Marcelo, consensos e maiorias
(José Gabriel, 12/07/2019)
Já se desenhava há muito, mas o recente discurso
do Presidente da República na Fundação Gulbenkian avança por terrenos
que, contenhamo-nos na adjectivação, são, no mínimo, duvidosos. O que se
questiona, assuma-o o orador ou não, é a própria concepção de
democracia.
A democracia pode ser concebida em várias configurações, mas estas
têm em comum alguns traços fundamentais. Todos os cidadãos têm o direito
de participar em plano de igualdade, de modo directo ou por
representantes, na produção de leis, na governação. Idealmente, o
sufrágio universal que lhe está na base deve ser tão extenso quanto
possível. A autonomia política dos cidadãos implica condições culturais,
sociais, económicas e exerce-se em liberdade e igualdade e sob o
domínio da Lei. A deliberação em democracia assenta no apuramento das
maiorias determinadas – que podem ser, de vários modos, qualificadas -, e
no escrupuloso respeito pelas minorias.
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Se o que se diz atrás é aceitável, todos os devaneios mais ou menos
obscuros de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os méritos e vantagens dos
consensos – termo a que nunca se faz corresponder um conceito claramente
definido – sobre as maiorias – chamadas, pelo orador, conjunturais –
perdem todo o sentido.
Parece ao senso comum que a noção de consenso é bondosa, pelo atávico receio da clareza da oposição de convicções, opiniões, propostas políticas. No “consenso” tudo parece diluir-se num caldo morno de indefinição, num lago de águas turvas onde se pesca com facilidade. E note-se: os campeões de consenso nunca ou raramente dão conteúdo objectivo e concreto a tais fantasmas propositivos.
Não que o consenso não possa ser uma ocorrência simpática no dia a
dia, em matérias onde não nos vale a pena o confronto por ser estéril o
motivo. Mas em política, opor os alegados méritos do consenso aos
alegados deméritos das maiorias é um gesto fundamentalmente
anti-democrático. No caso de Marcelo nem há o esforço de uma formulação
muito sofisticada. Consensos são as maiorias de que ele gosta; maiorias
conjunturais – como se todas, em princípio, não o fossem – são as que o
desgostam. Toda a retórica da necessidade de leis estruturantes é uma
treta, a não ser numa formulação tão básica e abstracta que, por
ausência de matéria, mereça a concordância de todos pela via do não-ser
que, como ensina o mestre, não nos leva a lado nenhum.
.
Marcelo sabe que qualquer maioria, mesmo que qualificada, pode ser,
tarde ou cedo, contrariada por uma outra. E pode tal nunca acontecer. É
isto a democracia representativa. Mas criar “consensos”, reais ou
imaginários, que sejam obstáculos à livre expressão dos representantes
dos cidadãos, é uma manobra pouco clara – para dizer o mínimo. No
limite, esses tais consensos teriam, para ser efectivos, de se traduzir
em maiorias.
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Dir-me-ão que há leis consensuais, como a Constituição da República.
Não é verdade. Só a determinação de haver uma Constituição foi um
momento de consenso. Logo que ela se começou a escrever, emergiram a
naturais diferenças e o resultado esteve longe de ser consensual e
unânime. A aprovação fez-se por significativa maioria, não por um
qualquer difuso consenso. E as suas revisões por maiorias se fizeram.
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Sei o que quem teve paciência para me ler até aqui pode estar a
pensar: que sou ingénuo, que os consensos de Marcelo não são mais que um
apelo à formação de um bloco central que, além de lhe fazer as
vontades, o viesse a reeleger. Talvez tenham razão, mas isso torna tudo
mais grave e nebuloso.
Vem aí a votação da Lei de Bases da Saúde. Marcelo, a quem nunca incomodou o facto de a lei vigente ter sido aprovada pela direita e ter sido – lamentavelmente – duradoura, parece agora abespinhado por a nova lei poder vir a ser aprovada pela esquerda – que, aliás, foi quem criou o SNS – a ponto de ameaçar um veto político.
Já vimos que as razões do presidente são fracas e vãs. Mas não
desinteressadas. A Lei, penso eu, será votada e aprovada por
significativa maioria. E Marcelo, se tiver o atrevimento de a vetar
terá, desejo eu, a derrota que merece. E se, mais tarde, outra maioria
alterar de novo a lei – para melhor, espero -, olhem, é a vida….

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