Camilo Lourenço
| camilolourenco@gmail.com
14 de janeiro de 2019 às 19:45
Surpresa: o governo descobriu que não tem dinheiro
O governo andou três anos a vender facilidades. Agora que terminou a folga deixada pela Troika bateu com a cabeça na parede.
A FRASE...
"Não é possível antecipar idade da reforma e aumentar o valor do ordenado base dos enfermeiros."
Marta Temido, Antena 1, 14 de janeiro de 2019
A ANÁLISE...
.
O
governo tem nas mãos um gravíssimo conflito com a classe dos
enfermeiros, cujas greves sucessivas (e cirúrgicas) estão a adiar
cirurgias, muitas delas urgentes. Para enfrentar o problema, o governo
começou por não dar ouvidos aos sindicatos. Pensou que o prolongamento
da greve faria os enfermeiros regressarem ao trabalho, por falta de
rendimentos. Enganou-se: a classe lançou mão de um recurso inédito (o
"crowdfunding") e tem conseguido prolongar o conflito até levar o
Ministério ao desespero.
.
A atual ministra, que começou mal
(tentou apanhar moscas com vinagre, ao associar os grevistas a
criminosos), percebeu tarde a gravidade do problema. Agora, apanhada
entre as greves e as cativações de Mário Centeno, foi obrigada a
confessar a verdade: não tem dinheiro para aumentar o ordenado base e
também não tem margem para baixar a idade de reforma (sem penalizações).
Pelo meio lá vai dizendo que cedeu onde podia: aceitou uma categoria
profissional, a de "enfermeiro especialista", que vai custar 21 milhões
de euros ao Orçamento.
Pergunta: o governo queixa-se de
quê? Quem anda a apregoar, desde 2016, que tem dinheiro para satisfazer
as corporações que mais pesam na despesa pública? O governo andou três
anos a vender facilidades. Agora que terminou a folga deixada pela
Troika bateu com a cabeça na parede.
Marta Temido, que
chegou ao governo cheia de peneiras, está a reconhecer o óbvio: o
governo cometeu erros sobre erros desde que assumiu o poder. António
Costa e Mário Centeno sabiam perfeitamente dos desequilíbrios existentes
em várias carreiras no Estado (enfermeiros incluídos).
.
E em vez de
resolverem os problemas urgentes, utilizaram a folga orçamental para
fazer devoluções indiscriminadas de rendimento à generalidade dos
funcionários do Estado e pensionistas. Moral da história: agora que
enfermeiros, professores, funcionários judiciais, guardas prisionais e
polícias reclamam a resolução de problemas com mais de uma década,
descobriram que não têm dinheiro. Só podem queixar-se de si próprios.
Este
artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as
consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da
sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às
realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos
grupos da sociedade.
maovisivel@gmail.com
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