terça-feira, janeiro 08, 2019

CHINELICES





 (O texto  a seguir não é nosso)
O Humor, quando sabiamente usado, pode constituir uma excelente crítica social.
Este texto - Chinelos -, hilariante, não deixa, todavia, de colocar, subtilmente, o dedo na ferida, que é uma cidade, ou um país já desenvolvido como o nosso, ainda ter sem-abrigos (embora acarinhados pelo nosso extraordinário PR, que lá foi visitá-los, num destes dias de frio intenso).
Chinelos
07/01/2019 by Carla Romualdo

 À hora a que chegam os primeiros funcionários das lojas, e a rua desperta com o cacarejar metálico das grades corridas com a resignação brusca das segundas-feiras, o homem ainda dorme um sono profundo. A sua cama é ampla, ocupa quase metade de um passeio largo, e, pese a precariedade da instalação, está bem cuidada. Cartões grossos no fundo, dois cobertores finos por cima, um cobertor mais grosso e um edredão amarelo no topo.

O homem dorme, o rosto voltado para a rua, para quem passa. A seu lado, há um balde com duas garrafas de água e uns chinelos de quarto, muito finos, quase de papel, daqueles que os hospitais e hotéis por vezes oferecem. Os chinelos são de um branco impecável. E é a presença dos chinelos ao lado da cama, no chão, tal como a cama, que nos fazem sentir embaraçados por estar ali, como se tivéssemos entrado inadvertidamente em casa do vizinho – uma porta mal fechada, pensávamos estar no segundo e afinal estávamos no terceiro andar, uma distracção, enfim, e agora estamos aqui, frente à cama deste desconhecido que dorme de gorro na cabeça, alheio à nossa invasão.

Porque há poucas coisas mais domésticas, mais íntimas do que uns chinelos. Ver os chinelos que alguém deixa ao lado da cama todas as noites é vê-lo quase despido, desprovido das capas com que anda pelo mundo. E deve ter sido por isso que a todos os que passávamos pelo homem aconteceu o mesmo: baixámos o volume de voz, se íamos à conversa, pisámos o chão com delicadeza, se levávamos tacões, e só nos faltou fazer sinal aos carros para que não buzinassem, mas não foi preciso porque o trânsito ainda não se tinha complicado.

Pusemos, enfim, todo o cuidado para não despertar o homem em cujo quarto havíamos entrado sem dar conta, estouvados e insensíveis, na nossa frustração contida das segundas de manhã, e deixámo-lo dormir, sob o edredão amarelo, uma grande mancha soalheira no passeio. O sono faz-nos quase felizes.



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