Eutanásia. A decisão mais importante da nossa vida
(Alexandre Quintanilha, in Expresso Diário, 13/02/2020)

Há século e meio, o nosso tempo médio de vida
andava pelos 40 anos e tudo sugere que possamos alcançar os 100 anos nas
próximas décadas.
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A evolução do conhecimento não se limitou a dar-nos mais anos de
vida; deu-nos também, frequentemente a capacidade de os usufruir das
mais variadas formas. Infelizmente, nem sempre estes anos adicionais de
vida são acompanhados da qualidade desejada.
Falemos sobre esta questão. O que acontece quando alguém tem a consciência clara de que a perda de autonomia, auto-estima e dignidade assim como o sofrimento físico e psicológico que sente, se irão acentuar nas semanas/meses/anos de vida de que possa vir ainda a usufruir?
Todos conhecemos, ou acompanhamos histórias dramáticas deste tipo de
situações, e “usamos” essas histórias para justificarmos a nossa posição
neste contexto. Se para uns, a resposta são os cuidados paliativos,
para outros, o desejo é o de por fim rapidamente a esse sofrimento.
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Mas o diálogo é difícil entre aqueles que consideram a vida humana
como uma “dádiva divina” e os que, pelo contrário, olham para a vida
humana como um processo de construção e consolidação individual. Uns
invocam o conceito de “obstinação terapêutica”, enquanto que outros a
noção de “prepotência da autonomia”.
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Os que defendem os cuidados paliativos afirmam que em situações de
grande fragilidade, é relativamente fácil convencer a pessoa de que não
vale mesmo a pena fazer mais nada. Mas este argumento é verdadeiro
também para quem deseja convencer a pessoa exatamente do contrário. E
ninguém sugere que os cuidados paliativos devem ser descurados. Mesmo
sabendo que ao entrarem em cuidados paliativos é difícil sair dos
mesmos.
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Atualmente, em Portugal, a decisão de terminar a nossa vida é
solitária e frequentemente angustiante. Continua a ser punível na lei a
assistência por parte de outrem, em particular por um profissional de
saúde, à morte de alguém que o tenha solicitado repetidamente. E é esta,
na minha opinião, a questão principal em discussão no debate sobre a
morte assistida.
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Como resposta ao medo da dor insuportável que faz com que alguém
queira terminar rapidamente o seu sofrimento, afirmam que existem muitas
formas de controlar a dor. Mas os efeitos secundários das elevadas
doses necessárias destes fármacos, são por vezes tão intoleráveis como a
dor que tentam controlar. E é perfeitamente concebível que para muitos
(em que eu me incluo), não é só a dor física que é intolerável. É também
a ideia de que a “quantidade de vida” adicional não compensa a
“qualidade de vida” perdida.
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E suspeito que quanto mais rica tiver sido
essa “qualidade de vida” de alguém, menos disposta estará a valorizar
semanas ou meses de vida adicionais. Quando começamos a sentir que a
nossa continuada existência deixou de ter qualquer relação com as
experiências físicas, racionais ou emocionais que mais valorizamos, e
que sentimos a nossa auto-estima cada vez mais fragilizada, o fim parece
perfeitamente razoável e até desejável para muitos de nós.
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Outro conceito é o de que os profissionais de saúde devem tratar,
curar se possível e acompanhar os doentes, nunca matar ou ajudar a
morrer. O que faz todo o sentido e deve continuar a ser o seu principal
objectivo. Mas só quem está muito mal informado é que não tem
conhecimento de inúmeros casos de ajuda, por profissionais de saúde, a
doentes perto do fim que querem acelerar a sua morte. Tudo feito às
escondidas, à margem da lei, com enormes riscos de denúncia e com
consequências profissionais gravíssimas. Não seria muito mais honesto
evitar ao máximo, ou mesmo acabar com esta situação?
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Admito que pensar desta forma pode parecer aberrante para alguns, mas
felizmente já muitos profissionais de saúde pensam o mesmo.
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Ainda outro argumento (o do slippery slope) é o de que os países onde
se dará assistência médica aos que querem morrer, passarão a ser
centros mundiais de morte assistida. As poucas experiências que existem
neste domínio, tanto nos EUA como na Europa ilustram situações muito
diversas. Onde é legal, o processo é longo, complexo e exigente – muito
diferente do que se passa onde é criminalizado e por isso mesmo
praticado às escondidas e sem qualquer controlo. E não deve surpreender
ninguém que, ao deixar de ser ilegal, o que era escondido tenha passado a
ser conhecido.
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No passado recente, em Portugal, este mesmo argumento (o do slippery
slope) foi (ab)usado nos debates da estratégia para a toxicodependência e
da interrupção voluntária da gravidez. Não só as previsões não se
concretizaram, como toda a evidência recente mostra exatamente o
contrário.
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Uma das soluções sugeridas e efetivamente aplicadas é a de não fazer
nada para tentar alongar o tempo de vida que resta, quando a equipa
médica decide que o paciente esta em fase terminal. Esta solução, em que
se mantém o paciente com, ou sem a hidratação mínima necessária, e que
pode durar dias ou semanas, é vista por muitos (onde eu me incluo) como
cruel e insensível.
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Por todas estas razões, e tantas outras que são sobejamente
conhecidas, acho que a morte assistida deve ser legalizada e
regulamentada, e que o processo seja o mais exigente e rigoroso possível
para evitar ao máximo aquilo que hoje acontece muitas vezes sem
qualquer supervisão.
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Para mim, a qualidade e dignidade da minha vida e da minha autonomia,
é muito mais importante que a “quantidade de vida” e suspeito que isso é
verdade para muitos cidadãos.
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Gostava de terminar com uma observação que considero, no mínimo
irónica. A história da humanidade está cheia de exemplos de pessoas que
escolheram e/ou aceitaram morrer para não abdicarem das suas convicções,
da sua “honra”, da sua “dignidade” ou da sua “verdade”.
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Estas pessoas
são normalmente admiradas e até por vezes vistas como mártires. O debate
em que estamos empenhados parece ignorar a ideia de que a forma como
cada um quer morrer é provavelmente a decisão mais importante da sua
vida.
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