Perfil de um governo que nada sabe
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Seria um absurdo
uma interpretação literal deste texto como se fosse um artigo de opinião. Ele
apenas recorda factos. Lista acontecimentos. Relaciona comportamentos. As
conclusões ficam para o leitor.
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Falhas no
combate a incêndios? O Governo nada sabia.
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Falhas nos
apoios a quem perdeu todos os seus haveres nos fogos? O Governo nada sabia.
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Encobrimento de
Tancos? O Governo ignorava.
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Operação stop do
fisco? O Governo desconhecia.
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Estradas em
risco e derrocadas com vítimas mortais? O Governo nada sabia.
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Jantar da
websummit no Panteão Nacional? O Governo não sabia.
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Auditoria à CGD?
O Governo nunca tinha ouvido falar.
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Prémios muito
polémicos na TAP? O Governo foi o último a saber.
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Acções
prepotentes de fiscalização da Autoridade Tributária em casamentos e festivais?
O Governo só ficou a saber pelos telejornais.
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Um Secretário de
Estado nomeia um primo para adjunto no seu gabinete? O Governo não sabia.
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Um ministro
acumula estas funções com a gerência de empresas? O Governo não sabia.
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Três governantes
viajam à final do campeonato europeu de futebol a convite de uma empresa em
litígio com o Estado? Eles não sabiam que
não convinha proceder assim.
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Obras de arte?
“Não estão desaparecidas, estão por localizar”. Tradução deste eufemismo: não
sabem.
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O Governo
decidiu não contabilizar a contagem integral do tempo de serviço dos
professores depois de o PS ter votado na Assembleia da República uma
recomendação ao Governo para a «contagem de todo o tempo de serviço para
efeitos de progressão na carreira e da correspondente valorização
remuneratória»?
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Claro que Governo não sabia. Ou, se soubesse, já não se
recordava. Ninguém pode exigir-lhe que se
lembre de tudo.
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Organismos do
Estado não apresentam planos e relatórios de actividades? O Governo nada sabe.
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“Golas inflamáveis”?
O Governo não sabia, a culpa só pode ser da Protecção Civil (tutelada pelo
Governo). Ah, afinal nem ardem. As capas dos microfones é que são inflamáveis. A
culpa, se calhar, é dos jornalistas.
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As tais golas
foram produzidas por uma empresa criada há 18 meses e pertencente ao marido de
uma autarca do PS. O Governo, obviamente, desconhecia tudo isto.
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Voltaram os
incêndios, já com mais de 23 mil hectares ardidos, depois de o Governo ter
garantido que este seria um dos anos com menos fogos. A culpa é dos autarcas,
que não prepararam as coisas. Como é que o Governo havia de saber?
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Mais de metade
da área ardida (54%) é de povoamento florestal. Como é que o Governo, ocupado a
fazer “a maior reforma da floresta desde D. Dinis”, podia adivinhar?
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Afinal há mais
empresas de familiares de membros do Governo – incluindo três ministros – que
mantêm ligações comerciais com o Governo. Obviamente, o Governo desconhecia. Só
sabia que “seria um absurdo uma interpretação literal da lei”. Faltando
especificar se todas as outras leis vigentes no País devem permanecer
igualmente ao abrigo de “interpretações literais”.
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Uma deputada
menciona uma residência falsa para receber subsídio de deslocação? Claro que o
primeiro-ministro António Costa não podia saber disto. Mas o secretário-geral
do PS, António Costa, sabia. E reconduziu a deputada como cabeça de lista às
próximas legislativas.
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Nota do
autor: seria um absurdo uma interpretação literal deste texto como se fosse um
artigo de opinião.
Fundador e
membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal

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