domingo, janeiro 06, 2019

"OS SEM ABRIGO, DOM TARTUFO E JORNALISTAS"



A descida de Marcelo ao "Bronx" dos sem-abrigo em Lisboa

08:41 por Lusa 14
O Presidente da República desceu no sábado à realidade dos sem-abrigo em Lisboa, entre a Baixa e Santa Apolónia, onde vivem dezenas de pessoas em zonas a fazer lembrar o Bronx, em Nova Iorque.


Numa noite fria, mas menos fria dos que as anteriores, com temperaturas à volta de 6º/7º graus Celsius, Marcelo Rebelo de Sousa andou, encasacado, com gravata, cachecol e boné a ver o que está o Governo e a câmara de Lisboa a fazer nestes dias para proteger os sem-abrigo.
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Apesar do cenário, Marcelo tentou manter um discurso positivo, afirmando que a meta para erradicar o problema dos sem-abrigo em 2023, que o próprio definiu, continua válida, e "a ser trabalhada", embora admita cenários mais recuados.
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"Quando dizemos erradicar até 2023 significa reduzir o mais drasticamente possível", afirmou. Se junto ao Teatro Nacional D. Maria II Marcelo teve de dividir as atenções entre as "selfies" de quem passava, incluindo turistas incrédulos por andar ali o Presidente português, e os próprios sem-abrigo, quando chegou a Santa Apolónia o ambiente tornou-se mais pesado.
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Nas arcadas do Museu Militar, um sem-abrigo perguntou, em voz alta, se alguém queria passar ali a noite, "para ver como era" e repetia que se só se lembravam deles no Natal. Os poucos que ali estavam, uns descansavam, outros ouviam música num rádio a pilhas roufenho, outros não queriam ser filmados pelos jornalistas que acompanhavam a visita presidencial.
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Marcelo falava com uma mulher sentada no chão, com um discurso repetitivo e com uma garrafa de vinho ao lado, contando que é angolana e vivera na Suíça. Rebelo de Sousa ouvia e pedia a uma adjunta da Presidência para tomar notas e conversava com a secretária de Estado da Segurança Social, Cláudia Joaquim.
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Dali, da estação de Santa Apolónia, o próprio Marcelo deu "ordem de marcha" para - "são cinco minutos a pé" – irem até aos viadutos onde dezenas de pessoas dormem dentro de tendas, barracas feitas de papelão, plástico e mantas – um cenário a fazer lembrar o Bronx, em Nova Iorque, imortalizado pelos filmes.
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Debaixo da luz amarelada da iluminação pública, debaixo das mantas, veem-se pés de umas quantas pessoas a dormir. A uns metros, alguém grita, por várias vezes, que só se lembram deles nestas alturas, mas que eles vivem ali "365 dias por ano".
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Longe dos microfones e das câmaras dos jornalistas, o Presidente falou com um nepalês, recém-chegado a Portugal. Uns metros à frente, há uma barraca que chama a atenção por ter um cão de loiça junto à "porta". Foi aí que Marcelo falou longamente com um homem, ladeado por toda a comitiva.
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Passara já uma hora e meia desde o início da visita e o Presidente fez uma espécie de balanço.
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O fenómeno sofreu alterações nos últimos dias relativamente à Baixa de Lisboa, onde, disse-o agora, esteve na noite de Natal, notou que não existem diferenças.
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Marcelo admitiu que é difícil combater este fenómeno e que existem pessoas que, por diversos motivos, "porque tentaram e não conseguiram antes" ou porque estão "mais velhos", não querem deixar a rua.
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O próprio disse ser difícil saber qual o número, "entre os três mil e tal no país, entre os 300 a 400 em Lisboa, que não querem sair da rua".
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Da noite, o Chefe do Estado disse guardar na memória os problemas psicológicos de algumas pessoas, as dificuldades de um jovem conseguir emprego por causa dos dentes podres ou ainda o caso de um homem, a viver há quatro meses na rua e que tem um nível de formação "formidável".
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Já sem jornalistas, Marcelo foi ver núcleos de sem abrigo em Xabregas, debaixo da pala do pavilhão de Portugal na Expo e, por fim, à Gare do Oriente.

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