terça-feira, julho 09, 2019

O ESTADO NÃO PASSA CARTÃO AO CIDADÃO



Ricardo Araújo Pereira

O ESTADO NÃO PASSA CARTÃO AO CIDADÃO

À secretária de Estado aconteceu o mesmo que a mim, quando vou à Loja do Cidadão: penso que tenho tudo certinho e afinal não, falta um papel, um carimbo ou uma assinatura

 Ilustração: João Fazenda

Primeiro, a secretária de Estado da Justiça disse que a culpa dos atrasos no levantamento do cartão de cidadão também era dos próprios cidadãos, que vão para a loja antes de as portas abrirem. Foi uma forma bastante delicada de dizer “desamparem-me a loja”. Neste caso, a Loja do Cidadão. Mas depois o ministério desmentiu a secretária de Estado e disse que não, que a culpa dos atrasos não era dos cidadãos. 
Ou seja, até para culpar os responsáveis pelo atraso é preciso tirar senha e ir para a fila. À secretária de Estado aconteceu o mesmo que a mim, quando vou à Loja do Cidadão: penso que tenho tudo certinho e afinal não, falta um papel, um carimbo ou uma assinatura. No caso da secretária de Estado faltava a assinatura da ministra, que não queria subscrever aquela tese. 
É desagradável, porque depois é preciso voltar a preencher a papelada toda e ainda se passa uma vergonha ou duas durante o processo. Acontece. A secretária de Estado precipitou-se ao culpar as pessoas que se precipitam para a Loja do Cidadão. Foi um caso de culpabilização precoce.
E, no entanto, a secretária de Estado tinha razão. Se os cidadãos não fossem para a Loja do Cidadão, o atendimento era muito mais rápido. Isto parece-me indiscutível. É difícil, aliás, compreender o comportamento dos cidadãos. As ferragens não se aglomeram à entrada da loja de ferragens; os brinquedos não vão de madrugada para a porta da loja dos brinquedos. Logo por azar, os cidadãos são atraídos pela Loja do Cidadão como as traças pela luz. 
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Os próprios atrasos nos hospitais são, em grande medida, provocados pela obstinação dos cidadãos que, a pretexto de se encontrarem doentes, vão entupir corredores e salas de espera. Com a sobrelotação dos transportes acontece o mesmo. Os cidadãos movimentam-se aos magotes, aparentemente com o único propósito de criar embaraços ao governo. 
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Não custava nada fazerem uma escala para usarem os serviços públicos em pequenos grupos de 20 ou 30 cidadãos de cada vez, por exemplo. Pois fazem exactamente o contrário. Que vontade de embirrar.

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