"Tive maturidade para perceber que as pessoas são malucas, nada a fazer"
Solrir: O festival de humor do sul do país tem nova edição marcada para o final deste mês. Nilton será um dos humoristas convidados para atuar, assunto que serviu de mote para uma boa conversa com o Notícias ao Minuto. "Não sou algarvio, mas comecei a fazer humor lá", afirma, assumindo-se quase como "embaixador" do evento.
© D.R
Fama
Nilton
Bem-disposto. Assertivo. Com
a resposta na 'ponta da língua'. Foi assim que Nilton se apresentou
quando chegámos aos estúdios da Renascença, mais precisamente, ao
auditório da RFM, onde aconteceu esta entrevista.
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De sorriso no rosto, recebeu-nos e respondeu sem rodeios a
todas as perguntas. Humorista há 18 anos, se contarmos os momentos em
que começou a subir aos palcos, ou há mais de duas décadas, se pensarmos
no tempo em que se começou a interessar pela comédia, são muitas as
histórias que gosta de recordar. Ou as piadas que tem para contar.
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Tem
um enorme carinho pelos fãs que se dão ao trabalho de "saírem de casa"
para irem ver os seus espetáculos de 'stand up', e até mesmo pelos
'haters' - que não são poucos - que perdem tempo da sua vida a
criticá-lo, não só ele, mas ao mundo, conforme fez notar.
Continua a encher salas de espetáculo ao fim de 18 anos. É difícil manter o interesse das pessoas?
É
difícil fazeres isso diariamente e, de alguma maneira, manteres as
pessoas interessadas naquilo que possas ter a dizer. Para mim é um
grande barómetro esgotares salas pelo país todo há tantos anos e é sinal
de que realmente que as pessoas gostam. O que dá trabalho é
diariamente, mas isso é como tudo, eu gosto de trabalhar. Centro muito a
minha vida profissional na 'stand up', é aquilo que gosto de fazer,
estar em contacto com as pessoas, dou muito valor às que saem de casa
para irem assistir a um espetáculo. Acho que isso é um ‘like’ brutal, a
pessoa saiu de casa e foi ver-te. E depois, obviamente, isso é uma
consequência do teu trabalho. Acordo às 5h30h da manhã para vir para
aqui [para a rádio] e depois as pessoas retribuem indo ver os meu
espetáculos.
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Qual a mensagem mais difícil de transmitir nos espetáculos?
Já
passei um bocado a parte da utopia, acho que a mensagem é acima de tudo
dares um bom momento às pessoas e elas esquecerem a vida, os problemas,
perceberem que se pode brincar com tudo. Não tenho nenhuns pruridos em
brincar com tudo, acho que está em ti aceitar isso ou não enquanto
catarse. É não te levares demasiado a sério e saberes rir e aceitar que
não vale a pena às vezes chateares-te com coisas supérflua.Acho que qualquer humorista tem em si um bocadinho de humor negro
Nilton após
um espetáculo em Portimão, onde a sua carreira começou. Regressará ao
Algarve, mais precisamente a Albufeira, para o festival de humor Solrir,
no dia 29 deste mês © Facebook/Nilton
.
Então não existe humor negro mas simplesmente humor?
Tal
como um indivíduo que começa a aprender a andar de bicicleta e depois
começa a fazer cavalinhos, acho que qualquer humorista tem em si um
bocadinho de humor negro. Rio-me e adoro piadas de humor negro e faço-as
muitas vezes no dia a dia. Se for fazer um espetáculo empresarial terei
algum cuidado com isso. No meu humor em auditório faço muito mais,
enquanto comediante e, em primeiro lugar, como guionista, já quero fazer
cavalinhos. E isso é obviamente fazeres escárnio e sátira às coisas
mais pesadas, porque são elas que te fazem mais cócegas no cérebro.
Portanto, vais querendo fazer mais acrobacias com a tua bicicleta que é a
escrita. Adoro esse sentimento do ‘ahhhhh, qual era a necessidade agora
disso?’. Gosto desse lado do teatro.
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Mas por vezes um humorista precisa de auto-censura?
Num
contexto: é como tu saberes que vais jantar a casa da tua namorada pela
primeira vez e não vais pôr os pés em cima da mesa... se calhar nunca
pões. É teres noção numa lógica de longevidade. Podes ser um grande
maluco… [Mas] Acho que tens de saber posicionar-te em cada situação.
Quero que as pessoas gostem daquele momento seja onde for, quero fazer
cócegas no cérebro e brincar com as pessoas, mas dentro de uma
auto-censura lógica.
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A auto-censura é saberes comportar-te em cada situação.Por
exemplo, na rádio, temos uma figura que é o ‘family oriented’. Sei
perfeitamente que há a figura do ‘kid in the back seat’, neste caso, as
crianças atrás no carro, e que se disseres coisas disruptivas que deixem
o pai desconfortável ele muda de canal. Se aceitas estar a trabalhar
numa rádio com um milhão de pessoas, que é o caso da RFM e do ‘Café da
Manhã’, tens de ter essa noção. Depois compensas noutro sítio. [Por
exemplo] Adoro fazer nudismo, mas não posso fazer em todas as praias,
então vou ao Meco. A auto-censura é saberes comportar-te em cada
situação.
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Então o grupo de 'haters' do Nilton que existe não lhe faz comichão…
Não,
já fez, é natural. Principalmente com o início da Internet. Fui o
primeiro humorista a atingir o milhão de seguidores no Facebook, que é
uma marca muito grande e que chateia muita gente. Por exemplo, não tinha
'haters' quando tinha poucos seguidores. No início destas redes sociais
ninguém tinha muita noção das coisas. Aprendes a lidar com isso e a
perceberes que não é contra ti, é contra toda a gente, porque hoje
marram contigo, depois amanhã contra outra pessoa.
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A partir do momento em que ganhei maturidade para perceber que as pessoas são malucas, não há nada a fazer
Ainda
na semana passada estava a criticar a história do helicóptero do INEM,
de haver pessoas a buscar peças do helicóptero. E para qualquer cidadão
normal, quem é que é o maluco [que faz isto]?
.
Além de estar a
comprometer uma investigação, está a ofender pessoas. Iam pessoas reais
dentro do helicóptero: pais, filhos. Consegues pôr uma frase sobre isso e
há pessoas que vêm marrar contigo a condenar, outras a dizer que estás a
usar o INEM para fazer piadas. A partir do momento em que ganhei
maturidade para perceber que as pessoas são malucas, não há nada a
fazer.
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