Politica
Militares desafiam ministro
Centenas de militares das Forças
Armadas pedem a demissão de João Gomes Cravinho em defesa do chefe de
Estado-Maior General, após este ter denunciado que a situação na
Instituição Militar «é insuportável» devido à falta de pelo menos seis
mil efetivos
O ministro da Defesa e os militares portugueses
entraram em choque frontal em plena praça pública. João Gomes Cravinho
sugeriu que se o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas
(CEMGFA) considera não ter condições para cumprir as missões que lhe
estão confiadas pelo Governo, então não deve continuar em funções.
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Os militares levaram o discurso do ministro como uma ameaça e
pedem agora a demissão de João Gomes Cravinho. Toda a polémica começou
numa entrevista à Rádio Renascença, no dia 18 de julho, do Chefe do
Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), almirante Silva
Ribeiro, na qual considerou que a situação atual das Forças Armadas (FA)
portuguesas «é insustentável», devido à falta de recursos humanos nas
fileiras militares.
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O Almirante Silva Ribeiro sublinhou também que tem
alertado o Governo para este cenário, que deixa a instituição num
«desequilíbrio», tendo em conta as missões a cumprir e os meios humanos
para o fazer. Em menos de 24 horas, João Gomes Cravinho reagiu a estas
declarações, expressando um claro desagrado com a forma como o CEMGFA se
tinha pronunciado, apesar de concordar com o retrato feito.
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‘Linguagem infeliz’ «Houve infelicidade na
linguagem, mas o problema é real», disse o ministro, acrescentado que
«esta matéria tem vindo a ser objeto» permanente da sua atenção e que
tem sido «discutida no Conselho Superior de Defesa Nacional, na
Assembleia da República, no Conselho Superior Militar».
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João Gomes
Cravinho acabou por se recusar a «dramatizar» a falta de militares nas
FA e, além de reforçar que «seria erróneo e redutor imaginar que nada
está a ser feito», afirmou que se o CEMGFA não pode cumprir a sua
missão, «então sairia» de funções. «Se ele [CEMGFA] chegasse à
conclusão, que não chegou obviamente, que não pode cumprir essas
medidas, então sairia. Mas não é essa a situação», disse o ministro da
Defesa.
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Se para o governante a linguagem do Almirante Silva Ribeiro foi
infeliz, para muitos militares, a sua resposta foi inaceitável. Desde o
início da semana, ao que o SOL apurou, centenas de militares dos três
ramos das FA já assinaram um manifesto que exige a demissão do ministro
por ter convidado «sibilinamente o CEMGFA a demitir-se, ficando no ar a
ameaça de o fazer», pode ler-se no documento redigido pelo oficial da
Força Aérea João José Brandão Ferreira.
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Contacto pelo SOL, o tenente-coronel António Mota, presidente da
Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA), confirmou que a
associação considera a caracterização denunciada pelo Almirante Silva
Ribeiro «rigorosamente verdadeira». Quanto à demissão do ministro, o
responsável garante que a associação não tem qualquer envolvimento no
referido manifesto. O tenente-coronel António Mota sublinha que tal
afastamento «de pouco serviria», tendo em mente que o problema não está
nos executivos, mas sim «na ineficaz estratégia» que tem sido
reproduzida por sucessivos Governos.
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Esperando que os portugueses
compreendam «a gravidade da situação nas FA», o presidente da AOFA
apenas ‘lamenta’ que o general piloto aviador Joaquim Borrego, chefe do
Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), e o almirante Mendes Calado, chefe
do Estado-Maior da Armada (CEMA), só tenham alertado para o cenário
pouco tempo antes do CEMGFA, pois «é uma realidade que se tem vindo a
verificar há pelo menos uma década», explicou.
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Partilhando exatamente a mesma posição, o cabo-mor Luís Reis,
presidente da Associação de Praças, destacou igualmente ao SOL que esta
não é uma «desvalorização» de agora.
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«Há cerca de 10 anos que a associação tem tido reuniões com os Chefes
militares, com o Ministério da Defesa, com os grupos parlamentares e
com a própria Comissão de Defesa, e em todos estes encontros previmos e
denunciámos esta situação. A falta de efetivos tem vindo a aumentar ao
longo dos últimos anos - simplesmente, não se tem criado soluções para
que esta realidade não subsista», defendeu.
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Ainda na mesma linha de pensamento, o sargento-mor Lima Coelho,
presidente da Associação Nacional de Sargentos (ANS), apontou o dedo
também às várias governações. «Os responsáveis são os sucessivos
governos que passaram pelo país, ao longo destes anos, e que,
independentemente dos partidos que os integraram, conduziram a
Instituição Militar ao estado em que hoje nos encontramos», garantiu o
presidente da ANS ao SOL, enfatizando não querer comentar, em
específico, as declarações quer do ministro quer do CEMGFA.
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O sargento-mor defendeu ainda que as FA devem ser «faladas por todos
os cidadãos» e não apenas tratadas em «fóruns ou circuitos fechados com
os mesmos oradores de sempre», recordando que os militares servem o
país e, como tal, «o povo português tem uma palavra a dizer».
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Esta quarta-feira, João Gomes Cravinho publicou um artigo de opinião
no jornal Público onde, num tom mais suave, defendeu que a discussão
sobre «o número de militares que hoje servem nas Forças Armadas é uma
excelente oportunidade para dar a conhecer aspetos desta complexa
realidade e as soluções que estão a ser desenvolvidas».
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Ainda neste texto, o sucessor de Azeredo Lopes, sem fazer qualquer
alusão ao pedido da sua demissão, recorda que tem havido um
distanciamento entre a sociedade e as FA não só em Portugal, mas também
noutros países da Europa. De seguida, o governante invoca algumas
respostas que têm sido apresentadas pela tutela, como o Plano de Ação
para a Profissionalização, divulgado em abril, com 34 propostas
alinhadas numa estratégia para os próximos cinco anos. João Gomes
Cravinho salientou iniciativas como o aumento do salário de base de
entrada dos militares ou a atualização do Regulamento de Incentivos.
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Sobre as mais recentes palavras do ministro, os representantes das
associações contactadas pelo SOL explicaram que essas medidas não
convencem, pois nunca chegam a realizar-se ou acabam por não representar
reformas estruturais nas FA.
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«Uma coisa é certa: quando não se concretizam as leis que se aplicam
aos militares ou quando não se respeitam as funções dos militares não
adianta estar a apresentar projetos se depois não são cumpridos»,
acrescentou ainda o sargento-mor Lima Coelho, da ANS.
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O SOL contactou também o comandante Pedro Santos Serafim, responsável
pelo gabinete do CEMGFA, que referiu nada mais haver a declarar por
parte do órgão militar sobre o assunto.
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Seis mil militares em falta Na polémica entrevista, o
almirante Silva Ribeiro afirmou que faltam seis mil militares às FA e
que é imperioso aumentar os salários, tendo em conta que centenas de
militares abandonam a Instituição para servirem na PSP e GNR. O CEMGFA
recordou também que nos últimos cinco anos saíram mais de 15 mil
efetivos e que, só em 2019, já saíram mais de três mil, sendo que 2.600
pertenciam ao Exército, obrigando os militares ao serviço a um «esforço
tremendo».
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Esta semana foi entregue uma petição na Assembleia da República por
dirigentes de estruturas representativas das Forças Armadas, Polícia
Marítima e GNR, com mais de cinco mil assinaturas. Em causa está o
desbloqueamento das carreiras e a não contabilização, para efeitos de
progressão, do tempo em que as carreiras estiveram congeladas, desde
2011. Os militares exigem agora que seja revisto o decreto-lei 65/2019,
de 20 de maio.
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À MARGEM: Nunca aceitei que um civil, que não percebe nada de assuntos militares, assuma o cargo de ministro da Defesa. Assim como, antes, o Cravinho não perceber nada de diplomacia tenha sido embaixador de Portugal na União Europeia. Os ingleses chamam isto "balshit" que traduzido para a língua portuguesa é: "bola de merda".
José Martins
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