A nova face de Portugal face aos desalojados (I)
Por Fernando Inácio Gil*
A dignidade de Portugal jamais poderá ser conseguida enquanto o «julgamento dos responsáveis»» não for feito
E, por responsáveis, outros não entendemos que os da «exemplar descolonização» que, amputando o País e separando os Povos que o constituíam, trouxeram não só para os naturais e residentes do ex-Ultramar, a miséria, como também para a grande maioria dos portugueses do continente.
Tudo o mais é balela.
Existia então um modelo económico, não necessariamente forte, convenhamos, mas que a todos trazia abastança suficiente
Mas, em seu lugar, que existe hoje?
Uma estrutura económico-financeira ainda baseada no passado, em alicerces completamente adulterados, não sendo outros, viáveis e consentâneos, construídos em alternativa.
Estamos pois em colapso económico, sem que se anteveja ou pressinta o mínimo de vontade nacional para o superar. É que a sua superação só será conseguida com a restauração da dignidade de Portugal, que o mesmo é dizer-se, do orgulho de nos sentirmos portugueses.
E a dignidade de Portugal não se poderá confundir com este ou aquele regime, com esta ou aquela pessoa, porque está acima de todos nós, além de todos nós, porque essencialmente é parte de nós.
A mim mesmo me tenho perguntado muitas vezes:
—Será que, hoje e aqui, me poderei sentir honrado em me proclamar português?
—Será que tudo fiz ou tenho procurado fazer para que Portugal seja, na realidade, um País a que nos orgulhemos de pertencer?
—Enfim, será que todos nós Lhe prestamos aquele contributo mínimo e que a comunidade que somos exige de cada um de nós?
Em consciência, não nos resta outra conclusão que não seja a da negativa.
Pois se dia a dia, hora a hora, momento a momento, temos de prover à nossa sobrevivência individuai, se não contribuirmos de mãos dadas e coração aberto para a sobrevivência nacional nada mais restará que o desaparecimento, talvez não de uma terra chamada Portugal, mas sim de um estado de espírito que sempre lhe esteve subjacente e a justifica como nação independente: a Lusitanidade.
Algumas foram através dos tempos as ocasiões em que o Portugal dominado ou acorrentado foi libertado, antes e acima de tudo, por essa força que considero perene, que se não vê e não tem medida, que apenas se sente e terá novamente de emanar de cada um de nós, pois nos é intrínseca desde o berço da nacionalidade.
E é desse sentimento LUSÍADA que nos têm querido afastar alguns, que de portugueses apenas terão, por fortuito acaso, um Bilhete de Identidade.
Torna-se pois necessário acordar, afastar os falsos portugueses, sem esquecer os falsos Messias, e reencontrar o verdadeiro caminho de Portugal
Caminho difícil, cheio de escolhos, mas que se não poderá encetar enquanto as reparações devidas, morais e materiais, não forem feitas.
E só em tal comunhão de espírito e na identidade de finalidades tal caminhada poderá ser efectivada e levada a bom termo
Houve um certo caminho andado que, inconscientemente drogado seguimos, mas que não poderemos percorrer em sentido inverso.
Assim sendo, resta-nos somente mudar de rumo
— Mas como e para onde?
Certamente que não serei eu, nem cada um de nós de «per si», que o conseguirá determinar
Mas seremos nós, os que primeiro acordarmos desta profunda letargia em que temos vivido, tudo aceitando como se esse fosse o nosso destino, que teremos de
reanimar as mentes mais adormecidas ou obscurecidas, sacudindo-as para a verdadeira realidade do que éramos, naquilo em que estamos e do que teremos de voltar a ser
Enfim... só uma análise profunda de causas e efeitos nos poderá dar o real contexto do presente, para então se decidir do rumo futuro.
E todos não seremos demais para o encontrar.
É pois essencial que se situe, no vasto rol de problemas que nos afectam, a realidade do povo Desalojado e da sua inserção no contexto atrás referido.
Como ultramarino por nascimento, português por formação e lusíada por sentimento, resta-me tentar, não inventando justificações, mas o mais objectivamente possível, mostrar o quanto sofremos e se todo esse sofrimento não terá sido já ex-piação suficiente para quantos de nós, nada então querendo arriscar, a tudo voltámos costas, pensando apenas em nos vermos dentro de um avião que nos tirasse do eter-no em que tudo se transformou.
— Quem nos levou afinai a não lutar de imediato por aquilo que considerávamos a nossa terra, que nos levou a abandonar à sua sorte homens, mulheres e crianças que considerávamos como nossos irmãos, que nos fez enfim reagir de certo modo como culpados e não como vítimas?
— Que estranhas forças nos paralisaram?
Resta-nos pois que acordemos de vez e nos empunhamos por nossos actos e por nossa fé nos destinos de Portugal, isto é, peia nossa Lusitanidade
Unamo-nos pois, sem preconceitos ou ressentimentos, sem falsas intenções e com verdade, procurando reencontrar, não só o nosso caminho dentro de Portugal como o de Portugal no mundo.
• Membro Directivo da Associação Projecto I
Jornal LIBERDADE – 5.09.79
A nova face de Portugal face aos desalojados (II)
Por Fernando Inácio Gil*
Quem como eu acompanhou tão intimamente, vivendo minuto a minuto, a fuga que se transformou NO maior êxodo da História Contemporânea, não pode, como desde o início o tem tentado fazer, deixar que alguns, até facilmente inidentificáveis colham benesses á custa, não só do afundamento material como moral dos Desalojados.
Se alguns, poucos, algo trouxeram, a grande maioria apenas foi portadora do seu "saber de experiência feito”.
Coloquemo-lo pois, sem reservas, ao dispor da comunidade.
Pois o essencial é querer.
— Mas como, se as pessoas andam famintas -se sofrem a perda de entes queridos, se trazem na carne feridas incuráveis, se chafurdam na lama e na miséria à procura, única e simplesmente da sobrevivência?
Pois, será a partir desta impossibilidade, mais aparente que real, querendo-o, que nos deveremos erguer e exigir, dentro do respeito pela legalidade, a reparação possível.
Sabemos que a reparação da honra, arrastará à reparação da fazenda.
Mas como sobreviver até lá?
Por isso não se poderá esperar tão dilatado prazo.
Ê pois urgente e necessário que o Governo Português reconheça, de imediato, o direito á Indemnização dos bens deixados no Portugal que éramos.
Embora não baste à resolução do problema, tal reconhecimento é essencial, não só corno primeira reparação moral, mas para que todo o processo evolua no sentido da indemnização material, inclusive condicionada na sua aplicação.
Tem-se dito que isso será resolvido quando resolvido o contencioso entre Portugal e aqueles novos Estados.
Mas concretamente o problema é diverso, pois a existir um contencioso, ele será entre cidadãos portugueses e o seu Governo.
O que não invalida que o Governo Português, talvez melhor, o Estado Português intente, ser compensado, do que colectiva ou individualmente passou à posse dos novos Estados.
Interessa, pois, entre muitos outros aspectos, analisar, o porquê do entorpecimento em que a maioria dos Desalojados caiu, o porquê do seu isolamento e o porquê do não aproveitamento racional e imediato das suas capacidades.
O ambiente geográfico, com largos espaços de horizontes vastos, em que as pessoas se movimentavam sem atropelos, porque desnecessários, criou em todos os que nas terras do ex-Ultramar viviam um certo sentimento individualista, só formalmente; diferente, porque afinal semelhante, ao espírito dos primeiros desbravadores da mata africana, sempre à espera de atingir algo mais além.
Foi assim que, pelo seu imenso interior a dezenas ou centenas de quilómetros das cidades principais, normalmente situadas no litoral, multas vezes a partir da fixação de um único indivíduo, aparecia a povoação que se transformava em vila e quantas em cidades florescentes.
Havia pois espaços para todos, onde a iniciativa individual, não sem enorme esforço, tinha vasto campo para se expandir, muito mais dependente da capacidade de cada um, que de apoios oficiais que porventura conseguisse.
E o exemplo destes colonos, que não colonialistas, era suficiente para que o próprio africano negro saísse do seu atraso e se promovesse social e culturalmente
Quantas vezes, por exemplo, os seus apelos às entidades governativas não eram para que estas lhes dessem casas ou lhes fornecessem alimentos. Mas antes que os ensinassem a construir melhores habitações ou a cultivar melhor a terra.
A terra que, ao fim e ao cabo com poucas excepções de algumas grandes companhias, era já, na realidade, de quem a trabalhava, branco ou negro.
Quem, destes espaços quase ilimitados, se viu de um dia para o outro sem
nada, apertado, e quantas vezes esfomeado, neste canto da Europa, só num esforço supremo a tal se poderia de imediato acomodar.
De igual modo a ambiência sócio política vívida em África era na essência baseada num espírito de corações e portas abertas, sem complexos de parte a parte, na sua quase generalidade.
Ora, no momento, em que os Desalojados chegam a Portugal, encontram um País dividido, sujeito a verdadeiras torrentes de verborreia, onde quase nada se produzia, e eram acolhidos como esclavagistas, exploradores de pretos, reaccionários e muitas coisas mais, inclusive, pelos próprios familiares, de quem esperavam o primeiro conforto e amparo.
Familiares que a muitos expulsaram de casa depois de os acolherem, não só por incompatibilidade ideológica, como pelo peso que passaram a representar para o orçamento dos que os acolheram.
Pois, é – me extremamente consolador recordar, e suponho que para todos os que vieram do ex-Ultramar, os refugiados do Shaba afirmar que aquando do ataque a Kolwezi, logo que identificados como portugueses os não molestaram.
E eles aqui chegaram sãos e salvos!
Não será este facto mais uma prova de que os Portugueses estavam em Africa como irmãos, como iguais?
Outra razão não existirá certamente para esta diferença de tratamento para brancos portugueses e para brancos de outras nacionalidades.
É que os Portugueses, o povo português, nunca foi colonialista e isso é essencial que seja reconhecido por todos, inclusive a nível governamental, acabando-se dê vez com complexos que não existiam e só muito recentemente foram inculcados nos espíritos menos avisados, quer de Portugueses quer de Angolanos, Moçambicanos, Cabo-verdianos, Timorenses, São-Tomenses ou Guineenses.
E, se mais ninguém o faz, cabe-nos a nós Desalojados explicar àqueles, que por infelicidade não conheceram o melhor de Portugal, a realidade da nossa presença em África,
- De facto, se o povo residente, sem sair de suas casas, sem perder a sua ambiência, andava atordoado, como se não sentiriam aqueles que, de um dia para o outro, se viram a milhares de quilómetros, do mundo novo que estavam edificando e de que, na realidade, os melhores frutos eram, na sua quase totalidade, comodamente saboreados por aqueles que até nunca se preocupavam em saber de onde e como lhes vinha à mão tal maná?
Aqui chegados, eram levados consoante as possibilidades para onde calhava, muitos milhares deles sem nunca terem aqui
estado antes, mais não lhes restando que a aceitação de uma qualquer esmola, que muitos ainda hoje mendigam.
E até a estadia em hotéis, inclusivamente de luxo, por desacompanhada de qualquer outra acção, lhes foi extremamente prejudicial, muito em especial pelo seu prolongamento.
Vêem-se, assim, salvo raríssimas excepções e quase todas elas de oportunistas, incapazes de fugir a todas as pressões e manipulações a que são sujeitos,
E, também incapazes de se unirem, apesar de muitos se encontrarem reunidos, têm sido simples joguetes nas mãos de quem apenas deles se quis servir, para proveito próprio ou de grupo.
Noutro aspecto, e muito relevante, o económico, vêm os Desalojados encontrar uma estrutura completamente diferente daquela em que antes se inseriam.
Caminhava-se aqui a passos largos para a colectivização da economia, enquanto que toda a sua actividade em África se tinha pautado pela livre iniciativa.
Por outro lado, no ex-Ultramar, a Banca encontrava-se virada ao financiamento, enquanto que em Portugal., embora nacionalizada, a mesma estava essencialmente virada ao aforro.
Além disso já o desemprego grassava em percentagem alarmante, o que poucas
hipóteses deixavam de um posto de trabalho para os recém-chegados.
No sector público, a juventude dos quadros trazia á Administração Ultramarina uma desenvoltura, difícil de encontrar em Portugal, proporcionando acessos de certo modo rápidos, devido à sua constante expansão.
Além disso a rotação ou passagem dos funcionários públicos pelos centros menos importantes e do interior dos territórios dava-lhes um conhecimento bastante profundo da sua problemática, além de lhes proporcionar um contacto mais íntimo com as populações.
Em que percentagem, por exemplo, os servidores públicos ora em Lisboa prestaram já serviço fora da capital, especialmente em pequenas localidades do interior do País? Por aquilo que me tem sido permitido apurar, em percentagem mínima,
Aqui nasceram ou aqui cresceram, aqui se fizeram funcionários e a reforma aqui atingirão.
É pois o funcionário ex-ultramarino absolutamente passível de voltar novamente ao "mato", como lá se designava o interior, desde que lhe sejam dadas as condições mínimas, o que aliás, por simples destacamento, já está acontecendo, a maior parte das vezes a seu pedido e pelo tecto que pelas aldeias ou vilas os abriga, que não por regalias concedidas.
E não só os funcionários, mas a quase totalidade do povo Desalojado, o que aliás já é visível a quem percorre o interior do pequeno País que nos resta.
Necessário será que incentivos apareçam que mais irão.
• Membro Directivo da Associação Projecto I
Jornal LIBERDADE – 12.09.79
Por Fernando Inácio Gil*
A dignidade de Portugal jamais poderá ser conseguida enquanto o «julgamento dos responsáveis»» não for feito
E, por responsáveis, outros não entendemos que os da «exemplar descolonização» que, amputando o País e separando os Povos que o constituíam, trouxeram não só para os naturais e residentes do ex-Ultramar, a miséria, como também para a grande maioria dos portugueses do continente.
Tudo o mais é balela.
Existia então um modelo económico, não necessariamente forte, convenhamos, mas que a todos trazia abastança suficiente
Mas, em seu lugar, que existe hoje?
Uma estrutura económico-financeira ainda baseada no passado, em alicerces completamente adulterados, não sendo outros, viáveis e consentâneos, construídos em alternativa.
Estamos pois em colapso económico, sem que se anteveja ou pressinta o mínimo de vontade nacional para o superar. É que a sua superação só será conseguida com a restauração da dignidade de Portugal, que o mesmo é dizer-se, do orgulho de nos sentirmos portugueses.
E a dignidade de Portugal não se poderá confundir com este ou aquele regime, com esta ou aquela pessoa, porque está acima de todos nós, além de todos nós, porque essencialmente é parte de nós.
A mim mesmo me tenho perguntado muitas vezes:
—Será que, hoje e aqui, me poderei sentir honrado em me proclamar português?
—Será que tudo fiz ou tenho procurado fazer para que Portugal seja, na realidade, um País a que nos orgulhemos de pertencer?
—Enfim, será que todos nós Lhe prestamos aquele contributo mínimo e que a comunidade que somos exige de cada um de nós?
Em consciência, não nos resta outra conclusão que não seja a da negativa.
Pois se dia a dia, hora a hora, momento a momento, temos de prover à nossa sobrevivência individuai, se não contribuirmos de mãos dadas e coração aberto para a sobrevivência nacional nada mais restará que o desaparecimento, talvez não de uma terra chamada Portugal, mas sim de um estado de espírito que sempre lhe esteve subjacente e a justifica como nação independente: a Lusitanidade.
Algumas foram através dos tempos as ocasiões em que o Portugal dominado ou acorrentado foi libertado, antes e acima de tudo, por essa força que considero perene, que se não vê e não tem medida, que apenas se sente e terá novamente de emanar de cada um de nós, pois nos é intrínseca desde o berço da nacionalidade.
E é desse sentimento LUSÍADA que nos têm querido afastar alguns, que de portugueses apenas terão, por fortuito acaso, um Bilhete de Identidade.
Torna-se pois necessário acordar, afastar os falsos portugueses, sem esquecer os falsos Messias, e reencontrar o verdadeiro caminho de Portugal
Caminho difícil, cheio de escolhos, mas que se não poderá encetar enquanto as reparações devidas, morais e materiais, não forem feitas.
E só em tal comunhão de espírito e na identidade de finalidades tal caminhada poderá ser efectivada e levada a bom termo
Houve um certo caminho andado que, inconscientemente drogado seguimos, mas que não poderemos percorrer em sentido inverso.
Assim sendo, resta-nos somente mudar de rumo
— Mas como e para onde?
Certamente que não serei eu, nem cada um de nós de «per si», que o conseguirá determinar
Mas seremos nós, os que primeiro acordarmos desta profunda letargia em que temos vivido, tudo aceitando como se esse fosse o nosso destino, que teremos de
reanimar as mentes mais adormecidas ou obscurecidas, sacudindo-as para a verdadeira realidade do que éramos, naquilo em que estamos e do que teremos de voltar a ser
Enfim... só uma análise profunda de causas e efeitos nos poderá dar o real contexto do presente, para então se decidir do rumo futuro.
E todos não seremos demais para o encontrar.
É pois essencial que se situe, no vasto rol de problemas que nos afectam, a realidade do povo Desalojado e da sua inserção no contexto atrás referido.
Como ultramarino por nascimento, português por formação e lusíada por sentimento, resta-me tentar, não inventando justificações, mas o mais objectivamente possível, mostrar o quanto sofremos e se todo esse sofrimento não terá sido já ex-piação suficiente para quantos de nós, nada então querendo arriscar, a tudo voltámos costas, pensando apenas em nos vermos dentro de um avião que nos tirasse do eter-no em que tudo se transformou.
— Quem nos levou afinai a não lutar de imediato por aquilo que considerávamos a nossa terra, que nos levou a abandonar à sua sorte homens, mulheres e crianças que considerávamos como nossos irmãos, que nos fez enfim reagir de certo modo como culpados e não como vítimas?
— Que estranhas forças nos paralisaram?
Resta-nos pois que acordemos de vez e nos empunhamos por nossos actos e por nossa fé nos destinos de Portugal, isto é, peia nossa Lusitanidade
Unamo-nos pois, sem preconceitos ou ressentimentos, sem falsas intenções e com verdade, procurando reencontrar, não só o nosso caminho dentro de Portugal como o de Portugal no mundo.
• Membro Directivo da Associação Projecto I
Jornal LIBERDADE – 5.09.79
A nova face de Portugal face aos desalojados (II)
Por Fernando Inácio Gil*
Quem como eu acompanhou tão intimamente, vivendo minuto a minuto, a fuga que se transformou NO maior êxodo da História Contemporânea, não pode, como desde o início o tem tentado fazer, deixar que alguns, até facilmente inidentificáveis colham benesses á custa, não só do afundamento material como moral dos Desalojados.
Se alguns, poucos, algo trouxeram, a grande maioria apenas foi portadora do seu "saber de experiência feito”.
Coloquemo-lo pois, sem reservas, ao dispor da comunidade.
Pois o essencial é querer.
— Mas como, se as pessoas andam famintas -se sofrem a perda de entes queridos, se trazem na carne feridas incuráveis, se chafurdam na lama e na miséria à procura, única e simplesmente da sobrevivência?
Pois, será a partir desta impossibilidade, mais aparente que real, querendo-o, que nos deveremos erguer e exigir, dentro do respeito pela legalidade, a reparação possível.
Sabemos que a reparação da honra, arrastará à reparação da fazenda.
Mas como sobreviver até lá?
Por isso não se poderá esperar tão dilatado prazo.
Ê pois urgente e necessário que o Governo Português reconheça, de imediato, o direito á Indemnização dos bens deixados no Portugal que éramos.
Embora não baste à resolução do problema, tal reconhecimento é essencial, não só corno primeira reparação moral, mas para que todo o processo evolua no sentido da indemnização material, inclusive condicionada na sua aplicação.
Tem-se dito que isso será resolvido quando resolvido o contencioso entre Portugal e aqueles novos Estados.
Mas concretamente o problema é diverso, pois a existir um contencioso, ele será entre cidadãos portugueses e o seu Governo.
O que não invalida que o Governo Português, talvez melhor, o Estado Português intente, ser compensado, do que colectiva ou individualmente passou à posse dos novos Estados.
Interessa, pois, entre muitos outros aspectos, analisar, o porquê do entorpecimento em que a maioria dos Desalojados caiu, o porquê do seu isolamento e o porquê do não aproveitamento racional e imediato das suas capacidades.
O ambiente geográfico, com largos espaços de horizontes vastos, em que as pessoas se movimentavam sem atropelos, porque desnecessários, criou em todos os que nas terras do ex-Ultramar viviam um certo sentimento individualista, só formalmente; diferente, porque afinal semelhante, ao espírito dos primeiros desbravadores da mata africana, sempre à espera de atingir algo mais além.
Foi assim que, pelo seu imenso interior a dezenas ou centenas de quilómetros das cidades principais, normalmente situadas no litoral, multas vezes a partir da fixação de um único indivíduo, aparecia a povoação que se transformava em vila e quantas em cidades florescentes.
Havia pois espaços para todos, onde a iniciativa individual, não sem enorme esforço, tinha vasto campo para se expandir, muito mais dependente da capacidade de cada um, que de apoios oficiais que porventura conseguisse.
E o exemplo destes colonos, que não colonialistas, era suficiente para que o próprio africano negro saísse do seu atraso e se promovesse social e culturalmente
Quantas vezes, por exemplo, os seus apelos às entidades governativas não eram para que estas lhes dessem casas ou lhes fornecessem alimentos. Mas antes que os ensinassem a construir melhores habitações ou a cultivar melhor a terra.
A terra que, ao fim e ao cabo com poucas excepções de algumas grandes companhias, era já, na realidade, de quem a trabalhava, branco ou negro.
Quem, destes espaços quase ilimitados, se viu de um dia para o outro sem
nada, apertado, e quantas vezes esfomeado, neste canto da Europa, só num esforço supremo a tal se poderia de imediato acomodar.
De igual modo a ambiência sócio política vívida em África era na essência baseada num espírito de corações e portas abertas, sem complexos de parte a parte, na sua quase generalidade.
Ora, no momento, em que os Desalojados chegam a Portugal, encontram um País dividido, sujeito a verdadeiras torrentes de verborreia, onde quase nada se produzia, e eram acolhidos como esclavagistas, exploradores de pretos, reaccionários e muitas coisas mais, inclusive, pelos próprios familiares, de quem esperavam o primeiro conforto e amparo.
Familiares que a muitos expulsaram de casa depois de os acolherem, não só por incompatibilidade ideológica, como pelo peso que passaram a representar para o orçamento dos que os acolheram.
Pois, é – me extremamente consolador recordar, e suponho que para todos os que vieram do ex-Ultramar, os refugiados do Shaba afirmar que aquando do ataque a Kolwezi, logo que identificados como portugueses os não molestaram.
E eles aqui chegaram sãos e salvos!
Não será este facto mais uma prova de que os Portugueses estavam em Africa como irmãos, como iguais?
Outra razão não existirá certamente para esta diferença de tratamento para brancos portugueses e para brancos de outras nacionalidades.
É que os Portugueses, o povo português, nunca foi colonialista e isso é essencial que seja reconhecido por todos, inclusive a nível governamental, acabando-se dê vez com complexos que não existiam e só muito recentemente foram inculcados nos espíritos menos avisados, quer de Portugueses quer de Angolanos, Moçambicanos, Cabo-verdianos, Timorenses, São-Tomenses ou Guineenses.
E, se mais ninguém o faz, cabe-nos a nós Desalojados explicar àqueles, que por infelicidade não conheceram o melhor de Portugal, a realidade da nossa presença em África,
- De facto, se o povo residente, sem sair de suas casas, sem perder a sua ambiência, andava atordoado, como se não sentiriam aqueles que, de um dia para o outro, se viram a milhares de quilómetros, do mundo novo que estavam edificando e de que, na realidade, os melhores frutos eram, na sua quase totalidade, comodamente saboreados por aqueles que até nunca se preocupavam em saber de onde e como lhes vinha à mão tal maná?
Aqui chegados, eram levados consoante as possibilidades para onde calhava, muitos milhares deles sem nunca terem aqui
estado antes, mais não lhes restando que a aceitação de uma qualquer esmola, que muitos ainda hoje mendigam.
E até a estadia em hotéis, inclusivamente de luxo, por desacompanhada de qualquer outra acção, lhes foi extremamente prejudicial, muito em especial pelo seu prolongamento.
Vêem-se, assim, salvo raríssimas excepções e quase todas elas de oportunistas, incapazes de fugir a todas as pressões e manipulações a que são sujeitos,
E, também incapazes de se unirem, apesar de muitos se encontrarem reunidos, têm sido simples joguetes nas mãos de quem apenas deles se quis servir, para proveito próprio ou de grupo.
Noutro aspecto, e muito relevante, o económico, vêm os Desalojados encontrar uma estrutura completamente diferente daquela em que antes se inseriam.
Caminhava-se aqui a passos largos para a colectivização da economia, enquanto que toda a sua actividade em África se tinha pautado pela livre iniciativa.
Por outro lado, no ex-Ultramar, a Banca encontrava-se virada ao financiamento, enquanto que em Portugal., embora nacionalizada, a mesma estava essencialmente virada ao aforro.
Além disso já o desemprego grassava em percentagem alarmante, o que poucas
hipóteses deixavam de um posto de trabalho para os recém-chegados.
No sector público, a juventude dos quadros trazia á Administração Ultramarina uma desenvoltura, difícil de encontrar em Portugal, proporcionando acessos de certo modo rápidos, devido à sua constante expansão.
Além disso a rotação ou passagem dos funcionários públicos pelos centros menos importantes e do interior dos territórios dava-lhes um conhecimento bastante profundo da sua problemática, além de lhes proporcionar um contacto mais íntimo com as populações.
Em que percentagem, por exemplo, os servidores públicos ora em Lisboa prestaram já serviço fora da capital, especialmente em pequenas localidades do interior do País? Por aquilo que me tem sido permitido apurar, em percentagem mínima,
Aqui nasceram ou aqui cresceram, aqui se fizeram funcionários e a reforma aqui atingirão.
É pois o funcionário ex-ultramarino absolutamente passível de voltar novamente ao "mato", como lá se designava o interior, desde que lhe sejam dadas as condições mínimas, o que aliás, por simples destacamento, já está acontecendo, a maior parte das vezes a seu pedido e pelo tecto que pelas aldeias ou vilas os abriga, que não por regalias concedidas.
E não só os funcionários, mas a quase totalidade do povo Desalojado, o que aliás já é visível a quem percorre o interior do pequeno País que nos resta.
Necessário será que incentivos apareçam que mais irão.
• Membro Directivo da Associação Projecto I
Jornal LIBERDADE – 12.09.79
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