Empresa que vendeu golas inflamáveis à Proteção Civil é de marido de autarca do PS
A empresa foi constituída dois meses após a criação do programa da
Proteção Civil “Aldeia Segura”. Venda ocorreu quatro meses depois.
Foxtrot, a empresa, opera no setor do "turismo de natureza".

A Foxtrot - Aventura, Unipessoal, Lda. pertence a Ricardo Fernandes
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
As mais de 70 mil golas de proteção de fumo para pescoço
e rosto que foram compradas pela Proteção Civil e depois foram
distribuídas em aldeias localizadas em zona de especial risco de
incêndio, mas que afinal eram inflamáveis, foram adquiridas a uma
empresa detida pelo marido de uma autarca socialista.
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A notícia é avançada pela revista Sábado,
que refere que a Foxtrot — Aventura, Unipessoal, Lda. pertence a
Ricardo Nuno Peixoto Fernandes, residente em Longos, Guimarães e casado
“em comunhão de adquiridos” com a presidente da junta de freguesia de
Longos, Isilda Silva, eleita com o apoio do PS.
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Em declarações à
rádio Observador, Ricardo Fernandes defendeu-se e afirmou: “Quem conhece
a minha esposa e a minha empresa sabe que isso é impensável. Se
soubesse que isto ia ter implicações para ela jamais ia concorrer a este
concurso”. Relativamente ao material inflamável, o empresário diz que
apenas seguiu o caderno de encargos. “Foi nos pedido um tipo de material
e a gente tratou de o vender”, dizendo que não se pronunciou quanto à
eficácia para um fim de proteção para incêndios.
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O empresário disse ainda que nunca disse que nada à Proteção
Civil relativamente ao produto que vendeu para o que considera ter sido
uma ação de sensibilização. “A ANPC tem, garantidamente, pessoas
qualificadas e com conhecimento para esse material em utilização para
lhe chamar um kit para o combate a incêndios. A ANPC sabia quais os fins
a dar a esse equipamentos”, afirmou.
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Foi ainda revelado nestas
declarações que, por a Foxtrot não ser uma empresa têxtil, foi
encomendado o material a outra empresa para depois o vender ao Estado.
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A autarca recandidatou-se em 2017 à presidência da junta de freguesia
vimaranense “pelo Partido Socialista”, como referia o site Mais
Guimarães a 17 de março desse ano. Cerca de nove meses depois do seu
anúncio de recandidatura — e, segundo a TVI24,
dois meses depois da criação do programa da Proteção Civil “Aldeia
Segura” (criado pelo Governo em Conselho de Ministros) — era constituída
a empresa do marido, que operaria no setor de “turismo de natureza”,
como relata a Sábado, citando informação oficial.
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A empresa teria como
áreas de negócio “exploração de parque de campismo e caravanismo,
exploração de estabelecimentos de restauração e de bebidas, nomeadamente
bares e restaurantes, exploração de mini mercado, comércio, importação e
exportação de produtos alimentares, bebidas e tabaco”.
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Meio ano
depois de ser constituída, já em junho de 2018, a Foxtrot — Aventura,
Unipessoal, Lda celebrou dois contratos com a Autoridade Nacional de
Proteção Civil (ANPC), vendendo as golas (que caso sejam utilizadas
durante um incêndio representam risco acrescido para os cidadãos) e
outro material de “auto-proteção” por um valor total de 328.356 euros.
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Além
de mulher do detentor da empresa que vendeu as golas inflamáveis,
Isilda Silva terá sido também 1ª Secretária da Associação dos Bombeiros
Voluntários das Caldas das Taipas, refere o site Mais Guimarães.

Cartaz de campanha da recandidatura da autarca, disponibilizado no site Mais Guimarães
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Esta sexta-feira, o Observador revelou que a Proteção Civil
distribuiu às populações mais de 70 mil golas de proteção de fumo para o
rosto e pescoço que são inflamáveis e podem constituir perigo caso
sejam utilizadas num cenário de incêndios. são compostas por 100% de
poliester e estão a ser distribuídas desde o verão de 2018 em várias
aldeias em zonas de risco no âmbito dos programas “Aldeia Segura” e
“Pessoas Seguras”.
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O próprio fornecedor das golas contou ao Observador
que propôs que as máscaras fossem feitas de material resistente às
chamas, mas a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) não aceitou
por ser mais caro e alegou que as golas eram distribuídas numa lógica
de “merchandising“ e “propaganda“.
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Embora as golas tenham sido
apresentadas à população como fazendo parte de um kit de proteção contra
incêndios, a ANPC nega que tenham essa função ou que as pessoas
utilizem as golas em caso de incêndio. “Importa salientar que estes
materiais não assumem características de equipamento de proteção
individual, nem se destinam a proporcionar proteção acrescida em caso de
resposta a incêndios rurais, consubstanciando-se em material de
sensibilização.“, escreveu a ANPC em resposta ao Observador. Material de
sensibilização que custou, no caso das golas inflamáveis, mais de 300
mil euros.