quinta-feira, dezembro 27, 2018

"O NILTON E AS VERDADES:"AS PESSOAS SÃO CHANFRADAS"

"Tive maturidade para perceber que as pessoas são malucas, nada a fazer"

Solrir: O festival de humor do sul do país tem nova edição marcada para o final deste mês. Nilton será um dos humoristas convidados para atuar, assunto que serviu de mote para uma boa conversa com o Notícias ao Minuto. "Não sou algarvio, mas comecei a fazer humor lá", afirma, assumindo-se quase como "embaixador" do evento.

"Tive maturidade para perceber que as pessoas são malucas, nada a fazer"
Notícias ao Minuto
Há 11 Horas por Mariline Direito Rodrigues
Fama Nilton
Bem-disposto. Assertivo. Com a resposta na 'ponta da língua'. Foi assim que Nilton se apresentou quando chegámos aos estúdios da Renascença, mais precisamente, ao auditório da RFM, onde aconteceu esta entrevista.
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De sorriso no rosto, recebeu-nos e respondeu sem rodeios a todas as perguntas. Humorista há 18 anos, se contarmos os momentos em que começou a subir aos palcos, ou há mais de duas décadas, se pensarmos no tempo em que se começou a interessar pela comédia, são muitas as histórias que gosta de recordar. Ou as piadas que tem para contar. 
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Tem um enorme carinho pelos fãs que se dão ao trabalho de "saírem de casa" para irem ver os seus espetáculos de 'stand up', e até mesmo pelos 'haters' - que não são poucos - que perdem tempo da sua vida a criticá-lo, não só ele, mas ao mundo, conforme fez notar. 
Continua a encher salas de espetáculo ao fim de 18 anos. É difícil manter o interesse das pessoas?
É difícil fazeres isso diariamente e, de alguma maneira, manteres as pessoas interessadas naquilo que possas ter a dizer. Para mim é um grande barómetro esgotares salas pelo país todo há tantos anos e é sinal de que realmente que as pessoas gostam. O que dá trabalho é diariamente, mas isso é como tudo, eu gosto de trabalhar. Centro muito a minha vida profissional na 'stand up', é aquilo que gosto de fazer, estar em contacto com as pessoas, dou muito valor às que saem de casa para irem assistir a um espetáculo. Acho que isso é um ‘like’ brutal, a pessoa saiu de casa e foi ver-te. E depois, obviamente, isso é uma consequência do teu trabalho. Acordo às 5h30h da manhã para vir para aqui [para a rádio] e depois as pessoas retribuem indo ver os meu espetáculos.
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Qual a mensagem mais difícil de transmitir nos espetáculos?
Já passei um bocado a parte da utopia, acho que a mensagem é acima de tudo dares um bom momento às pessoas e elas esquecerem a vida, os problemas, perceberem que se pode brincar com tudo. Não tenho nenhuns pruridos em brincar com tudo, acho que está em ti aceitar isso ou não enquanto catarse. É não te levares demasiado a sério e saberes rir e aceitar que não vale a pena às vezes chateares-te com coisas supérflua.Acho que qualquer humorista tem em si um bocadinho de humor negro  
Notícias ao MinutoNilton após um espetáculo em Portimão, onde a sua carreira começou. Regressará ao Algarve, mais precisamente a Albufeira, para o festival de humor Solrir, no dia 29 deste mês © Facebook/Nilton
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Então não existe humor negro mas simplesmente humor?
Tal como um indivíduo que começa a aprender a andar de bicicleta e depois começa a fazer cavalinhos, acho que qualquer humorista tem em si um bocadinho de humor negro. Rio-me e adoro piadas de humor negro e faço-as muitas vezes no dia a dia. Se for fazer um espetáculo empresarial terei algum cuidado com isso. No meu humor em auditório faço muito mais, enquanto comediante e, em primeiro lugar, como guionista, já quero fazer cavalinhos. E isso é obviamente fazeres escárnio e sátira às coisas mais pesadas, porque são elas que te fazem mais cócegas no cérebro. Portanto, vais querendo fazer mais acrobacias com a tua bicicleta que é a escrita. Adoro esse sentimento do ‘ahhhhh, qual era a necessidade agora disso?’. Gosto desse lado do teatro.
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Mas por vezes um humorista precisa de auto-censura?
Num contexto: é como tu saberes que vais jantar a casa da tua namorada pela primeira vez e não vais pôr os pés em cima da mesa... se calhar nunca pões. É teres noção numa lógica de longevidade. Podes ser um grande maluco… [Mas] Acho que tens de saber posicionar-te em cada situação. Quero que as pessoas gostem daquele momento seja onde for, quero fazer cócegas no cérebro e brincar com as pessoas, mas dentro de uma auto-censura lógica.
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A auto-censura é saberes comportar-te em cada situação.Por exemplo, na rádio, temos uma figura que é o ‘family oriented’. Sei perfeitamente que há a figura do ‘kid in the back seat’, neste caso, as crianças atrás no carro, e que se disseres coisas disruptivas que deixem o pai desconfortável ele muda de canal. Se aceitas estar a trabalhar numa rádio com um milhão de pessoas, que é o caso da RFM e do ‘Café da Manhã’, tens de ter essa noção. Depois compensas noutro sítio. [Por exemplo] Adoro fazer nudismo, mas não posso fazer em todas as praias, então vou ao Meco. A auto-censura é saberes comportar-te em cada situação.
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Então o grupo de 'haters' do Nilton que existe não lhe faz comichão…
Não, já fez, é natural. Principalmente com o início da Internet. Fui o primeiro humorista a atingir o milhão de seguidores no Facebook, que é uma marca muito grande e que chateia muita gente. Por exemplo, não tinha 'haters' quando tinha poucos seguidores. No início destas redes sociais ninguém tinha muita noção das coisas. Aprendes a lidar com isso e a perceberes que não é contra ti, é contra toda a gente, porque hoje marram contigo, depois amanhã contra outra pessoa.
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A partir do momento em que ganhei maturidade para perceber que as pessoas são malucas, não há nada a fazer
Ainda na semana passada estava a criticar a história do helicóptero do INEM, de haver pessoas a buscar peças do helicóptero. E para qualquer cidadão normal, quem é que é o maluco [que faz isto]? 
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Além de estar a comprometer uma investigação, está a ofender pessoas. Iam pessoas reais dentro do helicóptero: pais, filhos. Consegues pôr uma frase sobre isso e há pessoas que vêm marrar contigo a condenar, outras a dizer que estás a usar o INEM para fazer piadas. A partir do momento em que ganhei maturidade para perceber que as pessoas são malucas, não há nada a fazer.

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