O coronavírus e a comunicação social
(Carlos Esperança, 18/02/2020)

Há quem acuse a comunicação social de não fazer
investigação, de substituir as notícias por opiniões e aguardar que, dos
tribunais, lhe soprem revelações em segredo de Justiça para que os
julgamentos se façam na praça pública quando se duvida de acontecer
outro.
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Desta vez, no que respeita ao coronavírus, os jornais mantiveram
informados os leitores, a rádio não falhou noticiários e, ao mínimo
sintoma, as televisões deslocaram jornalistas e meios técnicos para
todos os hospitais onde eram internados viajantes de longo curso,
familiares de alguém que tivesse visitado a China ou com qualquer
hipótese de ter sido infectado pelo coronavírus.
Ao mínimo sinal de febre, tosse e mal-estar, afligiam-se as redacções; na gripe de alguma estudante chinesa entraram em frenesim; a cada espera do veredicto do Instituto Ricardo Jorge ficaram de prevenção equipas noticiosas, mas a desolação foi tomando conta das redacções. Um país sem o seu coronavírus, não é um país, é um offshore da pandemia, o deserto de notícias, a frustração de quem queria anunciar um coronavírus português, um evento que nos colocaria ao nível dos países mais avançados no contágio.
Só o público mal-agradecido se regozija com sucessivas deceções das
expetativas de um ou dois coronavirusinhos que salvassem a honra
cosmopolita do Portugal em inho.
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Baldadas que foram 10 suspeitas, era no 11.º caso que rádios,
televisões, jornais e redes sociais apostavam para salvar a honra ferida
da virgindade epidémica. Descartada a infeção no 11.º caso suspeito em
Portugal, instalou-se a desolação, e só as missas, com apelos para não
matarem velhinhos, quebraram a monotonia das viagens de longo curso do
PR e as suas irrefreáveis declarações.
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Há na mórbida procura de sangue, incêndios, desastres e pandemias uma
demência que nos conduz à falta de discernimento e indiferença perante
catástrofes iminentes que nos podem atingir.
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A encenação de tragédias e o medo conduzem um povo à ausência de
sentido crítico, ao embrutecimento coletivo e à neutralização da
inteligência.

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