Um triste exemplo de pobreza política
03.08.2019 às 2h58
O
caso passou quase despercebido no meio da maratona de votações do
último plenário desta legislatura. Mas não foi menos indecoroso por
isso.
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Em outubro de 2018, a Rede Europeia Anti-Pobreza apresentou no
Parlamento um “Compromisso para uma Estratégia Nacional de Erradicação
da Pobreza”, do qual fazia parte a ideia de que “nenhuma política
sectorial deverá ser aprovada sem a prévia avaliação sobre os seus
impactos na produção, manutenção ou agravamento da pobreza e da exclusão
social”. Todos os partidos se manifestaram então sensíveis e abertos a
acolher a proposta.
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Em janeiro deste ano, foi apresentado um
projeto de lei para criar esse mecanismo. O “regime jurídico de
avaliação do impacto sobre a pobreza dos atos normativos”, proposto pelo
Bloco, tinha sobretudo o mérito de dar centralidade ao tema, num país
que tem ainda 1 milhão e 700 mil pessoas em situação de pobreza,
obrigando a que se olhasse para o combate à pobreza não apenas como uma
questão de “apoio aos pobres” ou de políticas sociais, mas sim como uma
questão transversal a todas as escolhas políticas.
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Quando a
proposta do Bloco foi apresentada, o Presidente da República elogiou-a
de imediato, manifestando-se “sensibilizado para ela” e o Governo, pela
voz do Ministro Vieira da Silva, declarou que via “como interessante a
proposta anunciada pela coordenadora do BE, ainda que seja necessário
analisar a sua operacionalização”.
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A 22 de fevereiro, fez-se o debate e a
votação no Parlamento. Nenhum partido votou contra. A proposta foi por
isso aprovada e passou-se ao debate na especialidade.
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Como é
comum nestes casos, quando se aprova uma proposta, é porque se quer que
ela dê origem a uma lei, feita com o contributo dos vários deputados na
Comissão respetiva. Passou-se o mês de março, abril, maio e nada.
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Em
junho, o presidente da Comissão parlamentar agendou o debate na
especialidade, que foi adiado por três vezes, para que os partidos
tivessem tempo de apresentar as suas propostas de alteração ao projeto. O
prazo esgotou-se e, surpresa, nenhum partido propôs nenhuma alteração,
nenhuma sugestão de aperfeiçoamento, nenhuma achega crítica. Nada.
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No
dia do debate na especialidade, PS, PSD e CDS anunciam que não têm nada
a dizer e que dispensam a discussão na especialidade da proposta.
Passa-se à votação. Ponto por ponto, juntam-se para chumbar, um a um,
todos os artigos do projeto de lei que tinha sido aprovado na
generalidade.
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Chumbaram a avaliação prévia do impacto sobre a pobreza,
chumbaram a existência de um relatório bianual sobre o progresso no
combate à pobreza, chumbaram a possibilidade de o Parlamento solicitar a
entidades externas a avaliação sucessiva de impacto sobre a pobreza de
determinadas leis e até a possibilidade de o Parlamento receber
anualmente uma delegação de pessoas em situação de pobreza para ouvir,
na primeira pessoa, o que se está a passar no país, ideia relativamente à
qual o Presidente da Assembleia tinha manifestado simpatia.
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Tudo
chumbado sem debate público, sem propostas alternativas, sem contributos
e com a tentativa de que esta mudança de posição passasse entre os
pingos da chuva no turbilhão de matérias que foram votadas na última
sessão.
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O processo foi insólito e lamentável. Mas o que aconteceu
nas 24 horas seguintes tornou tudo isto mais surreal se não mesmo
relativamente obsceno.
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No dia seguinte aos deputados do PS terem
chumbado a proposta que antes haviam viabilizado, o PS apresentou, no
seu programa, a seguinte proposta (página 100): "Consolidar e
desenvolver a experiência, já em curso, de avaliação do impacto das leis
quanto ao combate à pobreza (poverty proofing), consagrando a
obrigatoriedade de avaliação fundamentada das medidas de política e dos
orçamentos na ótica dos impactos sobre a pobreza".
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Ou seja, o PS,
que impediu que esta avaliação existisse por ter votado contra,
propõe-se continuar no futuro o que não existe porque o PS se juntou à
direita para chumbar.
Dá para acreditar?
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