E se Centeno for para o FMI?
(David Dinis, in Expresso Curto, 18/07/2019)
A notícia apareceu primeiro num site
especializado em notícias sobre a Europa – mas com algum desdém: Mário
Centeno pode ser uma hipótese para liderar o FMI, substituindo a
francesa Christine Lagarde, agora a caminho do BCE. Desdém porque
Centeno vinha com uma etiqueta: “não é sénior suficiente para o cargo”. Talvez por isso, a segunda notícia que
punha o português na “shortlist”, do prestigiado Wall Street Journal,
foi desvalorizada por cá – mesmo sendo francamente mais afirmativa e
abonatória.
.
A verdade é que, como escreveu o Expresso esta noite, Centeno não é carta fora do baralho para a liderança do FMI. Tem alguns argumentos a favor,
tal como tinha (e o mundo político português desvalorizou) quando
concorreu à liderança do Eurogrupo. E tem, sobretudo, um enorme trunfo
na mão: no momento em que há uma verdadeira corrida de candidatos
europeus ao posto, é ele quem vai representar a Europa na reunião de
hoje dos ministros das Finanças do G7, onde o tema está no topo da
agenda de trabalhos (como pode ver no link anterior).
.
Conte, portanto, com isto: Mário Centeno adoraria (como não?),
António Costa não teria como dizer que não, até Marcelo apoiaria um
português na liderança da única instituição multilateral que ainda não
tivemos. Para já, Centeno não será o favorito – há quem nos diga que as
hipóteses são “ainda pequenas”. Mas, como expliquei aqui, não é de todo
impossível que chegue lá.
A verdade é que a potencial saída de Centeno do Governo (ou, melhor dizendo, da campanha eleitoral socialista) abriria um flanco inesperado no argumentário das legislativas.
Para já, o cenário é o que traçámos na Comissão Política do Expresso de ontem (o podcast está aqui para
ouvir): o PS a 15 pontos do PSD, a direita numa profunda crise – de
números e de argumentos. Pior, como noticiou ontem a Mariana Lima Cunha,
o caso no CDS é tão complicado que os críticos de Cristas já estão no terreno a preparar o day-after; e como escreveu o Miguel Santos Carrapatoso, o ambiente no PSD é tão irrespirável que nem houve direito este ano a jantar de despedida do líder com os seus deputados (assim como não haverá Hugo Soares nas próximas listas, de acordo com o jornal i de hoje).
.
Mas se o PS não tivesse Centeno, o que mudaria? Quem teria Costa para
substituir o seu ministro-de-ferro? Abriria isso espaço a uma maior
aproximação à esquerda? Que argumentos podia abrir esse espaço em branco
à direita, que não perdeu no ADN o seu apego às contas certas? Que
influência teria isso na ambição socialista de obter uma “maioria
expressiva” ou proximamente absoluta?
.
Certo, para já são só cenários. Mas, como é bom de ver no passado recente, em Portugal não têm faltado imprevistos.

Sem comentários :
Enviar um comentário