Caluniadores profissionais, modo de usar
(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 25/07/2019)
O Presidente da República explicou que o nome de João Miguel
Tavares para presidir à comissão organizadora das comemorações do Dia de
Portugal foi indicado por “todos os seus conterrâneos” de Portalegre,
acrescentando fatores de escolha semelhantes aos dos nomes escolhidos
nos três anos anteriores: “independência de pensamento e a capacidade de
dar testemunho criativo e corajoso sobre o tema”, bem como “a afirmação
do pluralismo de opiniões que deve caracterizar a democracia”.
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“O autor da obra, neste momento lançada, correspondeu,
cabalmente, quer às razões da sua escolha, nas qualidades que o
caracterizaram, quer à pedagogia desejada, traduzida e distinguida
inequivocamente de tolerância e intolerância, quer à finalidade de dar
voz a anseios, preocupações e, de alguma maneira, gritos de alma que não
poderiam ficar de fora da democracia, que temos todos a obrigação de
não deixar enclausurar”, afirmou ainda Marcelo Rebelo de Sousa.
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Como balanço final, Marcelo Rebelo de Sousa diz registar “com
apreço” que os objetivos que tinha em mente com o convite de João Miguel
Tavares, “foram plenamente atingidos”.
Falar de João Miguel Tavares tem nulo interesse
do ponto de vista da sua individualidade. É um arrivista que escreveu um
texto canalha e teve a sorte de ser alvo de uma acção judicial de
Sócrates.
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A partir daí, aproveitou a fortuna para fazer uma. Há quem lhe
pague, e muito e cada vez mais nesta fase da sua alucinante
consagração, para ele continuar a repetir a fórmula que o catapultou
para o sucesso: difamações, calúnias e apelos ao ódio dirigidos contra o
PS a partir da exploração da figura de Sócrates. Como arranjista que é,
e dentro do seu mundo psíquico narcísico e infantilóide onde se concebe
como o Ronaldo dos caluniadores profissionais cá do burgo, tem tido o
cuidado de avisar que não pertence a nenhum clube.
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Hoje vive à conta de
perseguir Sócrates e os socialistas; amanhã, se mudar o vento e a
corrente, sabe-se lá de onde é que virá aquilo com que compra os melões.
É nisto, exactamente nisto e apenas nisto, que consiste o seu
“liberalismo” – não no respeito pelo Estado de direito, não na defesa da
liberdade. Para além do oportunismo rapace publicitado, et pour cause, dedica os seus dias ao vale tudo no vale tudo da política-espectáculo.
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É o próprio quem não se cansa de expor o que faz e como o faz. Diz
que passa os dias fechado em casa, procurando ter uma vida social
reduzida ao mínimo inevitável, para que não estabeleça relações humanas
positivas, construtivas, saudáveis com outros seres humanos. Aquilo a
que alguns, há milénios, chamam relação de estima, de amizade ou de mera
civilidade.
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Ele olha para essas manifestações gregárias com asco e
pavor pois de imediato se imagina a perder dinheiro. Por cada “amigo”
que fizer, calhando esse novo conhecimento ter potencial para ser alvo
de uma presente ou futura pulhice, o caluniador profissional sabe que
está a enfraquecer os seus serviços. Veja-se o caso recente da sua amiga
Fátima Bonifácio, amizade que o encostou à parede obrigando à traição
de ter de se juntar às críticas sob pena de danificar a sua marca.
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Logo
depois, para compensar e mostrar aos amigos do Observador que
continuava o bom soldado das mesmas lutas, teve de se enfiar de cabeça
no chiqueiro das “culturas superiores”, uma borrada que passou a existir
no arquivo do Público só para que JMT exiba cifradamente a
bandeira do chauvinismo e do racismo onde o seu populismo mediático
encontra audiências e pilim.
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Quão melhor, partilha ele connosco, poder
gozar, insultar, ofender, achincalhar certas pessoas que pode tratar
como animais. Aliás, como animais não, que esses não têm culpa de nada.
Ele gosta mesmo é de tratar certas pessoas como monstros, e acusá-las de
terem culpa de tudo.
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Assim, o verdadeiro interesse da atenção à figura está na estrutura
de poder – poder financeiro, poder mediático, poder político, poderes
fácticos – onde é usado ao serviço de várias agendas.
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Começando pelo Público,
nunca apareceu nenhum director ou accionista a explicar por que razão
pagam a um colunista que espezinha o que o próprio órgão define ser a
sua Ética e deontologia.
Indo para o episódio em que António Costa ocupou parte do seu tempo
como governante, e espaços interditos ao público que a República lhe
confiou em ordem a exercer a função de primeiro-ministro, numa operação
de promoção do caluniador profissional, feita à custa da participação
forçada de quatro crianças, foi notável o silêncio cínico que se seguiu
ao ponto mais baixo da carreira política do secretário-geral socialista,
onde o vimos a ultrapassar a baixeza de ter colaborado com o CM. É que
se entendia muito bem o que estava em causa nesta colagem ao caluniador
profissional, e o regime e a sociedade aprovaram a inaudita
perversidade.
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Passando para a participação de Mário Centeno numa edição
do “Governo Sombra”, a aparente superficialidade da presença da vedeta
(sem contágio socrático) do Governo e a diluição desse significado pelos
diferentes protagonistas do programa deu ainda mais eficácia ao
propósito de António Costa para usar um espaço de calúnias e
sistemáticos ataques de baixa política contra o Governo e o PS.
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Finalmente, a entrega do 10 de Junho por Marcelo a alguém que ganha a
vida a espalhar no espaço público a imagem de um País onde os deputados
fazem leis com a intenção de permitir que os políticos sejam corruptos
impunemente, alguém que enche os bolsos a perseguir inocentes com
ataques à sua honra e ataques ao Estado de direito, só se explica pela
vantagem percebida e assumida em enviar uma mensagem urbi et orbi:
a Presidência da República tem os mesmos alvos políticos do
portalegrense e está com igual expectativa a acompanhar um certo
processo na Justiça que tanto entusiasmo gera no caluniador profissional
e que é a força motriz da sua popularidade.
Marcelo, presente no lançamento do livro do fulano que utiliza uma altíssima honra de Estado para fins comerciais ainda os microfones colocados à sua frente no Dia de Portugal não arrefeceram por completo, diz que a inclusão de João Miguel Tavares no grupo onde já estavam João Caraça, Manuel Sobrinho Simões e Onésimo Teotónio Almeida, estando a caminho Tolentino de Mendonça, se justifica pelo tanto, e tão importante, que os une. Especificamente, diz que a “obra” do caluniador profissional equivale a “gritos de alma” que “temos todos a obrigação de não deixar enclausurar”.
O puro delírio na origem destas afirmações, o debochado insulto à
nossa inteligência, aceita-se em Marcelo porque, mais uma vez, é
claríssimo o que está em causa. O discurso não tem de ter como referente
a realidade, sequer uma vaga representação da mesma, tem é de ser
pragmático. Cumpre um papel mistificador e uma função sectária, é
sofística clássica.
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O presidente das comemorações do 10 de Junho que,
dias depois do número pícaro que galvanizou a direita decadente e
ressabiada, estava a ir buscar o nazismo, o Holocausto, a pessoa de
Adolf Eichmann e a reflexão de Hannah Arendt para insultar, ofender e
caluniar Vítor Constâncio, mais um número indeterminado de cidadãos, não
pode ficar enclausurado, debocha Marcelo, a democracia tem de ir em seu
socorro para lhe dar um lugar na tribuna de honra.
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No fundo, para lhe
comprarmos livros e outros artigos que ele tem para vender, pediu-nos o
tal Presidente da República que se congratulou com o ribombante sucesso
da Operação Plebeu.

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