Eutanásia: e agora?
(Bruno Maia, in Público, 20/02/2020)

“Embora a vida não seja referendável”, foi o
secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Barbosa que o
disse. Tem razão a cúpula da igreja: direitos fundamentais dos cidadãos
não devem ser referendados, devem ser assegurados.
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A proposta de
referendo é assim feita por quem não concorda com ela, com o intuito
exclusivo de suspender o processo legislativo normal e democrático. Para
a liderança da igreja católica, os fins justificam os meios, mesmo que
os meios ponham em causa o dogma central da religião: a vida é dada por
Deus e ninguém pode dispor dela – nem uma consulta popular o poderá
fazer. O referendo à despenalização da eutanásia não faz sentido nem sequer para quem o propõe.
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“Foi um debate muito participado por todos os quadrantes político-partidários, religiosos, sociais. Agora seguem o seu curso as iniciativas parlamentares”.
As palavras são do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em
2018.
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Tem razão o Presidente, os movimentos “a favor” ou “contra”
percorreram o país com debates, nos últimos 4 anos (desde que os
projetos-lei foram apresentados), cumprindo o seu dever cívico de
participação. A Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida
esteve em todos os distritos a debater o tema. O PÚBLICO já aqui deu
conta que desde 1995 tem havido propostas, debates, projetos sobre o
tema. Vinte e cinco anos, portanto. É difícil encontrar tema tão debatido neste país.
Sabemos que falta agora a palavra de Marcelo Rebelo de Sousa. Poderá usar o veto político, obrigando o parlamento a reconfirmar a votação. Mas o Presidente enfrenta um dilema: quando se candidatou, garantiu que não utilizaria o veto político para afirmar as suas convicções pessoais e que este só dependerá da “análise que fará do estado da situação da sociedade portuguesa”. Ora se vetar, será apenas pelas suas convicções pessoais, pois todos os estudos de opinião realizados nos últimos anos mostram, de forma inequívoca, que a sociedade portuguesa deseja a despenalização da morte assistida. Quebrar uma promessa eleitoral a menos de um ano da sua reeleição coloca Marcelo Rebelo de Sousa numa posição difícil.
Aprovados os projetos-lei na generalidade, posto de lado um referendo que
não faz sentido para ninguém e após o longo debate feito, este é o
tempo de pensarmos no futuro. Como se consensualizam os projetos-lei
aprovados na especialidade?
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O que fica de fora e o que é acrescentado? E
depois, como se aplica a lei? Que mecanismos devem ser criados para
garantir que os cidadãos que se encontram nas situações clínicas agora
aprovadas, podem efetivamente ter acesso à antecipação da sua morte? E
quem (e como) fiscaliza a aplicação da lei?
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Este é o debate que
interessa agora e que não pode ficar apenas entregue aos deputados e aos
técnicos, requer também a participação de todos.
Bruno Maia é médico neurologista, activista pela legalização da cannabis e da morte assistida
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