quarta-feira, julho 10, 2019

A cor da pele não define ninguém

A não perder este texto de João Pires da Cruz.
“O resultado deste processo, desta seleção natural a que anedoticamente chamamos de escola para todos, não deitou fora os pretos. Deitou fora os mais pobres, aqueles cujos pais não viviam nas zonas privilegiadas da terra, não tinham por vizinhos os professores. 
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Que, pelas circunstâncias do país, incluía na altura quase todos os pretos, retornados e outros moradores em bairros sociais. O facto de à entrada da faculdade sermos todos brancos, não resultava de nenhum processo de eliminação étnica, era — e é! — simplesmente o contexto produzido pela escola secundária. 
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A nossa escola do estado rejeita os mais fracos que, por motivos históricos, inclui os pretos. Já os emigrantes de leste, várias vezes mais educados que nós, sabem compensar em casa a porcaria de escola que entregamos aos filhos deles.
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Ser a favor de quotas enquanto se acabam com os contratos de associação na educação é a falsídia extrema. O que os desfavorecidos precisam é de educação de primeira, não é de reforço dos direitos sindicais dos professores ou reduções de horário destes. 
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É fácil reforçar-se o contexto e, depois, põe-se a culpa na discriminação obtida pela leitura do próprio contexto. Há poucos pretos no topo de sociedade? Porquê? Há muitos à entrada da universidade? Sendo mais provocador, qual a percentagem de pretos professores no ensino do estado ou quantos alunos de outras etnias esperam favorecer pela redução de horários na função pública?
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Repare-se no que é que isto significa. Na tentativa de esconder que são os pobres que são expulsos da educação por um serviço deplorável, coloca-se a culpa na cor da pele, como se o serviço deplorável fosse pior para os pretos do que é para os brancos. Até acredito que estas pessoas defensoras das quotas sofram apenas de iliteracia matemática e nem se apercebam que estão a dizer que as pessoas são definidas pela cor da pele. Mas isso não os faz menos racistas.
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Enquanto empregador que absorve o máximo de diversidade possível, as diferenças étnicas são, para nós, contexto. É isto que quem me lê deve perceber. Não há qualquer motivação económica em discriminar pessoas. Pelo contrário, qualquer empresário luta por ter mais diversidade à entrada porque isso é economicamente vantajoso. 
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A percentagem de outras etnias que não a ‘lusitanodescedente’ é reduzida no universo onde as empresas contratam, muito mais reduzida que na rua, mas isso é um problema do contexto gerado pela péssima educação que temos. Ninguém é definido pela cor da pele, mas tem o futuro determinado pelas armas que lhe são dadas na vida.
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Claro que episódios racistas acontecem todos os dias com quem não é branco, não o estou a negar. 
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O tal artigo do Público é um exemplo mais chocante porque é escrito por uma pessoa supostamente educada, mas poderíamos encontrar exemplos iguais, todos os dias, de pessoas menos educadas. Mas isso é, como dizem os anglo-saxónicos, ‘sticks and stones’, expressão curiosamente adotada de um texto de uma igreja fundada por negros. 
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Desde que as pessoas tenham armas com que combater o racismo folclórico, elas aprendem a olhar a burrice dos outros como reflexo de uma educação pobre. Com armas, pessoas de qualquer cor de pele sabem que isso não define uma pessoa. 
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E sabem que o facto de nascerem pretos em Portugal não os faz menos portugueses ou ‘afrodescendentes’, expressão usada por ‘burrodescendentes’ que se acham menos racistas por isso e que acham que as pessoas se definem pela cor da pele.”

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