Portugal é uma notícia falsa /premium
29/12/2018, 0:062.266
Se, conforme proclama o Indicador Supremo da Felicidade,
os portugueses gastaram mais dinheiro no Natal, não é virtude de Costa, mas
defeito dos portugueses. E todos sabem que não nos restam muitos.
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Foi a 1 de Abril de 2017, salvo o erro, que recebi o
telefonema do sujeito. Eu estava no aeroporto de Orlando, a ver uma pequena tempestade
cancelar sucessivos voos para Nova Iorque, e conhecia o sujeito de nome. Dias
antes, o sujeito chegara a director, sob ordens do director de facto, da
revista para a qual eu escrevia há 13 anos. O telefonema começou com
cumprimentos efusivos e terminou, um minuto depois, com o meu afastamento da
tal revista. Por isto e por aquilo, não fiquei espantado, ou demasiado
aborrecido.
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Além de ser escusado, não me ocorreu queixar-me, ou questionar o
direito de empregadores, sejam proprietários ou capatazes, despacharem
empregados, sejam avençados ou “fixos”. Apenas me ocorreu responder ao
funcionário da Delta Airlines que entretanto me chamara e, finalmente, apanhar
um avião. Houve nuvens negras durante toda a viagem, mas pairavam lá em baixo.
Não voltei a pensar no sujeito, e só ocasionalmente voltei a pensar nas
consequências do meu breve contacto com ele. A vida, ou lá o que é, continua.
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E continuou até 27 de Dezembro de 2018, quando pela
primeira vez o Facebook me mostrou a ligação para um artigo do sujeito,
publicado nesse dia no site da referida revista. Segui a ligação. Li o artigo.
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Cito pedaços: “António Costa vai entrar em 2019 com condições políticas
invejáveis. Pode ser um ano de sonho. Termina a legislatura com uma
popularidade imbatível, pode ganhar as eleições com maioria absoluta ou, no
cenário menos bom, escolher o parceiro que quiser para uma nova geringonça.”;
“A economia permanece numa trajectória de recuperação e os portugueses, como se
tem visto nesta quadra natalícia, andam tão felizes nas compras que não nutrem
qualquer simpatia pelas profissões que protestam por via da greve”; “(…) a já
lendária lucidez de António Costa (…)”. O artigo, cuja parte disponível
citei quase na íntegra, não terminava aqui: o resto era reservado a assinantes,
coisa que não sou.
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Sou, porém, um maluquinho por contemplar as figuras a que
alguns se prestam para ganhar o pão de cada dia. Pelo que decidi procurar
artigos anteriores do sujeito, que jamais lera. Valeu a pena, e vale a pena
insistir nas citações: “António Costa vai acelerar para o seu grande
objectivo que é ganhar com maioria absoluta. Por isso, fez uma operação de
remodelação e gestão política quase perfeita.”; “Costa afinou a máquina e ela
promete ser diabólica na corrida até à meta. Remodelou a tempo para ganhar a
sério.”; “(…) o pragmatismo e instinto político de António Costa (…)”; “Os bons
resultados da geringonça são de António Costa e do PS”; “A vida de António
Costa está cada vez mais fácil. O primeiro-ministro é o pêndulo essencial da
política de alianças governativas à esquerda e à direita (…)”; “O
primeiro-ministro sabe que, acidentes de percurso à parte, (…) o vento sopra a
seu favor. Os portugueses já acabaram 2017 com mais dinheiro no bolso – que bem
se viu nas compras de Natal – e vão continuar esse efeito em 2018.”; “Costa
cometeu uns erros, disse uns disparates!? É certo que não foi um exemplo de
sensibilidade política e social, em certos momentos. Mas é o timoneiro, tem uma
enorme popularidade e é reconhecido como o homem certo no lugar certo. Enquanto
as contas andarem bem, ninguém o derruba do poleiro. (…) Nas contas, não há
político mais realista do que ele…”. Etc. Etc. Etc.
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Não identifico o sujeito porque não é preciso e porque
não quero personalizar um “estilo” que, na pobreza da linguagem e na curvatura
das vértebras, é afinal colectivo e praticamente o padrão-ouro dos comentadores
pátrios. O facto de dormirem sossegados é um rombo na indústria dos
ansiolíticos.
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A fim de simular isenção, salpicam pelos comentários críticas a
ministros fugazes, lamentam determinadas decisões governamentais ou a falta
delas, desancam no “eng.” Sócrates sempre que as directivas mandam, brincam com
o ocasional (e raríssimo e humano e perdoável) “deslize” do primeiro-ministro
para legitimar (eles, coitados, dizem “credibilizar”) o resultado pretendido: a
descarada propaganda do dr. Costa e dos poderes que o dr. Costa representa.
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É
fascinante a jovialidade com que se eleva a um estatuto próximo do génio
político alguém que, sob qualquer perspectiva, não passa de uma irrelevância
manhosa. Removido o verniz que os seus bajuladores inventaram, quem é o dr.
Costa? No máximo, um veterano da pequena intriga partidária, um especialista em
tropeçar na verdade e na gramática, um videirinho descarado, um rústico sem noção,
o chefe oportuno de um bando repulsivo à vista e à decência. Ou, na ponderada
definição dos devotos, “o timoneiro”.
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Diga-se que o estado da nação é exactamente o que se
esperaria após três anos nas mãos de um timoneiro assim, e o contraponto (tosse
prolongada) de uma oposição assado. A bancarrota, já uma tradição popular,
volta a espreitar. Estradas, hospitais, justiça, instituições, fronteiras,
soberanias desmantelam-se a céu aberto. A forma do debate público raia a
demência, e o conteúdo fintou a demência há tempos. As clientelas
empanturram-se. As trapaças sucedem-se. O fisco sufoca tudo. Protestos de duas
dúzias são ameaçados por jagunços e vigiados por batalhões. Fanáticos e burlões
sobem a “personalidades”.
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O ranço veste-se de progresso. Os vestígios da
civilidade fugiram apavorados. E este retrato de uma agonia certa é retocado
pelos “media” de serviço de modo a assemelhar-se a um caso de sucesso (juro).
Numa imitação fiel da lengalenga oficial e oficiosa, também nos “media” a
mentira deixou de ser um recurso para se tornar o processo. Uns e outros
presumem a profunda idiotia dos cidadãos. E a maioria dos cidadãos, alheia ao
colapso do país e da Europa que segura o país, tende a dar-lhes razão.
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Se, conforme proclama o Indicador Supremo da Felicidade,
os portugueses gastaram mais dinheiro no Natal, não é virtude de Costa, mas
defeito dos portugueses. E um suspiro: todos sabem que não nos restam muitos,
embora ninguém queira saber. Enquanto lá fora as “fake news” são uma praga,
aqui são um bálsamo. Tenho saudades de aeroportos.
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