O ESTADO NÃO PASSA CARTÃO AO CIDADÃO
À secretária de Estado aconteceu o mesmo que a mim, quando vou à Loja do Cidadão: penso que tenho tudo certinho e afinal não, falta um papel, um carimbo ou uma assinatura
Ilustração: João Fazenda
Primeiro,
a secretária de Estado da Justiça disse que a culpa dos atrasos no
levantamento do cartão de cidadão também era dos próprios cidadãos, que
vão para a loja antes de as portas abrirem. Foi uma forma bastante
delicada de dizer “desamparem-me a loja”. Neste caso, a Loja do Cidadão.
Mas depois o ministério desmentiu a secretária de Estado e disse que
não, que a culpa dos atrasos não era dos cidadãos.
Ou seja, até para
culpar os responsáveis pelo atraso é preciso tirar senha e ir para a
fila. À secretária de Estado aconteceu o mesmo que a mim, quando vou à
Loja do Cidadão: penso que tenho tudo certinho e afinal não, falta um
papel, um carimbo ou uma assinatura. No caso da secretária de Estado
faltava a assinatura da ministra, que não queria subscrever aquela tese.
É desagradável, porque depois é preciso voltar a preencher a papelada
toda e ainda se passa uma vergonha ou duas durante o processo. Acontece.
A secretária de Estado precipitou-se ao culpar as pessoas que se
precipitam para a Loja do Cidadão. Foi um caso de culpabilização
precoce.
E,
no entanto, a secretária de Estado tinha razão. Se os cidadãos não
fossem para a Loja do Cidadão, o atendimento era muito mais rápido. Isto
parece-me indiscutível. É difícil, aliás, compreender o comportamento
dos cidadãos. As ferragens não se aglomeram à entrada da loja de
ferragens; os brinquedos não vão de madrugada para a porta da loja dos
brinquedos. Logo por azar, os cidadãos são atraídos pela Loja do Cidadão
como as traças pela luz.
.
Os próprios atrasos nos hospitais são, em
grande medida, provocados pela obstinação dos cidadãos que, a pretexto
de se encontrarem doentes, vão entupir corredores e salas de espera. Com
a sobrelotação dos transportes acontece o mesmo. Os cidadãos
movimentam-se aos magotes, aparentemente com o único propósito de criar
embaraços ao governo.
.
Não custava nada fazerem uma escala para usarem os
serviços públicos em pequenos grupos de 20 ou 30 cidadãos de cada vez,
por exemplo. Pois fazem exactamente o contrário. Que vontade de
embirrar.
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