quarta-feira, outubro 10, 2018

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 08/10/2018)

A terra queimada da direita brasileira

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 08/10/2018)
Daniel Oliveira
DanielQuando a crise chegou, a elite brasileira percebeu que estava chegada a hora das vacas magras. Isso implicava medidas sérias. As manifestações de 2013, que exigiam melhores serviços públicos, não pediam a demissão de Dilma Rousseff. Se o PT tivesse percebido o que a esquerda raramente percebe quando está no poder, teria aproveitado essa oportunidade para acelerar reformas progressistas. Preferiu ver ali inimigos. A direita aproveitou o erro de cálculo e rapidamente as ruas foram tomadas pela direita revanchista, que chutou os partidos de esquerda para fora das manifestações. Na “Globo”, os “baderneiros” passaram a ser tratados como “patriotas”.
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Num país de políticos corruptos, a direita inventou um crime inexistente para demitir Dilma Rousseff. Uma Presidente sem mácula de corrupção foi afastada por corruptos. A operação Lava-Jato rapidamente começou a ganhar o destino político claro. Houve investigados de outros partidos, mas nenhum que pudesse beliscar uma alternativa ao PT. A campanha mediática construiu o herói: Sérgio Moro, um juiz de Curitiba sedento de fama. E construiu um vilão: Lula da Silva. Que, num processo kafkiano que deixa transtornado qualquer jurista sério, foi cercado, destruído, preso e impedido de concorrer às eleições em que era favorito, apesar do processo não ter transitado em julgado. O ato de impedir Lula de votar é a mais clara confissão do objetivo de criminalizar uma escolha política. A única coisa que não conseguiram foi apagar as vidas que o PT mudou. E é por isso que Fernando Haddad foi à segunda volta, porque o PT espalhou pelo país que “Haddad é Lula, Lula é Haddad”. A enorme dificuldade vai ser explicar que, na segunda volta, Haddad não é Lula, é a democracia.
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Depois do golpe, Michel Temer fez o que tinha de fazer. E nem as acusações de corrupção com provas contundentes – que só sublinham a motivação política do processo contra Lula –, fizeram os deputados recuar. Com apoio de 3% dos brasileiros e cercado de corruptos em todo o Governo, manteve-se no poder para fazer a reforma das leis laborais e da previdência e dirigir uma rápida ofensiva contra os direitos sociais conquistados no tempo do PT. Ele não estava ali para ser popular ou ganhar eleições. Estava ali para fazer o que um Governo eleito teria dificuldades em fazer. De uma vez só e apanhando os brasileiros e a esquerda aturdida.
Foi a direita brasileira que, através da partidarização da Justiça, de um impeachment inconstitucional e da manutenção de um Governo ilegítimo, criou o caos político que a devorou e que está a devorar a frágil democracia brasileira. Na sua vontade de matar o PT, suicidou-se. Seria de festejar a ironia do destino, não fosse a forte possibilidade de um fascista se tornar Presidente do Brasil
A direita brasileira, e sobretudo o PSDB, ficou amarrada a este Governo e deixou o espaço do descontentamento para Bolsonaro. Sem Lula nas eleições, sem um candidato credível à direita, ele tinha o campo aberto. E ainda teve a sorte de uma facada o livrar dos debates, onde a sua absurda impreparação ficaria mais evidente. Foi a direita “democrática” (depois do golpe, tenho dificuldade em usar o adjetivo) que, através da partidarização da Justiça, de um impeachment inconstitucional e da manutenção de um Governo ilegítimo, criou o caos político que a devorou e que está a devorar a frágil democracia brasileira. As maiores vítima do golpe acabaram por ser os seus autores. Na sua vontade de matar o PT, a direita brasileira suicidou-se. Seria de festejar a ironia do destino, não fosse o preço da sua irresponsabilidade e a forte possibilidade de um fascista se tornar Presidente do Brasil.
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Apetecia-me, com algum otimismo, escrever que a elite brasileira se arrependerá de Bolsonaro. Mas não se arrependerá. Ele foi uma excelente forma de direcionar a revolta dos brasileiros, garantindo que o essencial do status quo fica na mesma. Como a ditadura anterior, ele não vai pôr o poder que conta em causa. Nem a desigualdade, nem a corrupção como forma de Governo. Apenas responde ao desejo de uma elite que o teve como segunda escolha: ordem sem progresso.
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Sim, o PT tem culpa por Bolsonaro. Não foi agora, foi antes. E não foi por ser socialista. Foi porque acreditou que, no Brasil, é possível redistribuir sem irritar ninguém. Manteve uma estrutura económica terceiro-mundista e extrativista, totalmente dependente dos preços das matérias primas. Não aproveitou as manifestações de 2013 para dar salto maior. Não percebeu que o sistema judicial brasileiro é tão corrupto como todo o sistema de poder e que as portas que foram abertas para o justicialismo seriam usadas apenas contra si. Não quis mudar o sistema partidário e político que tem na compra de deputados a única forma viável de fazer maiorias. Não conseguiu fazer alianças à esquerda, do PSOL ao PDT. Não limpou o partido de todos os corruptos e até os manteve nestas eleições. 
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E acreditou que podia governar com o que de pior existe no Brasil, não percebendo que na primeira oportunidade seria devorado por aqueles que meteu no seu Governo. Ninguém agradeceu ao PT a moderação e ela não impediu que a direita agitasse o fantasma da Venezuela. Mas que não se faça confusão nas responsabilidades: quem abriu os portões do Planalto a um fascista foi quem apostou na política de terra queimada.

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