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Desfolho
de quando em quando uma página e dou-lhe vida. O episódio que vou
narrar foi passado há 36 anos. Muito tempo já passado mas ainda hoje,
dentro de mim, existe o choque que então recebi.
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Pensei,
na altura, quando fui interpelado por um militar empunhando uma
metralhadora ligeira e um árabe de cinturão, com balas, em diagonal que
lhe abraçava, desde o pescoço, o peito.
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Isto
aconteceu, numa noite sem luar, em pleno deserto infinito ao nordeste
da Arábia Saudita e a confinar as fronteitas do sultanato de Qatar e
Emirates Árabes Unidos.
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Distante
estaria o meu pensamento que dois dias antes da minha partida para
Banguecoque, onde iria passar o fim do ano de 1982 para 1983, que no dia
29 de Dezembro, iria ser destacado, mais o meu dedicado assistente,
Balamba, de nacionalidade filipina; um "mundo e arredores" a entoar canções espanholas onde nestas se incluia a do tango "La Comparcita",
para acudir ao um camião que fazia a logística de apoio a dois
topógrafos, ingleses, no deserto e a cerca de 100 quilómetros da
fronteira do Sultanato de Oman.
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Depois
de ter experimentado as agruras e securas do mar de dunas de areia; ter
observado as miragens, distantes do meu olhar a fantasia do azul da
água, vegetação e pedras polidas, entre aquela muito parecida a uma
presa, fui transferido para as oficinas-gerais de Dharhan da "Geophisical Service Inc. (subsidiária da "Texas Instrumentos", com sede em Dallas, Texas, Estados Unidos).
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Bill Smith meu "manager"
das oficinas de reconstrução de motores e outra maquinaria que iria
substituir as que iam avariando nas sete brigadas de prospecção do ouro
negro no deserto árabe, logo pouco depois de começar o meu dia trabalho;
ter recebido uma mensagem, pela rádio (a comunicação na altura) que o camião logístico estava tascado até ao chassi na areia.
Entregou-me um rascunho/mapa com as coordenadas onde deveria estar o corpulento e bruto "Mol",
um veículo híbrido, montado na Bélgica com peças e acessórios de
diversas proveniências que circulava sobre caminhos de areias moles,
solidas e de pedras bicudas.
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Teria que seguir a orientação do ponteiro da bússola para 20 graus a sudeste e a seguir as "bandeirinhas"
que o pessoal que assistia os topógrafos iam espetando a haste de aço
pelas areias que seguiam. Uma orientação indispensável para os que movimentam no deserto. Outro sistema utilizado era o de
bidões com a capacidade de 200 litros, cheios de areia e colocados em
espaços de dois ou três quilómetros de distância entre eles.
Que chatice!
Murmurei: "logo me aparece uma viagem destas dois dias antes de partir para duas semanas férias em Banguecoque"... A
distância era longa, nos meus cálculos seriam uns 800 quilómetros e
umas 24 horas gastas nas viagens e desempanar o pesado todo terreno.
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Quatro
anos a trabalhar no deserto, a conduzir diversos tipos de veículos para
rodar nas areias, estava absolutamente preparado para competir num rali
Paris-Dakar e certamente não ficaria classificado nos últimos lugares.
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Conhecia
e não esqueci todos os segredos como se deve pilotar viaturas de
tracção às quatro rodas e como se deve actuar quando se ficava tascado.
Essencial o conhecimento como sair daquelas areias escaldantes que a
aragem da noite as não faz arrefecer.
O condutor negligente, inexperiente se esqueceu de verificar o tanque de reserva de água (por norma com 100 litros) do seu veículo e munir-se de comida, se vier a ficar enterrado na areia (o deserto não tem vias todo ele é uma) poder-lhe-á custar a vida, pela desidratação, durante o sol a pino, numas escassas três horas.
O condutor negligente, inexperiente se esqueceu de verificar o tanque de reserva de água (por norma com 100 litros) do seu veículo e munir-se de comida, se vier a ficar enterrado na areia (o deserto não tem vias todo ele é uma) poder-lhe-á custar a vida, pela desidratação, durante o sol a pino, numas escassas três horas.
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A
minha companhia, durante o tempo que a servi na Arábia Saudita; nos
Emiratos Árabes Unidos, tinha perdido dois homens, nativos, pelo facto
de terem abandonado os carros e aventurarem-se caminhar no deserto em
procura de socorro.
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Eu
e o Balamba carregámos na caixa da Chevrolet de 5000 centímetros
cúbicos de cilindrada e os seus, avantajados, 400 cavalos de força
possante; as garrafas de acetileno e oxigénio; peças sobressalentes que
certamente deveriam ser substituidas.
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Todos
os componentes mecânicos daquelas pesadas viaturas eram-me familiares.
Comida e água para os 600 quilómetros que teríamos de percorrer depois
de deixarmos os 200 quilómetros da estrada alcatroada em Salwá, a
fronteira com o Sultanato de Qatar e dos Emiratos Árabes Unidos.
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Partimos
junto às 10 da manhã de Dhahran, passamos sem parar em Al Hufuf e
passado duas horas estou em Salwá. A civilização terminava ali. Agora
tenho pela frente 600 quilómetros de areia e uma bússola que me guiasse
em direcção ao lugar onde estavam os topógrafos e pessoal abandonados.
Teria que seguir a orientação do ponteiro da bússola para 20 graus a sudeste e a seguir as "bandeirinhas"
que o pessoal que assistia os topógrafos iam espetando a haste de aço
pelas areias que seguiam. Uma orientação indispensável para os que movimentam no deserto. Outro sistema utilizado era o de
bidões com a capacidade de 200 litros, cheios de areia e colocados em
espaços de dois ou três quilómetros de distância entre eles.
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Ei pessoal, falei em voz alta, vamos lá sacar isto daqui para fora! Foi
fácil. Uma chapa de ferro a fazer de base a um macaco de 50 toneladas
para levantar a carroçaria e as rodas e encher,depois o vazio que estas
deixaram no solo.
A "Chevrolet"
com um tanque de combustível de 300 litros de combustível, tracção às
quatro rodas e de uma velocidade, segura, de 100 quilómetros por hora
pelas seis horas da tarde, já o sol avermelhado que pintava o horizonte
de cor de fogo, e preste a esconder-se de trás das dunas, estava junto
ao "Mol" enterrado até ao motor em areias moles.
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Eu
era o salvador daquela equipa de pessoal e dos dois topógrafos, que
sinalizavam linhas no terreno arenoso, onde depois os vibradores de
sísmica iram bater e informar, depois, os técnicos se nas profundezas
jaziam ramas de petróleo. O motorista saudita, pouco experiente teimou,
quando o camião principiou a enterrar-se no solo acelerar o motor até
ficar imóvel.
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Segredo de polichinelo! Bastou esvaziar o ar das câmaras de ar dos pneus, para com mais lastro na superfície do solo fazer sair o "bruto" da condição de imobilidade para solo firme. Voltar a meter ar, do compressor, nas câmaras, que o camião estava equipado e deixar os pneus a baixa pressão. A noite tinha já chegado e o Jhon britânico de T-Shirt do seu club o "Manchester United" diz-me: "Martins sleeping here at us tent. Sorry Jhon I´ll be back on my way to Dharhan
Minha carta de condução saudita, renovada de cinco en cinco anos.
Eu e o Balamba vitoriosos! Com pouco trabalho desenrascámos o bruto Mol e o colocamos a circular. Nos
meus projectos estava para as duas da manhã tomarmos uma refeição de
arroz de carne de galinha ou de chibo em Salwá acompanhado com umas
latas de coca-colas frescas.
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Chevrolet
rodava a 100 130 à hora. A luz dos farois rasgava o breu da noite a
mais de duzentos metros. Seguia o caminho pelas marcas do piso que os
pneus tinham deixado, na ida, na areia. Ao longe vislumbrei os farois de um carro a piscar. Pensei e disse ao Balamba: "um beduino está a necessitar de auxílo"...
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Abrandei
a velocidade e preparado para prestar auxílio a quem estivesse com
dificuldades. É a lei do deserto que éramos obrigados a cumprir à risca o
auxílio aos náufragos das areias. Ninguém a pode ignorar. É crime para
aqueles que desprezam um náufrago do deserto e sujeito a penas pesadas
impostas pela Justiça. Porém a luz dos farois deixaram de piscar.
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Bem
o condutor apenas me havia sinalizado a sua presença para me acautelar,
assim o tinha futurado. Vi de facto uma carrinha, de fabrico americano e
não liguei importância porque não observei ninguém junto a ela.
Acelerei novamente e para a frente é que é a caminho! Mas o estranho
viria para depois...
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Uma
meia dúzia de quilómetros percorridos, olho o espelho retrovisor e
verifico que um veículo, a grande velocidade, me perseguia. O que será?
Abrandei a marcha e a carrinha que tinha visto e cruzado, antes, parou à
frente da minha. Da cabine sairam dois homens, agressivos, armados como
"ramblos".
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Um
dirige-se para o lado da minha janela e o outro para a do
Balamba.Nenhum deles falava uma palavra que fosse em inglês...
Barafustavam, coléricos de armas apontadas para mim e para o pobre do
Balamba que tremia como varas verdes. É o fim, é o fim das nossas
vidas...
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Pediram-nos,
por gestos, o cartão que nos permitia residir na Arábia Saudita. Em
pânico não entreguei ao guarda o cartão mas a carteira com dinheiro e os
documentos. Não a chegou abrir.
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Revistaram a cabine e a caixa do veículo. Não encontravam aquilo que pretendiam: bebidas alcoólicas.
Eu
circulava numa área ao longo da fronteira dos Emiratos Árabe Unidos e
era por ali que se fazia o contrabando de whiskies e outras bebidas
espirituosas para a Arábia Saudita.
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A religião muçulmana de Maomé não permite que os seus seguidores as bebam. Porém em todas as religiões há os pecadores.
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O
polícia, que me parecia ser o chefe, colérico e num inglês macarronado e
em voz gutural para mim: "IÚ,IÚ NESS TIME DON STOP IÚ,IÚ GO TO CALABOUÇO"
(Na próxima vez se não parares vais parar ao calaboiço)
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Eu não ganhei para o susto e o Balamba perdeu o pio...
Até Dharhan não mais cantou o tango "La Comparcita".
José Martins

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