Quando o jornalismo ajuda a esconder
Daniel Oliveira
Quando escrevo este texto, o
bloqueio anónimo iniciado nas redes sociais pela extrema-direita
parecia ser um absoluto flop. A comunicação social é, neste momento, o
maior motivo de piada nacional. Deve-se ter escrito mais artigos esta
semana do que o número de pessoas presentes no protesto. Quem se deu ao
trabalho de se infiltrar em grupos de WhatsApp destes movimentos sabe
que ainda há uma semana ele se estava a desintegrar por dentro, com
tensões entre vários grupelhos de extrema-direita e alguns ingénuos.
.
Que
estava a definhar. Até que, no início desta semana, depois da PSP
anunciar uma grande mobilização para grandes protestos – baseada em
nada, como se viu, já que ao contrário de todas as outras manifestações
não há uma estrutura organizada que lhes possa dar informação –, a
comunicação social passou a dar notícias diárias sobre o que iria
acontecer.
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Compreendo o interesse
perante um protesto anónimo, tenho mais dificuldade em compreender a
confusão entre informação e mera divulgação. Para a divulgar sem filtro
os jornalistas não são precisos. Diariamente, foram sendo publicadas
listas de locais de encontro, com horários, e manifestos contraditórios
com reivindicações igualmente contraditórias. Devia ser ao contrário,
mas as fontes, se forem anónimas, têm acesso facilitado aos media. Até
podem, mesmo estando a convocar uma manifestação pública, continuar
anónimas sem que ninguém veja nisso um problema. Nem os jornalistas.
.
Muito poucos fizeram o
óbvio: dizer quem eram os promotores disto. Eles tiveram reuniões com a
PSP. Têm identidades. Sendo a coisa mais estranha deste movimento o
anonimato, essa é que é a informação relevante. A comunicação social não
tem de ser cúmplice desse anonimato. Quando foi o “Que se Lixe a
Troika” havia signatários do manifesto inicial e eles foram, com toda a
legitimidade, escrutinados. Os jornalistas quiseram saber, e bem, quem
eles eram e que filiações políticas tinham. Porque é isso que diz
qualquer coisa sobre as motivações do protesto.
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Muito mais do que
manifestos escritos em cima do joelho em que se dizem generalidades.
Generalidades que, ainda assim, foram temperadas com expressões que
qualquer pessoa com alguma cultura política identifica com a
extrema-direita. Sentem o povo português a exigir um referendo sobre o
Plano Global das Migrações, constante numa das listas de reivindicações?
Identificam expressões como “ideologia de raça” e “ideologia de
género”?
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O que eu esperava que os
jornalistas me dessem não era horários, locais de encontro e manifestos
colados com cuspo. É o que eles não queriam que eu soubesse: quem
esteve a preparar um movimento
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Durante uma semana, a
comunicação social fez muito menos do que informar. Promoveu e convocou
uma manifestação sem identificar os seus autores e sem ter a menor ideia
da sua real dimensão. Nunca, que me recorde, qualquer manifestação teve
esta cobertura antes de acontecer. Incluído manifestações que tiveram
centenas de milhares de pessoas. Sempre com promotores conhecidos.
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O
pânico de ignorar uma coisa que poderia ser relevante fez com que os
media a tentassem transformar em relevante. Quase à força. Para que se
tornasse numa profecia autorrealizável. O que eu esperava que os
jornalistas me dessem não é o que estes grupos anónimos me davam nas
redes sociais: horários e locais de encontro, manifestos colados com
cuspo. É o que eles não queriam que eu soubesse: quem esteve a preparar
este movimento e porquê. Isso é que é jornalismo. Sobretudo quando não
há um rastilho claro que explique o nascimento do protesto.
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Tirando o “Diário de
Notícias”, que identificando um dos grupos iniciais tornou evidente as
ligações à extrema-direita, ninguém o fez. Limitaram-se a comprar, ao
preço que lhes foi vendido, a transposição oportunista dos coletes
amarelos para Portugal. Ontem, na véspera, lá foi um tipo à SIC Notícias
dizer umas barbaridades desconexas e foi o primeiro e único rosto dos
que “espontaneamente” escreveram manifestos e “espontaneamente” reuniram
com a PSP que conhecemos. Sem nada sabermos sobre ele, na realidade.
Os próximos movimentos já sabem como ganhar o interesse da comunicação social: quanto menos transparentes forem mais atenção terão. Não de jornalistas que lhes queiram retirar a opacidade, mas de jornalistas que colaborem ativamente com ela. Basta qualquer partido ou movimento radical esconder-se atrás de um falso movimento inorgânico e logo terá a ajuda de uma imprensa demasiado sedenta de mistério e modernidade para se atrever a fazer perguntas. Terão promoção gratuita.
E, um belo dia, um dos
jornalistas que fez esta triste figura vai perguntar, ao ver um
Bolsonaro ou um Trump no poder: “Como raio chegámos aqui”? Nunca se
lembrará do dia em que desistiu de ser desconfiado.
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