Observador, 24/7/2019, 0:04
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Ninguém estava a culpar Costa pelo fogo de Vila de Rei/Mação, mas ele correu a responsabilizar os autarcas. É difícil imaginar um gesto de maior insensibilidade social. Politicamente foi uma canalhice
Não há dúvida. Alexandre O’Neil é que nos topava bem. Entre
os portugueses, poucas frases são mais vezes repetidas do que “a culpa não foi
minha”. O que não surpreende. O exemplo vem de cima. Nos últimos tempos vem por
regra do primeiro-ministro. Ainda Mação e Vila de Rei estavam a arder e já
António Costa, sibilino, sacudia a água do capote: “não digo aos que são os
primeiros responsáveis pela proteção civil em cada concelho, que são os
autarcas, o que é que devem fazer.” Isto depois de ter dito que não fazia comentários
porque as operações de combate ao fogo ainda estavam a decorrer…
Parece que estamos sempre a ver o mesmo filme. Em 2017,
quando morreram 64 pessoas em Pedrógão, António Costa falou de 99% de sucesso na estratégia que estava a ser seguida (que era,
recorde-se, a de “controlar o fogo no momento em que nasce” — o diabo era
quando ele fugia ao controle, como tinha sucedido naquele dia). Também
soubemos, a propósito do assalto a Tancos, que “não é responsabilidade de
nenhum ministro estar à porta de um paiol a guardá-lo”. E não nos esquecemos como, depois dos incêndios de
Outubro de 2017, e de mais umas dezenas de mortes, lhe foi difícil por fim pedir
publicamente desculpa aos
portugueses.
É como se fosse um disco rachado e, sinceramente, acho
que a pertinente observação de Alexandre O’Neil – encontrei-a num raríssimo
livro de 1983, uma obra em inglês sobre Portugal – não explica o mau hábito do
nosso primeiro. O eterno “a culpa não foi minha” pode desculpar-se numa criança
a fugir de castigo, tal como pode entender-se num país onde as circunstâncias,
a má sorte ou o imprevisto, a muita chuva ou o muito sol, o chefe ou o
subordinado, sempre ajudaram a fugir das responsabilidades e a justificar
faltas ou preguiças. É mais um triste sinal do nosso atraso e de alguns
costumes culturais de que não nos libertamos. Agora num governante, como em
quem quer que deva dar o exemplo, não se perdoa.
E, no entanto, António Costa não tem feito outra coisa
por estes dias.
Surge no Expresso uma sondagem a dar a corrupção como a segunda grande preocupação
dos portugueses? Então ele, chefe de um Governo que ainda há uns meses se
empenhava para apagar as referências à corrupção de um relatório da OCDE, trata
de pedir desforço da
Procuradoria-Geral da República. De repente lembrou-se de uma lei de 2002 e quer saber
porque não é mais vezes aplicada, sugerindo que se não se combate mais a
corrupção, a culpa não é dele, é da PGR.
Atreve-se o Tribunal de Contas de elaborar um relatório
em que aponta falhas graves na distribuição
do dinheiro do fundo Revita,
destinado à vítimas do fogo de Pedrógão, e onde se escreve que nem sequer é
claro que os apoios tenham sido dados apenas a quem precisava? Salta logo a
disparar em todas as direcções, dizendo que “os press releases do TdC
costumam ser bastante mais dramáticos do que aquilo que é a realidade efetiva
do que consta dos relatórios”, o que obrigou o tribunal a emitir um raro comunicado de resposta.
Mas regressemos ao princípio: os incêndios desta semana e
o passa-culpas de António Costa. Um passa-culpas especialmente injusto e de uma
brutal insensibilidade se considerarmos os concelhos e as populações afectadas.
O primeiro-ministro reagiu como é seu timbre: com a
irritação de quem não suporta a mínima contestação, sequer a mais pequena
dúvida sobre a competência do seu Governo. Porque era só isso que estava em
causa. Nenhum dos dois autarcas fizera, antes das suas declarações, qualquer
ataque político. Ambos tinham apenas dado voz ao desespero de, em certas
frentes do fogo, terem notado falta de meios de combate. Isso e mais algumas
perguntas e desabafos, reflexo de outras tantas angústias e desesperos.
Foi quanto bastou para levarem logo um coice, como
“primeiros responsáveis da protecção civil”. Nem sei bem se Costa tem noção da
enormidade do que disse.
Primeiro, por estar a falar para dois concelhos habitados
por menos de 10 mil pessoas, um deles (Vila de Rei) com dois terços da
população com mais de 60 anos. Esperaria o primeiro-ministro que essa gente
conseguisse defender serranias que se estendem por 600 quilómetros quadrados,
ou seja, uma área equivalente a seis vezes o concelho de Lisboa? Como é óbvio
nunca aqueles “primeiros responsáveis” poderiam fazer muito mais do que pedir
ajuda, e depender dessa ajuda. De resto não é por acaso que existe uma
Autoridade Nacional da Protecção Civil – é precisamente porque localmente é
impossível parar fogos daquela dimensão, sobretudo fogos que vêm de fora,
soprados por ventos fortíssimos e lavram em montes e vales onde não vive quase
ninguém.
Depois, porque se tivesse memória lembrar-se-ia de que
Mação foi precisamente o concelho onde foi celebrar o Dia da Floresta em 2016
para louvar o trabalho aí desenvolvido pela autarquia na área do “ordenamento
florestal e na proteção civil”, um trabalho que infelizmente não evitou que
em 2017 fosse um dos concelhos mais martirizado por incêndios que lá chegavam
vindos de concelhos limítrofes. E se tivesse vergonha também não ignoraria que,
apesar de tão martirizado, o concelho de Mação foi discriminado nas ajudas
especiais (de um fundo
europeu) de apoio à reconstrução das infraestruturas destruídas.
Finalmente – e este aspecto é o mais importante – António
Costa tem obrigação de saber o que já foi feito desde 2017 (apesar de tudo
alguma coisa), o que devia ter sido feito e não foi (muita coisa) e aquilo que
nunca podia ter sido feito em tão pouco tempo, e que afinal é o mais
importante, que é mudar o nosso mundo rural, a sua paisagem e a sua economia.
Mas não. Em vez de assumir as responsabilidades que lhe
cabe assumir (como, por exemplo, o tempo que o Governo leva a aprovar os planos
municipais de protecção civil ou os atrasos na entrada ao serviço dos meios
aéreos) e fazer a pedagogia que é sempre necessário fazer, a reacção
intempestiva de António Costa recordou-nos que em política não basta a
habilidade e a sorte para que as maiorias absolutas não sejam apenas quimeras –
é necessário mais, é necessário empatia, sensibilidade, perceber o país.
É isso que Costa continua a não ter, e talvez por isso,
mesmo tendo tão boas sondagens, continue a dar estes sinais de irritabilidade à
flor da pele. Maus sinais.
PS. Já depois de ter escrito este texto verifiquei que o
velho amigo e ajudante do primeiro-ministro, Eduardo Cabrita, foi à RTP, repetir e agravar as acusações, passando ao ataque pessoal ao presidente da câmara de
Mação, Vasco Estrela. Teve azar:
entendeu acusá-lo de não
ter accionado de imediato o Plano Municipal de Emergência, um plano que estava
desde Março para apreciação pelo poder central, sendo que a aprovação só chegou
via SMS ao telemóvel de Vasco Estrela já o fogo estava em fase de rescaldo. A
arrogância e a pesporrência de certos personagens não tem limites.

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