Depois de anos de abandono, o palácio da Arrábida que serviu de refúgio a Jackie Kennedy foi vendido por 50 milhões
Depois de anos de abandono, o palácio da Arrábida que serviu de refúgio a
Jackie Kennedy foi vendido por 50 milhões.
Pertenceu a
Vasco da Gama e à Rainha D. Maria II e, ao longo do século XX, foi casa de
veraneio do Conde D'Armand e dos seus amigos da alta sociedade e realeza
europeia. Agora vai ser a residência privada de um casal milionário.
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A
Comenda é um local tão belo que chega a parecer irreal. Como se flutuasse nas
margens de um outro mundo, onde o tempo desacelera e as perturbações da
civilização vizinha não têm forma de entrar.
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É num promontório
sobre o rio Sado que se ergue um palácio com cinco pisos e 26 quartos, desenhado
pelo arquitecto Raul Lino, em 1903, para servir de residência de veraneio ao
Conde D’Armand, ministro de França.
Tem uma praia
privada e das grandes janelas e varandas que rasgam a fachada avistam-se apenas
as matizes de azul do estuário, do mar e do céu. Recortada contra o horizonte,
como que à deriva, a ilha de Tróia. Nas traseiras da Comenda, e em toda a
envolvente, estende-se “outro mar”, em tons de verde: 600 hectares de floresta,
em zona de reserva integral do Parque Natural da Serra da Arrábida.
O conde D’Armand com os filhos no palácio da
Comenda, por volta de 1910
Foto: Arquivo pessoal da família Armand/DR
Foi ali que Jacqueline Kennedy se refugiou, logo após o assassínio do presidente JFK, em 1963. A princesa Lee Radziwill, irmã mais nova de Jackie, era amiga da família D’Armand, e já tinha passado alguns dias inesquecíveis de verão no palácio português – numa das ocasiões levando consigo o escritor Truman Capote, um dos seus confidentes mais próximos.
Foi ali que Jacqueline Kennedy se refugiou, logo após o assassínio do presidente JFK, em 1963. A princesa Lee Radziwill, irmã mais nova de Jackie, era amiga da família D’Armand, e já tinha passado alguns dias inesquecíveis de verão no palácio português – numa das ocasiões levando consigo o escritor Truman Capote, um dos seus confidentes mais próximos.
As irmãs Jackie e Lee, numas férias de verão,
nos anos 1960. Apesar das rivalidades, viajaram juntas pelo mundo e
mantiveram-se unidas nos momentos mais difíceis.
Foto: Arquivo pessoal de Lee Radziwill/DR
Foto: Arquivo pessoal de Lee Radziwill/DR
Alguns anos antes da tragédia, as duas irmãs
viajaram juntas pela Europa e voltavam frequentemente às águas quentes do
Mediterrâneo, mergulhando nas ilhas gregas ou na francesa Cote D’Azur. Mas era
ali, na Arrábida, que estava o que Jackie Kennedy precisava naquele momento de
luto: o mar, sempre o mar, mas também paz e silêncio, longe dos holofotes do
mundo.
Depois da morte de Kennedy, Jacqueline fez o
luto no palácio da Comenda, por sugestão da sua irmã mais nova
Jackie
e Lee, bem como outras figuras da alta sociedade e realeza europeia, foram as
últimas personalidades a frequentar a casa de veraneio dos nobres franceses,
que a venderiam poucos anos depois.
O construtor
português António Xavier de Lima tornou-se proprietário da Casa da Comenda a
partir dos anos 1980 e com a sua morte, em 2009, os herdeiros colocaram-na à
venda. Foram precisos 11 anos para aparecer o dono certo para o palácio: alguém
que, além de pagar 50 milhões de euros, aceitasse preservar as características
do edifício histórico e manter intocados os 600 hectares de terreno em volta.
O palácio da Comenda, na Arrábida, em Setúbal, é
uma das obras mais belas do arquitecto Raul Lino, tendo sido construído entre
1903 e 1908
À partida é um local que parece perfeito para um
hotel de charme, mas como explica Filipe Lourenço, CEO da Property Luxury Real
Estate, que realizou a venda deste palácio, sem autorizações para construir
naqueles terrenos de reserva integral tornar-se-ia difícil obter retorno num
investimento tão avultado. Surgiram vários interessados ao longo dos anos e, em
três ocasiões, ofereceram até “valores superiores ao solicitado”, revela o CEO
desta imobiliária, especializada na venda de imóveis de luxo.
O palácio da
Comenda precisa de obras profundas, no valor de vários milhões de euros, depois
de anos de abandono. As estruturas principais estarão preservadas, mas o
telhado desabou parcialmente, há zonas do chão dos pisos superiores que
cederam, todas as portas e janelas estão partidas, as paredes foram grafitadas
e os painéis de azulejos roubados.
Palácio da Comenda, na Arrábida
Como foi possível deixar ao abandono um edifício
como este, ninguém sabe. Certo é que se arrasta desde 2004 um processo de
classificação do imóvel, primeiro no IPPAR, depois na Direcção-Geral do
Património Cultural (DGPC), estando neste momento “em vias de classificação”.
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Esse estatuto,
obtido em 2017, já lhe confere alguma protecção, no que a intervenções
arquitectónicas futuras diga respeito. Mas o Estado não podia intervir numa
propriedade particular, pelo que a Comenda teve de ficar à espera que um
“príncipe” a resgatasse da morte certa a que parecia condenada.
O casamento foi
oficializado em dezembro de 2019, como confirma Filipe Lourenço à VISÃO, depois
de três anos e meio de namoro. Irá ser a residência privada de um casal de
milionários, que prefere manter o anonimato.
Palácio da Comenda, na Arrábida
Segundo o jornal Diário da Região Setubalense, na última
reunião pública camarária foi comunicado que o Parque da Comenda e o
estacionamento e acesso à praia de Albarquel, que fazem parte da propriedade
privada, poderão vir a manter a utilidade pública, mas as negociações com os
novos proprietários não se avizinham fáceis.
O
parque de estacionamento já está inacessível (o jornal Setúbal Mais noticiou
que foi “destruído”) e o Parque da Comenda, que foi alvo de profundas obras de
melhoramento realizadas pela Câmara de Setúbal, poderá ter de encerrar ao
público até final deste ano. A autarquia estará ainda a tentar negociar ainda a
livre passagem nos trilhos para caminhadas, nomeadamente naquele que integra a
rota do Caminho de Santiago. À VISÃO, fonte do
gabinete da presidência do município disse apenas que “a situação está a ser
acompanhada de perto”.
De torre medieval a “prémio” para Vasco da Gama
Este local encerra uma história que começou, pelo
menos, nos tempos do império romano. Como explica Isabel Sousa de Macedo, da
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, no trabalho A Casa da Comenda de Raul Lino: de torre medieval a
residência de veraneio, “se, no dealbar
do século XX era o lugar de implantação de uma estância de veraneio
aristocrática, quinze séculos antes, em pleno domínio romano, servia de cenário
a um complexo industrial” e, “pelo meio, foi palco de importantes episódios na
história da nação”.
Ali
se fixou a Comenda de Mouguelas, pertencente à Ordem de Santiago, que construiu
a “torre” ou “fortaleza” de Mouguelas, conjunto edificado que, mais tarde, no
âmbito das obras de reforço defensivo da Restauração, foi transformado na
plataforma de S. João da Ajuda.
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O mestre da Ordem
de Santiago doou mais tarde a Comenda a Pedro Salgado, tesoureiro-mor de D.
Dinis, que, durante mais de 20 anos recebeu os rendimentos da propriedade que,
nesse início do século XIV, incluíam “uma torre-fortaleza, casas, vinhas, gado,
entre outros bens de natureza agrícola”.
Em 1495, o notável
cavaleiro da Ordem de Santiago, Vasco da Gama, é agraciado com a Comenda de
Mouguelas por D. Jorge de Lencastre, filho ilegítimo de D. João II, duque de
Coimbra e governador da Ordem de Santiago. A propriedade ficará na sua posse
até 1507.
Segundo
documentação encontrada por Isabel de Sousa Macedo, em 1506, enquanto a Comenda
se encontrava ainda sob a posse de Vasco da Gama (agora já feito almirante após
uma bem sucedida segunda viagem à Índia (1502/1503), D. Manuel I convocou
vários elementos das autoridades municipais de Lisboa, para uma “reunião
secreta”, no dia 4 de maio, em Mouguelas.
Uma epidemia de
peste assolava Lisboa, determinando a mudança da corte para locais não
contagiados. A rainha, Maria de Aragão e Castela, encontrava-se recolhida em
Abrantes, enquanto o rei se encontrava em Setúbal. “Daí que fosse natural que,
necessitando o rei de se reunir para tratar de algum assunto, convocasse os
intervenientes para junto de si, evitando deslocações maiores do monarca”, diz
a investigadora. Em Mouguelas “existia acomodação na torre de vigia e demais
dependências que aí se localizavam, e seriam dignas para a “aposentadoria” dos
visados.
Transformada em
fortaleza de São João da Ajuda depois de 1640, a Comenda de Mouguelas
permaneceria propriedade da nobreza portuguesa até 1848, quando foi vendida
pela Rainha Dona Maria II ao rico comerciante Agostinho Rodrigues Albino, que
detinha o monopólio do tabaco.
A propriedade viria
a ser comprada pelo conde D’Armand em 1872, por cinco contos de réis. Ernest
Armand tinha sido chefe de Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros de
França e assumido vários postos diplomáticos na Europa. Foi após a sua
“valorosa prestação” em Roma, junto à Santa Sé, que o Papa Pio IX lhe conferiu
o título de conde, em 1867.
Em 1870 foi colocado em Lisboa, arrendando um palácio em Santos, usando depois a Comenda como retiro de fim de semana. Em 1898 a casa foi herdada pelo filho varão do conde, Abel Henri Georges Armand, militar de carreira, que ali decidiu realizar obras profundas, para criar uma residência de verão onde pudesse passar férias com os seus cinco filhos e convidar membros das famílias reais europeias com quem privava.
Em 1870 foi colocado em Lisboa, arrendando um palácio em Santos, usando depois a Comenda como retiro de fim de semana. Em 1898 a casa foi herdada pelo filho varão do conde, Abel Henri Georges Armand, militar de carreira, que ali decidiu realizar obras profundas, para criar uma residência de verão onde pudesse passar férias com os seus cinco filhos e convidar membros das famílias reais europeias com quem privava.
Em 1903, o n.º 104 da revista de arquitetura A Construção Moderna apresentava a futura “Casa do Ex.mo Sr. Conde de Armand”, desenhada pelo jovem arquitecto Raul Lino:
A construcção é feita num pequeno promontório, de
luxuriante vegetação, sobranceiro ao rio Sado, em Setúbal, posição extremamente
pictoresca, como podem attestá-lo aquelles que tem visto as ridentes margens do
bello rio, junto à linda cidade de Bocage.
No
citado promontório existe actualmente uma velha casa, cujas paredes, em parte,
se aproveitam pois foram levantadas sobre as muralhas de um antigo forte. As grandes
varandas da nova construcção deitam para sobre o rio.
O
sr. Conde d’Armand entendeu, e muito bem que, no meio de uma paisagem
caracteristicamente clássica, em qua abundam as oliveiras, os pinheiros, as
agaves, figueiras da Índia e palmeiras, cyprestes, etc., não se deveria
collocar um edifício que não fosse de uma grande simplicidade, com grandes
superfícies lisas, não regulares e com uma silhueta serena, que esteja em
harmonia com aquelas amenas paisagens.
O palácio em construção, na primeira década do
século XX
Foto: Arquivo pessoal da família Armand/DR
Raul
Lino dizia, a propósito do projecto:
[...] |As obras de arquitectura são o produto de um
consórcio entre o arquitecto e a entidade que as encomenda. Se se entendem bem,
a criação sai escorreita; quando não há entendimento, o resultado é defeituoso
se não mesmo aleijado.
[…]
o que me surpreendeu foi o Conde Armand dizer-me que não desejava que eu
fizesse um só traço do projecto sem ter primeiro gozado uma noite de luar no
sítio onde tencionava fazer a sua casa.
[…]
o resultado lá está; e percebe-se no todo o gosto académico e meridional que
agradava àquele francês civilizado.
A família D’Armand numa das varandas do rés do chão do palácio, no início do
século XX
Foto: Arquivo pessoal da família D’Armand/DR
No final da obra, em 1908, Raul Lino escreveu ao conde, agradecendo a confiança:
Foto: Arquivo pessoal da família D’Armand/DR
No final da obra, em 1908, Raul Lino escreveu ao conde, agradecendo a confiança:
“Foi uma homenagem que prestou à classe dos
architectos portugueses, confiando a um d’elles a dispendiosa edificação da sua
nova casa da Commenda. Suspeito que não terá de arrepender-se. [Mas] algum
portuguez talvez haja, que, no seu caso, tivesse mandado vir […] architecto
francez.“










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