A Lei do Menor Esforço
23 Fevereiro, 2018
É
um facto incontestável: as empresas têm dificuldade em recrutar pessoal
para trabalhar. Uns dizem que é por culpa dos cidadãos que não querem
trabalhar. Outros culpam os salários baixos. Outros o Estado. Ainda há
quem atribua toda a responsabilidade nos patrões. Mas a verdade é que
não há só um culpado. São todas estas razões juntas que criam este
problema.
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Começa
pela forma como se educam os filhos. No tempo dos nossos pais, cedinho
se aprendia a ser responsável e a valorizar o trabalho como meio para
atingir os objectivos de vida. Sabíamos que para ser alguém na vida
teríamos de lutar. Ninguém o faria por nós. Havia transmissão desses
valores que entretanto se perderam. Na “evolução educacional”
inventou-se a mesada, uma espécie de salário para o filho cumprir com as
obrigações de filho, suprimindo as frustrações de ter de trabalhar fora
para ter seu primeiro par de ténis Nike.
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Ora, se por um lado o conceito
pode ensinar a gerir dinheiro para seus próprios gastos, por outro põe o
filho a receber sem esforço algo que ele deveria fazer por livre e
espontânea vontade, sem qualquer remuneração. Porque por essa ordem de
ideias, os pais também deveriam ser pagos pelos filhos para cozinhar,
lavar roupa, e dar habitação. Parece-lhe ridículo? Então porque pagamos a
nossos filhos para executarem suas obrigações de filho? E começa aqui o
primeiro grande problema: receberem dos pais para terem o que querem em
vez de lutar no mercado de trabalho. Vão dizer que é a mesma coisa.
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Não
é. Porque enquanto num part-time vão aprender a dureza do mercado de
trabalho cumprindo horários num ambiente profissional exigente e sem
margem para erros ou desculpas, em casa, vão recebendo a mesada, tenham
ou não feito tudo o que lhes competia na perfeição. A maior parte dos
pais, acaba mesmo por abandonar a árdua tarefa de exigir só para não ter
conflitos.
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Depois,
ainda em casa dos pais, vão ser estimulados a serem doutores. Porque
doutores é que é bom. Mesmo que tenham sido alunos medianos. Mesmo sem
qualquer aptidão para estudar no superior. Seguir curso profissional é
desprestigiante. Ser doutor é o objectivo.
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Então, em resultado, temos
jovens adultos a passear livros nas universidades, num curso mais fácil
de sair com canudo mas que depois só garante o desemprego. Irão procurar
trabalho APENAS na sua área profissional mesmo que demore anos.
Enquanto isso, há sempre a casa do papá para viver enquanto se espera… E
se a espera for longa? Procura-se outra coisa apenas para se manter
activo e produtivo, ganhar experiência, enquanto não surge o emprego
ideal? Procura-se empreender ou criar seu próprio emprego? Não.
Reclama-se à sombra da bananeira.
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Enquanto criamos filhos para serem
incapazes e eternos dependentes, o Estado passou também ele a ser “um
paizinho” de nós todos. Em vez de estimular as pessoas a serem activas
faz exactamente o contrário. Se não consegue um emprego não faz mal que o
“papá Estado” dá subsídio sem pedir nada em troca. Com esta política
estimulou-se a lei do menor esforço porque não converte os subsídios em
trabalho comunitário enquanto o cidadão não é colocado. E assim, as
pessoas passaram a ter rendimentos em casa, sem mover um dedo e sem
qualquer obrigação de retorno para a comunidade.
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Outro problema são os salários médios que
em Portugal são baixíssimos. De tal forma que acaba por compensar mais
ficar em casa a receber subsídio do que trabalhar pelo mesmo preço. Mas
se temos salários médios miseráveis é porque fomos desgovernados durante
décadas.
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Com 3 bancarrotas no currículo em 43 anos, passamos 4 décadas e
recuperar o país de crises económicas que assustadoramente no colocaram
no top dos países com impostos mais altos. Como pode um país que faz do
massacre fiscal às empresas sua política de eleição, ter salários
melhores?
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Por fim, os patrões. Não são todos
iguais. Há de tudo. Mas grande parte cultiva ainda a ideia de que pagar
poucochinho é poupar. E não percebe que com esta política desmotiva seus
trabalhadores que perdem rendimento. Que mais vale um trabalhador bem
pago do que dois com salários baixíssimos. Não percebem porque
culturalmente não evoluíram e as escolas empresariais em Portugal não
ensinam isto. E por isso, mesmo que possam, apostarão mais na “poupança”
do que no investimento pessoal.
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Assim, sem mudar a educação que damos aos
nossos filhos, sem mudar a atitude do Estado e mentalidade dos patrões,
haverá cada vez mais falta de pessoas para trabalhar. Porque ao
estimular a lei do menor esforço estamos a contribuir para uma sociedade
de parasitas.






