(O texto a seguir não é nosso)
O Humor, quando sabiamente usado, pode constituir uma
excelente crítica social.
Este texto - Chinelos -, hilariante, não deixa,
todavia, de colocar, subtilmente, o dedo na ferida, que é uma cidade, ou um
país já desenvolvido como o nosso, ainda ter sem-abrigos (embora acarinhados
pelo nosso extraordinário PR, que lá foi visitá-los, num destes dias de frio
intenso).
Chinelos
07/01/2019 by Carla Romualdo
À hora a que chegam os primeiros funcionários das
lojas, e a rua desperta com o cacarejar metálico das grades corridas com a
resignação brusca das segundas-feiras, o homem ainda dorme um sono profundo. A
sua cama é ampla, ocupa quase metade de um passeio largo, e, pese a
precariedade da instalação, está bem cuidada. Cartões grossos no fundo, dois
cobertores finos por cima, um cobertor mais grosso e um edredão amarelo no
topo.
O homem dorme, o rosto voltado para a rua, para
quem passa. A seu lado, há um balde com duas garrafas de água e uns chinelos de
quarto, muito finos, quase de papel, daqueles que os hospitais e hotéis por
vezes oferecem. Os chinelos são de um branco impecável. E é a presença dos
chinelos ao lado da cama, no chão, tal como a cama, que nos fazem sentir
embaraçados por estar ali, como se tivéssemos entrado inadvertidamente em casa
do vizinho – uma porta mal fechada, pensávamos estar no segundo e afinal
estávamos no terceiro andar, uma distracção, enfim, e agora estamos aqui,
frente à cama deste desconhecido que dorme de gorro na cabeça, alheio à nossa
invasão.
Porque há poucas coisas mais domésticas, mais
íntimas do que uns chinelos. Ver os chinelos que alguém deixa ao lado da cama
todas as noites é vê-lo quase despido, desprovido das capas com que anda pelo
mundo. E deve ter sido por isso que a todos os que passávamos pelo homem
aconteceu o mesmo: baixámos o volume de voz, se íamos à conversa, pisámos o
chão com delicadeza, se levávamos tacões, e só nos faltou fazer sinal aos
carros para que não buzinassem, mas não foi preciso porque o trânsito ainda não
se tinha complicado.
Pusemos, enfim, todo o cuidado para não
despertar o homem em cujo quarto havíamos entrado sem dar conta, estouvados e
insensíveis, na nossa frustração contida das segundas de manhã, e deixámo-lo
dormir, sob o edredão amarelo, uma grande mancha soalheira no passeio. O sono
faz-nos quase felizes.

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