24/07/2019
J. A. Pimenta de França* no blogue aventar
Desconcertante,
brilhante, despenteado, amoral.
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Conheço o Boris
Johnson pessoalmente, fomos colegas de trabalho no início dos anos 90 quando
estive colocado durante três anos na delegação da Lusa em Bruxelas. Ele era o
correspondente do Daily Telegraph na capital belga.
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Por dever de
ofício encontrávamo-nos todos os dias em serviço, incluindo nas muitas viagens
ao estrangeiro que os jornalistas encarregados de cobrir a UE e a NATO em
Bruxelas são obrigados a fazer para acompanhar os trabalhos das instituições.
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É um tipo muito
inteligente, culto, simpático, embora arrogante (acho que é uma característica
da “British upper class” a que pertence), com um notável sentido de humor,
extremamente ambicioso mas, simultaneamente, extremamente desonesto.
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Não era
exactamente um jornalista, mas sim um político a fazer política através do
jornalismo. Mente sem remorsos, torce a verdade de forma que ela se enquadre no
que lhe der jeito no momento. Inventava notícias com a maior das facilidades,
sempre para pôr em causa as instituições europeias.
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Nas suas notícias
e crónicas no Daily Telegraph, Boris Johnson apresentava uma
narrativa sobre a União Europeia na qual as medidas de Bruxelas só tinham duas
leituras: umas eram exigências tresloucadas de burocratas excessivamente bem
pagos e desligados da realidade obcecados com a normalização de tudo, desde o
tamanho das bananas às placas de matrícula dos automóveis, desligados da
realidade; as outras, que não se enquadravam nesta primeira descrição, eram
medidas sinistras destinadas a tornar a União Europeia num super-estado
policial anulando todas as especificidades nacionais.
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As suas crónicas e
notícias eram prontamente desmontadas e desmentidas pelos gabinetes de Imprensa
da Comissão Europeia, do Parlamento Europeu ou dos outros organismos
comunitários.
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Para um jornalista
profissional, estes desmentidos seriam um drama pessoal, uma vergonha e uma
mancha na carreira. Mas para o Boris Johnson isso não tinha qualquer
relevância, era coisa que não o preocupava minimamente.
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Já tinha inquinado
a opinião pública britânica espalhando o seu veneno contra a UE nas páginas do
jornal, isso é que interessava…Um traste? Até certo ponto, sim. Mas um traste
ultra-sofisticado, educado em Eton e em Oxford, onde foi um dos melhores alunos
de sempre.
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Por isso, convém
sublinhar que o Boris Johnson não é desqualificado nenhum como o Trump ou o
Bolsonaro, com quem frequentemente é comparado. Nada mais errado.
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Pelo contrário, é
um tipo muito capaz, muito qualificado. Além dos livros que publicou na área da
intervenção política, é um historiador com vários livros de ensaio sobre
história publicados (a sua biografia de Churchill – The Churchill factor,
2014 – é uma referência elogiada unanimemente); foi um presidente da Câmara
(Lord Mayor) de Londres competente.
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Moralmente é que
me deixa as maiores dúvidas e preocupações. Considero-o absolutamente
irresponsável e indigno de confiança. Boris é um diabo brilhante, inteligente e
culto, mas completamente amoral. Uma mistura perigosa!… Até pode ser que dê um
bom PM. Mas ou me engano muito ou acabará por tropeçar em si próprio e
espalhar-se mais cedo ou mais tarde… Oxalá esteja eu enganado!…
*Jornalista reformado
(Agência Lusa)

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