a regra.
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Basta olhar para o panorama das atuais lideranças partidárias com assento no Parlamento. Jerónimo de Sousa é a exceção: nasceu em meios desfavorecidos da periferia operária de Lisboa (Loures, onde aliás ainda vive), começando a trabalhar aos 14 anos como afinador de máquinas. Filiou-se no PCP depois do 25 de Abril e ascendeu na hierarquia do partido por via do sindicalismo metalúrgico.
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A política nacional é um território onde, genericamente, os pobres não entram. Existem, é claro, exceções - mas que fazem o habitual serviço das exceções: confirmam a regra.
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Basta olhar para o panorama das atuais lideranças partidárias com assento no Parlamento. Jerónimo de Sousa é a exceção: nasceu em meios desfavorecidos da periferia operária de Lisboa (Loures, onde aliás ainda vive), começando a trabalhar aos 14 anos como afinador de máquinas. Filiou-se no PCP depois do 25 de Abril e ascendeu na hierarquia do partido por via do sindicalismo metalúrgico.
De
resto, temos António Costa (filho da elite intelectual de Lisboa); Rui
Rio (educado num dos mais seletos colégios privados do Porto, o Colégio
Alemão); Catarina Martins (filha de pais professores, classe média do
funcionalismo público); Assunção Cristas (mãe médica, pai herdeiro de
empresas na Angola colonial).
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E se olharmos para o panorama geral
das lideranças partidárias em Portugal desde o 25 de Abril constata-se
exatamente o mesmo, desde os "pais fundadores" do regime (Mário Soares,
Álvaro Cunhal, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, todos originários de
meios sem dificuldades), passando para as gerações seguintes: Cavaco
Silva (filho de um proprietário agrícola e comercial do Algarve), Jorge
Sampaio (elite do funcionalismo público), Carlos Carvalhas
(proprietários rurais de Viseu).
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E as outras a seguir também: António
Guterres, Durão Barroso, José Sócrates, Pedro Passos Coelho, António
José Seguro, Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes, Pedro Santana
Lopes, Manuel Monteiro, Paulo Portas, só para dar alguns exemplos; ou
ainda o corpo fundador do Bloco de Esquerda (Francisco Louçã, Fernando
Rosas, Miguel Portas e Luís Fazenda): nenhum deles nasceu na pobreza e,
nalguns casos, muito pelo contrário.
Mais
uma vez, há sempre exceções. Mas na verdade é preciso procurar com uma
lupa para as encontrar. Vítor Constâncio, por exemplo, foi quase tudo em
Portugal - membro do governo, governador do Banco de Portugal, líder do
PS -, chegando na UE ao cargo de vice-presidente do BCE, apesar de ter
sido criado num dos bairros mais pobres de Lisboa, o Bairro da
Liberdade.
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Ora, o que acontece é que Portugal não tem apenas uma
classe política em que os pobres pouco ou nada entram. Na verdade, essa
marca distingue o país dos outros da UE, nomeadamente Espanha, Itália,
França, Alemanha, Reino Unido ou os países escandinavos. "Portugal sempre teve uma elite política mais elitista do que as outras"
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António
Costa Pinto, cientista político no ICS (Instituto de Ciências Sociais),
tem dedicado o essencial do seu esforço como investigador nos últimos
anos ao estudo das elites políticas não só portuguesas como europeias.
Foi, por exemplo, um dos coorganizadores de um estudo sobre o
recrutamento de todos os ministro dos países da Europa do sul entre 1840
e 2000 ("Quem governa a Europa do sul", edições Imprensa de Ciências
Sociais). Baseado no que estou estudou, assegura: "Portugal sempre teve
uma elite política mais elitista do que as outras."
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E a coisa não é
de hoje. Como tudo, tem uma raiz histórica: na 1.ª República, fundada
em 1910, "a grande maioria dos ministros eram licenciados" - algo
particularmente extraordinário num país com quase 80% de analfabetos;
depois Salazar (filho de um feitor agrícola de Viseu) recrutou
essencialmente nas elites académicas da universidade (Coimbra, em
particular, a universidade onde se formou). Conta-se até que António
Ferro (1895-1956), o principal artífice da propaganda do Estado Novo e
da imagem (interna e externa) do regime liderado por Salazar, nunca
chegou a ministro porque o ditador recusava não licenciados no seu
executivo.
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Qual foi então o fator que distinguiu - e ainda
distingue - Portugal dos restantes países? Costa Pinto avança uma
explicação: por múltiplas circunstâncias, no espaço entre as duas
grandes guerras do século XX, "não existiram em Portugal grandes
partidos que romperam com as formas tradicionais de recrutamento" do seu
pessoal, recrutando a partir da base da hierarquia social e em vez de a
partir das classes médias ou do topo.
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Esses partidos foram, nos
restantes países, os partidos comunistas, fascistas e trabalhistas. Nos
comunistas, o recrutamento fez-se em grande parte - e até com formas de
discriminação positiva - nos setores operários (o que explica que hoje o
líder do PC português seja um operário); os partidos fascistas como o
alemão e o italiano e até um pouco o espanhol também se afirmaram
mobilizando os setores mais desfavorecidos da sociedade, que alguns
qualificam mesmo como a ralé; e os partidos trabalhistas, que deram
origem aos partidos socialistas e sociais-democratas, também nasceram a
partir de estruturas sindicais (daí chamarem-se trabalhistas).
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Nada
disso existiu em Portugal. O PCP nasceu em 1921 e no final dessa década
já tinha sido declarado ilegal. Cinco décadas na clandestinidade (até
ao 25 de Abril de 1974) nunca lhe permitiram tornar-se um grande partido
de massas - e muito menos um partido dominante.
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Os fascismos italianos e
alemão e a sua forma de organização e recrutamento também nunca se
transladaram para o partido único do Estado Novo, a União Nacional, uma
organização que Salazar nunca permitiu que fosse de massas; e o PS
português, que é o partido homólogo dos partidos trabalhistas europeus,
não teve origem sindical, sendo antes formado a partir de elites
liberais ( principalmente advogados, começando pelo próprio Mário
Soares).
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A pobreza e o combate à pobreza ocupam uma parte
significativa dos discursos políticos hoje em dia. Mas a pobreza nunca
foi um território que tivessem habitado.
(Publicado originalmente a 14 de agosto de 2018)









