Marcelo no Porto: “Temos uma taxa de pobreza e de risco de pobreza inaceitável”
31.05.2019 às 13h20
JOSÉ COELHO/LUSA
Na sessão de abertura da conferência a propósito dos 131 anos do “Jornal de Notícias”, no Teatro Rivoli, Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou para teorizar sobre as diversas formas de populismo hoje vigentes nas sociedades
A
democracia portuguesa tem assentado em sete pilares básicos que a
estruturam, organizam e dinamizam, tal qual a entende Marcelo Rebelo de
Sousa. Porém, será crucial manter viva a coesão social para que os
esteios se mantenham firmes. Até porque, sublinhou já na parte final de
uma intervenção marcada pela referência às múltiplas formas de
populismo, “temos uma taxa de pobreza e de risco de pobreza
inaceitável”.
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Não
por acaso, ou em coincidência com notícias que continuam a dar conta de
atitudes de corrupção ou pelo menos de menos clara gestão da coisa
pública, o PR frisou a necessidade de existência de uma ética, que
poderá ser “republicana” ou “constitucional”, mas terá de ser sobretudo
“pessoal e social”.
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Numa
altura em que estar atento à defesa da nossa democracia, é estar atento
aos pilares fundamentais que a têm sustentado, Marcelo Rebelo de Sousa
enumerou os sete que considera fundamentais.
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À cabeça coloca o poder
local democrático, seguido das instituições de solidariedade social,
“por continuarem a fazer o que ninguém faz por elas”. Depois, os
parceiros sociais e políticos, capazes de divergir, “mas capazes de
convergir no que é estrutural, de regime”. De seguida aponta umas Forças
Armadas respeitadas pelo poder político e “prestigiadas interna e
externamente”.
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As Forças de Segurança também, “portadoras da confiança
dos portugueses”. Em sexto lugar surge a comunicação social “livre,
corajosa e crítica, mas que para o ser precisa de não viver sempre” nos
limites da sobrevivência, “da incerteza, da falta de recursos mínimos
para desempenhar a sua função social”.
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Por fim, uma sociedade civil
forte, “baseada no reconhecimento do papel insubstituível da iniciativa
privada na criação da riqueza, indispensável à sua repartição no combate
à pobreza e ao seu risco e na superação das injustiças e desigualdades
sociais”.
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É
cada vez mais decisivo, na opinião do PR, não adormecer perante os
problemas, “que continuam lá e noutros locais têm provocado roturas
sistémicas. Nem que se criem condições em que venham a enfraquecer-se as
alternativas políticas, económicas e sociais”.
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De
alguma forma, era o seguimento de um início marcado pelo tópico ao qual
se tem vindo a referir desde há três anos, materializado nas diferentes
formas de populismo espalhadas por diferentes latitudes. A expressão em
si mesma é vaga, diz o PR, até por abranger situações muito diferentes,
“embora entre si porventura relacionáveis”.
O tempo dos populismos
Aproveitou
para mandar alguns recados a quantos consideram populismo “estilos de
contacto mais direto entre governantes e governados, de maior
sensibilidade aos media clássicos ou as redes sociais, para cimentar ou
reformular legitimações de exercício, com ou sem alegado carisma”. Este
seria o “populismo formal ou de estilo”, que Marcelo entende ser antes
“proximidade dos cidadãos”.
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Depois
há o populismo radicado no discurso contra as instituições vigentes, de
rotura com a democracia, com apelo a basismos, a movimentos xenófobos,
inorgânicos ou inorgânicos, “contestando muito do que constitui o
sistema político nacional ou europeu”. Este seria um populismo
“doutrinário, retórico, discursivo, mais forte e mais radical do que
aquele que indevidamente é apelidado de populismo formal”.
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Há
um populismo ainda mais incisivo, que alude à passagem do discurso à
ação, “usando o estilo e o discurso para mudar o sistema”. Para Marcelo
este é o populismo estratégico, que engloba “estilo, doutrina por
ideologia e ainda ação de corte ativo com as instituições vigentes”.
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Existem
já vários exemplos de populismo estratégico, com multiplicação do
populismo retórico que, acentua Marcelo, “explicam a razão de ser da
chamada de atenção para as causas que os geraram e para a necessidade de
que sejam prevenidas e evitadas.
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Aí
entram a pobreza e o risco de pobreza, as desigualdades, as crises
económicas e sociais, mas também a distância entre eleitos e eleitores,
as sobrancerias, os deslumbramentos, os clientelismos, as
autocontemplações, os esvaziamentos das instituições e da sua utilidade.
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Este,
referiu o PR, “é um desafio diário que exige uma visão de longo prazo,
humildade, desprendimento pessoal do poder e, depois, e em especial,
fortalecimento dos pilares cruciais da nossa democracia”.
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