Já que a Justiça, como sempre neste país, não aconteceu, protegendo os criminosos com amnistias,... para que não caia no esquecimento…
As vítimas e o sofrimento dos seus familiares.
A história das FP-25 de Abril
contada pelos familiares das vítimas
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Por Rita Tavares
publicado em 18 Abr 2015 - 19:00
publicado em 18 Abr 2015 - 19:00
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A história das FP-25 de Abril
contada pelos familiares das vítimas
As FP-25
fizeram ao todo 13 vítimas mortais. Nos 35 anos do aparecimento da organização
clandestina, o i falou com oito familiares dos que foram tocados pela sua
acção. Até onde foi a volta nas suas vidas?
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30 de Abril de 1984, meia noite e meia. São Manços,
Évora. No único quarto da casa dormem os quatros membros da família Polido
Dionísio. Delfina, 24 anos, dá um salto com o estrondo que acorda a pequena
aldeia, a partir da sua porta. Vê a luz da rua entrar pela parede do quarto.
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Ainda
nem sabe o que foi quando o instinto de mãe já lhe enfiou as mãos por baixo de
Nuno, o filho de quatro meses que dormia no berço ao seu lado. "Violentamente
atingindo", "morte imediata", "engenho explosivo",
"FP-25", ditaram os autos. "Porquê?". Não, a pergunta de
Delfina não ficou em 84. Mantém-se em 2015.
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Com a bomba que matou o bebé foi deixada uma pilha
de comunicados que se espalharam. Reivindicavam uma "acção de
retaliação" dos "trabalhadores organizados nas FP-25" contra
"os bens da família do latifundiário Dionísio Luís Ciroula", o
"fascista que deve à Cooperativa de São Manços milhares de contos e lhes
roubou terras com a cobertura do Centro Regional da Reforma Agrária". Por
ali, nem se sabia o que eram as FP-25. "Era politiquice e eu não ligava a
politiquice. A partir daí, então..."
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Dentro de um envelope A4 em papel pardo, Delfina
guarda recortes da imprensa da época. Aponta para a fotografia amarelada do
sogro, típico trabalhador rural, simples, boina inclinada sobre a testa vincada
pelo sol. A voz sofrida ganha ironia: "O meu sogro era este... o grande
latifundiário de que eles falavam."
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No pós-25 de Abril, Ciroula, como era conhecido em
São Manços, recusou aderir à cooperativa. Não tinha um palmo de terra sua, era
um rendeiro, mas não entrou no espírito de ocupação e preferiu manter-se por
conta dele, ajudado pelo filho Manuel. Em 79 acabou por recuperar o monte que
arrendava por mil contos anuais.
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"Chegaram a escrever nas paredes do monte
que o iam matar", recorda a nora. Mataram-lhe o neto, cinco anos mais
tarde. O caso foi amplamente condenado e, mais tarde, classificado como um
"erro" por operacionais das FP. "Uma organização de Lisboa vai
até São Manços e põe uma bomba por acaso?", questiona ainda hoje Delfina. "Claro
que é mentira", diz sobre a justificação de então.
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O MANIFESTO As Forças Populares 25 de Abril
fizeram rebentar mais de cem petardos por todo o país na madrugada do dia 20 de
Abril de 1980. Faz segunda-feira 35 anos que, desta forma, era dado a conhecer
o manifesto (ver página 6) da organização clandestina, que se provou ser o
braço armado da Força de Unidade Popular, fundada por Otelo Saraiva de
Carvalho, a única parte legal do chamado Projecto Global (ver página 10).
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Na
origem das FP estavam as Brigadas Revolucionárias (dissolvidas em 76), cuja
acção violenta acabara com o 25 de Abril. Mas o desencanto com o rumo da
revolução agitava a esquerda revolucionária e parte dela encontra expressão nas
FP, que pretendiam "responder com a violência revolucionária à violência
que diariamente se abate sobre quem trabalha".
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Uma espécie de justiceiros
da "sociedade socialista". A acção centrava-se em assaltos a bancos
para a "recuperação de fundos" (o grosso do financiamento da
organização) e rebentamentos e atentados contra administradores de empresas
onde os conflitos laborais eram mais acesos.
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ALVO: EMPRESÁRIOS O sector têxtil era um dos
mais agitados. Os irmãos Mesquita Oliveira recordam bem a revolta do pai, João
Mesquita de Oliveira, quando chegava a casa, depois do dia de trabalho à frente
da Carides, uma empresa familiar de Vila Nova de Famalicão, nascida nos anos
30, que empregava cerca de mil trabalhadores.
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O irmão mais velho é João Paulo,
que se lembra das queixas do pai sobre greves e manifestações e do "estrangulamento"
de uma "banca instrumentalizada". Os constrangimentos financeiros
cresciam e a turbulência social com eles.
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Ainda assim, Cristina, a terceira dos quatro
irmãos, sublinha "a forma humana" como o pai "sempre tratou os
seus trabalhadores" e explica por aí a "resistência aos sindicatos. Ele
considerava que o que os movia não era o interesse dos trabalhadores, mas sim a
desestabilização para destruir as empresas privadas". Na manhã de 28 de
Outubro de 1981, o empresário foi alvejado com três tiros nas duas pernas.
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João
Macedo Correia (que havia de ser um dos arrependidos das FP) esperou-o junto ao
portão de casa, comunicou-lhe o que ia acontecer, disparou contra o
"capitalista têxtil", como havia de dizer o texto a reivindicar a
acção, e fugiu. Seguiram- -se três meses de internamento, uma noite de consoada
em família, no hospital, e mais seis meses de reabilitação em casa.
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João Mesquita de Oliveira voltou à fábrica e a
família retomou o ritmo habitual, sem receios. "O que sentíamos era que o
queriam fazer já tinham feito." Mas também diz que "nunca mais se
esquece isto". Um testemunho muito próximo de Mercedes, filha de Manuel
Inglês Esquível, que tinha sido governador civil de Faro e Setúbal (ainda antes
da revolução). Em Março de 81 era director-geral da Sapec, altura em que também
foi alvejado nas pernas à porta de casa. "Senti alívio. Ainda pensei que
teve sorte, porque depois dele morreram pessoas."
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O irmão, João Luís,
acrescenta: "Não mataram o meu pai porque não quiseram." Mercedes tinha 20 anos, estudava Engenharia Química
no Técnico, onde hoje dá aulas. Não falava do assunto, em casa era assim, mas
chegou a ouvir um colega explicar que os tiros às pernas eram aquilo a que os
FP chamavam "ajoelhar o fascismo".
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Era o modus
operandi da organização, numa primeira fase. A verdade é que Manuel
Esquível não vergava. "Era um homem de convicções fortes e que defendia o
que considerava justo e certo", recordam os filhos. Voltou à Sapec mal
recuperou e o ataque não mudou muito os hábitos da família, excepto a presença
diária de um segurança.
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João Luís era militar na altura e confessa que "os
primeiros tempos foram horríveis. Olhava para trás das costas". Mas o pai,
nem por isso. Pouco tempo depois, Mercedes quis seguir para mestrado (não era
habitual na altura), o pai preferia vê-la a trabalhar e sugeriu que
participasse no concurso que ia abrir na Sapec para a admissão de estagiários.
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Ela
entrou com mais quatro colegas e esteve mesmo na fábrica em Setúbal, palco dos
maiores conflitos laborais, mas nunca sentiu animosidade por parte dos
trabalhadores por ser filha de quem era.
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A DOR DA AMNISTIA O famoso "tempo que
tudo cura" corre devagar para os que foram tocados pela brutalidade do
terrorismo. Mesmo que tudo passe, é absolutamente sensível o gatilho para que
tudo volte à flor da pele. Sobretudo quando a pergunta é: e a amnistia dos
condenados das FP-25, em 1996? "Revolta", responde João Luís
Esquível".
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"Revolta", responde Delfina. "Revolta",
dizem em uníssono os irmãos Mesquita Oliveira. "Revolta", diz
Alexandra Abreu, filha do agente da PJ Álvaro Militão, morto numa perseguição
às FP. "Revolta", diz Manuel, filho do director dos Serviços
Prisionais Gaspar Castelo-Branco, morto em 1986. No seu caso, ela vê-se.
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Tinha 17 anos quando um amigo que tinha acabado de
sair da casa dos pais, na Lapa, em Lisboa, toca à campainha a pedir ajuda. Tinha
dado com um homem caído no passeio. Manuel chegou à rua e reconheceu o casaco
do pai. "Dois tiros na nuca, isso eu vi", diz, com peso, 29 anos
depois. Assumiu o comando da família naquele minuto. Não deixou a mãe e as
irmãs descerem. Entrou num rol de horas de absurdo. "Só à uma da manhã,
quando me fui deitar, reparei que tinha sangue na mão."
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Era sábado, dia de reflexão da segunda volta das
presidenciais que elegeriam Mário Soares. Gaspar foi o primeiro (e único) alto
funcionário do Estado a ser atacado. Havia dezenas de arguidos das FP-25
presos, muitos deles capturados na operação Orion (ver páginas 8 e 9), que
desmantelou a organização em 84. Reivindicavam melhores condições na cadeia e
faziam queixas duras sobre a figura do director das prisões.
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Gaspar
Castelo-Branco sabia que estava na lista de alvos a abater. Andava com
segurança, excepto ao fim--de-semana, para "desmistificar a questão do
risco junto da família". "Depois disso tiveram regime de cela aberta.
Tiveram a recompensa pelo que fizeram ao meu pai."
Manuel, tal como todos os familiares das vítimas
das FP-25 com quem o i conseguiu falar, recorda ao pormenor o
dia em que tudo mudou.
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"A partir daí passaram a coexistir três mundos: o
de uma família desestruturada, o do medo e o da revolta." É membro da
Comissão Política do CDS e administrador dos CTT, e foi sempre o rosto mais
visível a falar pelas famílias das vítimas. O tema tornou-se uma fixação, apesar
de Manuel continuar a detestar que quem o conhece mal o interpele com este
gancho de conversa.
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Lê livros sobre o tema, conhece pelos nomes
operacionais das FP, tem gravados debates que têm tanto de polémico como de
doloroso para a sua família. Como aquele dos primórdios da SIC, em 1994, ainda
os processos judiciais estavam em recurso e alguns condenados em primeira
instância estavam fora da cadeia.
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Manuel põe o DVD a correr enquanto circula
pela sala num nervoso miudinho, agarrado ao telemóvel enquanto vai ouvindo, de
soslaio, Carlos Antunes, ex-dirigente do Partido Revolucionário do Proletariado
(que esteve na fundação do Projecto Global), chamar "psicopata" ao
pai, e Helena Carmo, outra operacional, a descrevê-lo como um "ser humano
da pior espécie".
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Não tinham passado sequer dez anos sobre o ataque
brutal. "É extraordinário, não é?", atira com rancor. "Custa
muito", admite, ao mesmo tempo que assume quase como missão esta mania de
compilar o que existe sobre esta parte da história do país, da vida da família.
"É uma forma de poder contar a história com factos."
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Dez anos depois, em Março de 1996, o parlamento
aprovou a amnistia e o perdão de pena para os implicados no caso das FP-25,
depois do apelo do Presidente da República Mário Soares.
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Foi poucos dias antes
de terminar o seu último mandato em Belém que Soares assinou a promulgação da
lei, aprovada por maioria no parlamento (PSD e CDS votaram contra), que
amnistiou "infracções de motivação política cometidas entre 27 de Julho de
1976 e 21 de Junho de 1991". De fora ficaram apenas "os crimes contra
a vida e a integridade física". No caso das FP foram julgados no processo
dos "crimes de sangue".
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As famílias tendem a personalizar em Otelo a mágoa.
Manuel Castelo Branco é duro: "Quando Otelo morrer, não vou comemorar, mas
vou ficar aliviado porque vou deixar de ouvir falar nele." José Pedro
Oliveira, o filho mais novo do empresário de Famalicão, ainda hoje muda de
canal quando vê o fundador da FUP (que sempre negou em tribunal a relação entre
o partido e a organização clandestina) na televisão.
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Cristina junta-lhe a
revolta com Soares. "Há um grande sentimento de revolta por o poder
político tratar Otelo como herói, ignorando que foi julgado e condenado por
crimes. Os filhos de João Mesquita de Oliveira criticam mais o processo
político que se seguiu que o judicial. José Pedro acredita que "o processo
de indemnizações [às famílias das vítimas] só foi aberto para permitir a
amnistia".
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Quando esse capítulo foi aberto, em 1997, foram 17 as vítimas
ou familiares que pediram indemnizações ao Estado (ver números na página
anterior). A família de Famalicão pediu para ser ressarcida das despesas
hospitalares com o pai depois do baleamento, mas recebeu uma nega porque a
vítima já tinha morrido. Os irmãos resumem numa frase: "Total falta de
respeito."
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NA RECTA FINAL A revolta com a amnistia também
acabou por ser sentida dentro da PJ, que há anos investigava as FP. Manuel
Rodrigues era agente na altura. "É óbvio que foi revoltante", diz,
mas também admite que hoje até compreende: "A forma de serenar uma
situação daquelas seria pela punição exemplar ou pela reintegração? Já não
existia a razão de ser daquele acto revolucionário."
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No decorrer da conversa fala de Álvaro Militão. "Perder
um colega de trabalho não é fácil." Lembra-se daquele dia? "Nunca me
hei-de esquecer." Respira fundo. "Quer que eu lhe explique como
foi?"
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Manuel esteve na mesma perseguição em Lisboa em que o colega foi
mortalmente atingido. Desenha na mesa com os dedos o pormenor da primeira
abordagem do carro, na larga Avenida Marechal Gomes da Costa, que levava quatro
operacionais das FP. A brecha aberta entre os carros da PJ para onde um toque
azarado por trás direccionou o carro perseguido. Fugiram. Militão era
"impulsivo", lembra o ex-agente Coutinho, continuou a perseguição.
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A
quente, Manuel Rodrigues estava atrás quando, na rotunda seguinte, no meio de
tiros, viu o carro do colega despistar--se. Um tiro no tórax provocou morte
imediata a Militão, de 33 anos. "Só leva o tiro porque conseguiu arrancar à
minha frente. Sempre pensei que, se não fosse ele, era eu." Foi em 1987.
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Alexandra Abreu estava com o filho Gonçalo, de ano
e meio, em Benavente, num almoço de família. O bebé estava inquieto,
"chorou o dia todo", lembra. Na noite anterior tinha sentido Álvaro
"apreensivo" com o dia seguinte. "Amanhã, se te lembrares, põe
uma vela a arder por mim", disse à mulher grávida de dois meses.
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Aos 20 anos ficou sem o pai de Gonçalo e de Álvaro,
que nasceria meses depois com um problema cardíaco grave que acabou por ser
fatal, aos dois anos de idade. Só há poucos anos Alexandra refez a vida.
"Acho que vegetei durante alguns anos", diz, assumindo ter-se tornado
"muito amarga e agressiva".
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Em casa guarda um dossiê com documentação e
recortes sobre o caso. O filho Gonçalo "foi crescendo a saber o que
aconteceu ao pai. É um adulto extremamente revoltado por causa de mim. Foi uma
carga muito pesada", confessa.
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Com um curso de estética, Alexandra pediu há uns
anos acesso a uma linha de crédito de apoio a novas empresas para abrir um
estabelecimento próprio, mas não teve sorte. Não tinha tido direito a
indemnização porque os agentes de segurança tinham seguros próprios. "Na
altura soube da atribuição de um subsídio para a agricultura ao operacional que
tinha matado o Álvaro. Ele não podia pagar indemnização porque não tinha
bens..." Alberto Teixeira Carvalho foi detido naquele dia; mais tarde,
tornou-se floricultor.
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Endireitar a vida leva tempo. Delfina também o
sabe. Já o fez duas vezes. A crise na agricultura, na década de 90, fez a
alentejana sair de casa para trabalhar como doméstica na casa de uma família
onde estava para nascer um bebé. Consolava a dor de ter perdido Nuno. A crise
levou também o marido a mudar de ramo. Tinha a carta de pesados e passou a ser
motorista.
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Em 1999, a desgraça voltou a entrar porta adentro da casa de São
Manços. Manuel morreu num acidente. Depois disso, Delfina mudou-se para Évora
com os dois filhos (Sara, que tinha um ano e meio na data do atentado, e
Marcos, nascido anos depois). "Foi uma luta novamente. O que me fez
agarrar à vida foi a minha fé, a família e os amigos." Voltou a casar há
dez anos, empregou-se no hospital da região como auxiliar.
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Há uns meses começou
a sentir grande cansaço, vertigens e falta de força. Pediu transferência de
serviço, mas nada mudou. Correu especialistas de várias áreas. Diagnóstico:
fadiga crónica. Foi nesta altura que consultou um psicólogo. "Fomos
recuando no tempo e chegámos ao acontecimento fatídico." Trinta anos
depois, a sua condição passou a ter nome: stresse pós-traumático. "O lugar
do Nuno está vazio."
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