Como perdemos a oportunidade das nossas vidas /premium
310
Os últimos vinte
anos em Portugal poderiam ter sido muito diferentes, como foram para outros
países. Perdemos a maior oportunidade das nossas vidas. Convinha discutir e
perceber o que aconteceu.
.
Uma das coisas
de que a oligarquia nos convenceu é de que o que se passa dentro do país tem
pouca importância. Por exemplo, a bancarrota de 2011. Segundo os nossos
oligarcas, foi culpa do euro. E para o caso de o diabo se lembrar de aparecer
por aí, já há desculpas prontas: desta vez, será culpa do BCE ou das guerras
comerciais do presidente Trump. A responsabilidade, portanto, nunca é de quem
governa e faz oposição em Portugal. É mesmo assim? Vamos a ver: uma economia
pequena e aberta, como a portuguesa, ressentirá sempre mudanças do contexto
externo. Mas se neste momento faz sentido dizer que, por exemplo, uma subida de
juros do BCE provocaria uma aflição em Portugal, é porque Portugal, sempre
endividado e outra vez deficitário, está especialmente vulnerável. Ora, isso
não tem que ver apenas com condições externas, mas com opções internas, que têm
uma razão de ser política.
.
Não nos podemos
queixar demasiado do mundo no princípio do século XXI. Não estou a esquecer a
recessão de 2008 ou as guerras do Médio Oriente. Mas as duas primeiras décadas
deste século foram uma das grandes eras de convergência, isto é, um tempo em
que as economias dos países mais pobres cresceram mais do que as dos países
mais ricos. É por isso que, pela primeira vez desde o século XVIII, a maior
parte do que se estima ser a riqueza mundial é hoje produzida fora do Ocidente.
.
Não há muito mistério aqui: nunca, ao mesmo tempo, o crédito e a energia foram
tão baratos, e os mercados mundiais tão abertos. Portugal, no entanto, não
aproveitou esta oportunidade. Ao contrário do que tinha acontecido em todas as
ocasiões de prosperidade desde 1945, manteve a sua distância em relação aos
Estados mais ricos, e, por isso, viu um número significativo de países mais
pobres, dentro e fora da Europa, aproximarem-se ou ultrapassarem-no. Mais:
Portugal deu o pior sinal dos países que não conseguem sair do nível em que
estão, que é, sempre que há alguma bonança, isso provocar logo desequilíbrios de contas externas, como aconteceu no último ano.
.
Dir-me-ão: uma
sociedade tão envelhecida e tão endividada nunca teria conseguido fazer melhor.
Certamente que o envelhecimento e a dívida explicam alguma coisa. Mas também
precisam de ser explicados: antes de serem causa, foram consequência. Do mesmo
modo, não funciona a tese de que o país não estava preparado para fazer mais do
que exportar t-shirts e concentrado de tomate para a EFTA, como nos anos 60. O investimento em infraestruturas e em qualificações
foi inútil?
.
Os argumentos
fatalistas teriam talvez mais força se por acaso tivessem sido experimentadas
as “reformas estruturais” que há vinte anos todos os organismos internacionais
nos recomendam. Poupemos no jargão: essas reformas dizem respeito a aliviar os
cidadãos do custo de sustentarem, com impostos e inibições burocráticas e
regulatórias, as rendas e os estatutos daqueles que dependem do poder político.
.
Uma receita “liberal”, dirão alguns. Talvez seja, mas receita que habilitou
outros países a explorar com sucesso a integração europeia e a globalização. É
óbvio que não sabemos se, no caso português, teria resultado. Mas dado o modo
como empresários e trabalhadores, perante o ajustamento e as reformas de
2011-2014, se reorientaram para os mercados externos, valeria a pena ter
tentado. Mas foi isso que, na medida em que põe em causa o controle oligárquico
da sociedade, não se fez — nem se pode fazer.
.
As queixas sobre
o contexto internacional são, hoje em dia, um véu a cobrir as responsabilidades
do poder político em Portugal. Talvez nunca o contexto tenha sido tão propício
para os portugueses passarem a outra fase do desenvolvimento, e, através dessa
subida de patamar, garantirem-se contra as piores regressões. Sim, os últimos
vinte anos poderiam ter sido muito diferentes, como foram para outros países. Perdemos
a maior oportunidade das nossas vidas. Convinha talvez discutir e perceber o
que aconteceu.

Sem comentários :
Enviar um comentário