Entrevista a João Cerqueira, premiado escritor português com vários prémios internacionais
– Quem é o João Cerqueira?
Como nasci numa quinta, no Alto-Minho, o contacto com a natureza e as
tradições rurais moldaram-me. As brincadeiras de então eram muito
diferentes das actuais: andar à pedrada com os vizinhos, matar ratos e
cobras à paulada, atirar pedras pássaros e afogar insectos. A matança do
porco era um espectáculo assombroso, degolar galinhas emocionante. Por
outro lado, desenvolvi relações afectuosas com cães e gatos. Ainda hoje,
adoro subir árvores, andar descalço e fazer pontaria aos pássaros (com
fisgas e espingardas imaginárias). Por muito que leia ou viaje, manterei
sempre uma costela labrega.
Como o meu pai tinha uma excelente biblioteca, o meu desejo de ser
escritor deve ter começado desde que comecei a olhar para aqueles
livros. A minha escrita recorre ao humor para satirizar a sociedade
actual. Os romanos diziam Ridendo castigate mores – a rir se castigam os
costumes. Tento, pois, prosseguir a tradição literária que vai das
Cantigas de Escárnio e Mal-Dizer até Eça e Camilo, sem esquecer Gil
Vicente, Camões e Bocage. O romance 25 de Abril, corte e costura é uma
tentativa de fazer os portugueses rirem-se do seu país.

– Já recebeu diversos prémios internacionais. No entanto
praticamente não há noticias em Portugal sobre esses acontecimentos.
Porquê?
Venci três prémios literários nos Estados Unidos com o romance The
Tragedy of Fidel Castro que também foi considerado a terceira melhor
tradução publicada em 2012 pela Foreword Reviews; Jesus and Magdalene (A
segunda vinda de Cristo à Terra) recebeu a medalha de prata no Global
Ebook Awards e a medalha de bronze no Reader’s Favorite Awards em 2017; o
conto Uma casa na Europa venceu o European Literary Competition
Speakando, ficou em terceiro lugar no eBook Me Up competition na
Austrália e recebeu uma menção honrosa no Short Story Fiction Award da
revista Glimer Train em 2015. Infelizmente, em Portugal, a maioria dos
jornais e revistas não deram estas notícias. A editora e eu próprio
enviamos press releases para mais de cinquenta jornalistas da área da
cultura e, a maioria, sequer nos respondeu. Pelos vistos, não consideram
importante que um autor português vença prémios internacionais e seja
publicado nos EUA, Inglaterra, Itália e, em breve, Espanha e Argentina. O
Seatlle Post, o EL Nuevo Herald, o Examiner, a The American Culture e o
Silvio Canto Radio Show, divulgam o meu trabalho, mas os jornais e as
revistas portuguesas ignoram-me. No nosso país, a cultura é uma coutada
de amigos – e eu não faço parte do grupo.
– Recentemente queixou-se de ter sido censurado. Quer dizer aos nossos leitores o que aconteceu?
Além dos media, entre os quais a agência Lusa, me ignorarem, fui
realmente censurado. A revista Estante da FNAC contactou-me para ser
entrevistado. Afirmei que me sentia censurado e marginalizado. Disse,
também, que a cultura é dominada por uma esquerda caviar com pouco
formação democrática que exclui os que não alinham pela cartilha
socialista e marxista. Por fim, afirmei que o Islão é uma ameaça para os
valores europeus. Resultado: não publicaram a entrevista. Depois, uma
jornalista de um dos principais diários escreveu uma peça sobre as
minhas actividades literárias, mas a directora e os dois directores
seguintes não a quiseram publicar. E como último exemplo de censura,
fui, há meses, apresentar o livro 25 de Abril, corte e costura à
biblioteca Rómulo da Universidade de Coimbra e nenhum jornal local,
apesar da Rómulo lhes ter enviado a informação, noticiou o evento. Foi a
primeira vez que tal aconteceu. Se isto não é censura, o que é?

– Diversas figuras de direita já se queixaram de censura,
inclusivé nas redes sociais, Maria Vieira por exemplo, está impedida de
escrever há quase 2 meses. Já foi censurado nas redes sociais?
Nas redes sociais nunca fui censurado, mas sou frequentemente
insultado ou então recebo insinuações sobre o meu carácter _ miserável,
obviamente. A nível pessoal, amigos afastaram-se de mim. Afirmar que o
socialismo é uma fraude tem custos.
– Como define o ambiente democrático que se vive actualmente em Portugal?
Absoluta apatia dos cidadãos perante o desgoverno do país. Caos nos
hospitais e nos transportes públicos, indiferença do governo (de novo)
perante os incêndios, cargos públicos destinados a familiares,
crescimento económico medíocre e, para cúmulo, descobre-se que Portugal
foi o país da EU que menos acatou as recomendações de combate à
corrupção. Resultado: cai o governo? Não, sobe nas sondagens.
– E a liberdade de escrita?
Quem ousar criticar o socialismo ou desafiar o politicamente correcto
sofre retaliações. Existe uma brigada de polícias do pensamento
liderada pelo BE que regularmente exige condenações e despedimentos.
Fátima Bonifácio foi a mais recente vítima destes inquisidores. Se eles
tivessem o poder, limpavam as universidades e os jornais daquele que
consideram de Direita. Eduardo Cintra Torres e Gabriél Mithá Ribeiro
denunciaram este ambiente de intimidação. Alberto Gonçalves, um dos mais
mordazes críticos do poder socialista, foi sucessivamente saneado do DN
e da Sábado. Se não existisse o Observador, talvez já não escrevesse.
Logo, o lápis azul continua a existir _ e está a ficar mais afiado.
Todavia, só risca para o lado direito.

– Considera que grande parte dos portugueses tem receio em
escrever, caso essa escrita não for favorável aos partidos de esquerda?
Como referi, só as pessoas de Direita – desde o tempo em que Saramago
saneou jornalistas – sofrem retaliações por causa das suas ideias. Num
país civilizado, Francisco Louçã teria de ir para um coreto pregar as
suas teorias de megafone na mão. Em Portugal, está em todo o lado – e
com remuneração capitalista-liberal.
– Os americanos quiseram seguir um caminho claramente com
mais políticas de direita. O Brasil afastou-se do socialismo e do
comunismo. Até a Grécia que viveu uma aventura marxista elegou um
governo de direita com maioria. E em Portugal, porque acha que os
portugueses ainda não querem mudar de rumo?
Como afirmava Medina Carreira, em Portugal quem vence as eleições é o
partido do Estado pois tem seis milhões de eleitores. Funcionários
públicos e pensionistas decidem as eleições. Basta aumentá-los e nunca
se perde uma eleição. Foi essa a estratégia de Costa – à custa dos
restantes portugueses e dos serviços públicos.
Logo, enquanto houver dinheiro para distribuir pela clientela, a
Esquerda vai-se manter no poder. A Direita só chegará ao poder depois da
inevitável catástrofe financeira – a bancarrota – e então terá de fazer
o papel de mau de fita para arrumar a casa. No fim, a Esquerda sacode
responsabilidades e volta ao poder.
– Como classifica o trabalho do actual governo?
O actual governo existe apenas para se manter no poder. Nunca fará as
reformas que o país necessita, tal como fizeram os países de Leste e,
por isso, nos ultrapassaram. Por que motivo a Lituânia se tornou mais
rica do que Portugal? O que é que eles têm que nós não tenhamos?
Petróleo? Génios? Não, apenas meteram o socialismo na gaveta – como
sugeriu Mário Soares. Temos potencial para oferecer outra qualidade de
vida aos cidadãos, mas isso nunca acontecerá com governos socialistas
pois não querem abdicar do controle estatal. Afinal, ainda há pouco
tempo, toda a Geringonça elogiava o modelo da Venezuela. Já sobre a
Etiópia – que se tornou o país que mais cresce em África devido à
globalização e políticas liberais, e onde agora há centros comerciais e
cidadãos com telemóveis as ruas – ninguém fala.
– É comum a maioria das pessoas associarem os órgãos de
comunicação social à esquerda, basta ver os comentários nas redes
sociais e constatar que alguns jornais nem permitem comentários e
interecção nos seus sites. Porque acha que as pessoas fazem essa
conotação e porque acha que as pessoas tendencialmente mais à direita
estão afastadas dos jornais tradicionais e dos canais de televisão de
notícias?
Como referi, desde o tempo em que Saramago foi o director do DN, os
media e a cultura passaram a ser dominados pela esquerda. Afinal, o
Público, o DN, a Visão, a Sábado, a SIC, a TVI e a própria RTP, não são
controlados por pessoas de esquerda? O que sobra para a Direita? O
Observador, o Correio da Manhã e o Diabo.
– Considera que as pessoas só têm, até ver, alguma liberdade de escrita nas redes sociais?
O Facebook tem o seu lápis azul para o que considera politicamente incorrecto.
A pergunta que deve ser feita é a seguinte: deve, algum iluminado,
decidir o que se censura e o que se deixa passar? Ou deverão ser os
leitores a tomar essas decisões, desprezando o que consideram ser
ofensivo? O problema surge quando se censura alguém que apoia Hitler,
mas se tolera um apoiante de Estaline. Se se censurasse os apoiantes dos
regimes comunistas da mesma forma que se censuram os apoiantes dos
regimes fascistas e nazis, metade dos intelectuais, escritores e
artistas ocidentais deixavam de ser publicados ou expostos. Brecht,
Sartre, Picasso, Gorki, Saramago, Garcia Marquéz, etc, etc. A cultura
ocidental assenta sobre mentes totalitárias.
– Sendo natural de Viana do Castelo como vê a polémica do prédio Coutinho?
Comecei por ser a favor da demolição por motivos urbanísticos. Assim
continuaria a pensar se os direitos das pessoas não fossem atropelados. E
o que está a suceder agora é digno da URSS ou da China. Que eu saiba,
em nenhum país civilizado foram despejados cidadãos que legalmente
viviam nas suas habitações por razões de estética. E, de novo, quem
define o que é o belo e o feio? Umberto Eco explica isso muito bem.
Demais, num país onde não há dinheiro para tantos problemas urgentes –
como a ala pediátrica do Hospital de São João ou os bairros de lata de
Lisboa – como se pode gastar milhões a destruir um prédio? Resumindo, a
estética não pode nunca sobrepor-se à ética. A ideia de uma Viana mais
bela, harmoniosa e pura à custa dos direitos de alguns cidadãos (para um
suposto bem comum) faz lembrar os regimes totalitários do século XX. O
mínimo que se deveria fazer em Viana (e ainda assim poderia ser um
atentado aos direitos dos moradores) seria um referendo.

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