Síndrome de Estocolmo, Guerra dos Tronos e meninos traquinas no “parlatório” do PSD
(Liliana Valente, in Expresso Diário, 09/02/2020)

Esta é uma história alternativa do congresso do PSD. A
criação de um ‘link’ com o Bloco de Esquerda para derrubar o Governo, as
“sacanices” da esquerda ou a forma como os touros são bem tratados no
Ribatejo foram temas do palanque. Sabe qual foi uma das maiores ovações
dos delegados? Tem a ver com vivas à Azambuja…
O trono estava entregue, mas a guerra não foi
ficcional. E até Zeca Afonso foi chamado a intervir através do seu Fado
da Sugestão. “Não digas não, dize sim. Muito embora amor não sintas. Não
digas não, dize sim. O não envenena a gente, dize sim ainda que
mintas”. Rui Rio ouviu os versos sábios da canção e ouviria mais de uma
centena de militantes que um após um foram subindo ao palco para lhe
oferecer toda a sorte de conselhos, numa terapia matutino-noctívaga que
no sábado começou pelas 10h30 e só acabaria 16 horas depois.
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Às 2h11 da manhã de domingo, falaria o último delegado, Diogo Gomes
de seu nome, a pedir aquele derradeiro desejo antes do fim: que se toque
o “Paz, pão, povo e liberdade”. Não lhe fizeram o gosto. Rio ouvia-o,
já de pé, com uma pasta debaixo do braço. Não houve paz, houve pão,
houve povo e houve liberdade.
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Embora estivessem mais do que tudo embrenhados a sarar feridas (ou a
deixá-las sangrar), houve outros temas a ressaltar no “parlatório” do
PSD: a eutanásia (concordaram em defender um referendo), a
descentralização (querem mais e as autárquicas são o mote) e o
sindicalismo (como forma de roubar algo ao PS, a UGT). E sim, os
trabalhadores.
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Depois de resolvidas (digamos assim) as divergências internas, o
congresso era o momento certo para aclamar o líder (ou não). O PSD é um
partido onde as divergências ideológicas são notórias desde que caibam
todas debaixo do termo da social-democracia. A divisão é tão evidente
que querem ir de um lado ao outro, representar os patrões e empregados. E
são ao mesmo tempo o partido que tem quem defenda, como Alberto João
Jardim o fez, limitações à Lei da greve. É que a atual permite “que as
pessoas morram por causa das sucessivas paralisações na saúde”.
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Nesta terapia em que cada um diz o que lhe vai na alma, há um
diagnóstico conjunto: o PSD perdeu e anda à procura do caminho para
chegar de novo à senda do poder. O poder cola, a falta dele desune. “Os
portugueses preferiram a ‘geringonça’ à guerra dos tronos”, disse Carlos
Silva, um dos delegados. Certo é que o detentor do trono – esse líder
que esteve a ser “crucificado” nos últimos anos mas que é “genuíno”, não
“é de plástico” – não pode adormecer, porque cedo ou tarde haverá nova
batalha em King’s Landing. A “traquinice” não acabou, apesar de Jardim
os ter mandado recolher: “Sendo meninos traquinas ou idosos traquinas,
temos de ser irreverentes”, desafiou Ricardo Gonçalves. Os “meninos
traquinas” que desafiaram Rio vão para uma sesta mais ou menos
prolongada, falta saber qual o que vai acordar primeiro.
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Muitas horas de conversa servem para avaliar as maleitas próprias e
as dos outros, leia-se de António Costa e do Governo. Houve quem
atirasse a possibilidade de se tratar de “síndrome de Estocolmo” quando
“alguém é submetido a um tempo prolongado e passa a admirar o
sequestrador”. A referência era a Costa e à relação com as esquerdas.
Mas há quem ache mais que se trata de “sacanagem”. “Vão-se sacaneando
uns aos outros”, disse Adão Silva, futuro líder parlamentar.
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Nem toda a esquerda é mal vista por todos. Quer dizer, o Bloco de
Esquerda, o aliado da última semana na tentativa de reduzir o IVA da
electricidade. À noite, depois de o Benfica perder com o Porto pareceu
haver algum desnorte no congresso. Não porque Cristóvão Norte tenha sido
o primeiro a falar, mas porque depois dele chegou a surpresa de um
congressista que foi defender o “link” entre o PSD e o Bloco de
Esquerda. Aconselhando Rui Rio a “aprofundar a relação” com o partido de
Catarina Martins porque só com os votos da esquerda “é possível
derrubar o governo”. Esta relação improvável explica-se por um status de
Facebook: “É complicado”. É o contrário da “relação” que José Eduardo
Martins diz ter com o partido, apesar de sucessivas direcções não lhe
terem feito “like” e até lhe terem feito um “block”.
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A união num partido partido ao meio, só aparece quando se vira para o
ataque a António Costa e para a necessidade de roubar votos e discurso
ao primeiro-ministro. Uns querem fazê-lo pela direita, outros pelo
centro, outros entrando pelos temas da esquerda. Pela manhã, desfilaram
dois delegados a defenderem revisões do código do trabalho para promover
a contratação coletiva, mudanças na lei da precariedade ou o voltar
atrás de uma “medida gravosa” de Passos Coelho (não visto, não
referido), a da redução das compensações por despedimento.
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“Uma coisa é
defender as empresas, outra é compactuar com trabalho escravo. Estou
cansada e envergonhada de ver os trabalhadores a não serem tratados com
dignidade”, disse a histórica Virgínia Estorninho, fazendo a quadratura
do círculo, defendendo patrões e empregados. Ela que subiria ao palco
para também falar de touros e touradas. “No dia em que acabarem as
touradas, acaba o touro bravo. Vejam no Ribatejo como são tratados os
touros e vejam se são mal tratados. Detesto o fundamentalismo”. Não
seria a única vez que alguém da Azambuja faria história neste congresso,
mas já lá vamos.
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Primeiro, houve quem se preocupasse com a “corrupção dos alunos
angolanos”, a “falta de nascimento de bebés no Alentejo” – uma nota para
dizer que os socias-democratas de Portalegre se fizeram ouvir, apesar
de nas últimas legislativas terem perdido representação parlamentar -,
que devia haver um ministério do turismo e cultura (tudo junto), já que
quando se vai aos “Jerónimos é cultura e é turismo” ou que se deve
pensar porque é que as pessoas estão dispostas a pagar chamadas de valor
acrescentado para decidir “se a Maria ou o Manel saem da Casa dos
Segredos”, e depois não sentem que fazem parte da decisão política, que é
grátis.
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Houve quem tivesse usado a repetição como recurso estilístico no
discurso para reforçar a mensagem de que António Costa “endividou,
endividou” o país como tinha feito na Câmara de Lisboa. No PSD não houve
outro estado de alma que não fosse a falta de entusiasmo. Nem se pode
dizer que houve picos de grande emoção política.
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Ovações foram poucas e
aconteceram quando foram homenageados funcionários do partido. E houve
silêncios, daqueles tão prolongados e pesados que têm mais leitura
política, como aconteceu com Luís Montenegro. Tirando uns assobios ou
apupos pontuais, não se ouvia uma mosca na sala quando o candidato
derrotado falou. Ou as ausências: não se ouviu uma única referência ao
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
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Foram dias amorfos no PSD. Não houve tumultos depois da guerra, mas
houve azedume e enquistamentos. Era quase meio-dia no sábado e havia 52
cadeiras encostadas às mesas, que ainda não tinham sido usadas. Antes da
saída para o almoço, estavam sentados no congresso 102 pessoas. São 950
delegados a congresso. O cenário voltaria a repetir-se antes da saída
para o jantar: 47 pessoas sentadas, nem todas a ouvir os estóicos
delegados chamados a falar àquela hora (antes das oito da noite). As
outras tinham saído, muitas para assistir a outro clássico, o jogo entre
o Porto e o Benfica.
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Foi já depois da vitória dos portistas (não confundir com os
apoiantes de Portas) que o congresso voltou a ficar composto. Bem
composto com as cadeiras quase todas ocupadas. Sol de pouca dura. Uma
hora depois, o deserto e as queixas de quem sentiu que isto mostra
“falta de respeito pelos militantes”. “Temos de repensar as regras do
congresso”, disse um delegado insatisfeito e nada disposto a que
passasse despercebido: só quem o ouvia era o secretário-geral do
partido, Rio tinha saído por minutos.
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A bem da justiça há que notar, no entanto, que um dos momentos de
maior entusiasmo no congresso social-democrata foi quando um delegado
subiu ao palco para gritar: “Viva o PSD! Viva a Azambuja”. E saiu. Foi
uma das poucas vezes em que o congresso se levantou unido, a gritar em
uníssono: “PSD! PSD!”
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