Polarização, justicialismo e desprezo pelas instituições. Os nossos populistas
(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 01/10/2018)
Daniel Oliveira
Se não nos ficarmos pelo
automatismo que apelida e chama populista à popularidade de quem nos
desagrada, podemos atribuir a essa catalogação política tão em voga e
tão pouco rigorosa três características: a dicotomia entre povo e elite
(por vezes há um terceiro elemento, como os imigrantes), a utilização
dos casos de corrupção ou sinais exteriores de privilégio do poder
político como síntese da decadência moral do regime e o desprezo pelas
instituições que o compõem. Muito mais do que o BE ou o CDS, quem
encaixa neste padrão é uma direita que saltou da academia, dos jornais e
dos blogues para o poder, às cavalitas de Passos Coelho e da
intervenção da troika. E que hoje organiza o cerco a Rio e a Marcelo,
vistos como resquícios de uma velha direita complacente.Quais são os três grandes temas dos representantes desta direita nos media? Uma polarização entre “nós”, a classe média e os empreendedores, e “eles”, a oligarquia instalada e, como terceiro elemento, os parasitas que se alimentam dos nossos impostos; a associação permanente dos adversários políticos à corrupção; e o retrato de todas as instituições do Estado que não tenham funções repressivas como incompetentes e inúteis.
Um dos últimos artigos de Rui Ramos no
“Observador” (jornal financiado pela fina flor da nossa elite
económica) confirma o primeiro traço do populismo nacional. Nele,
assume-se que a geringonça foi gerada pelos “oligarcas” como nova forma
de poder depois do ajustamento financeiro, que os abalou. Diz o autor
que na rede que engendraram, ainda protagonizada pelos amigos e famílias
que estiveram com Sócrates, há lugar para o PCP, “com os seus
sindicatos de funcionários”, o BE, “com a sua universidade e o seu
jornalismo”, e Rui Rio. Quase todo o sistema partidário e institucional,
tirando a Justiça e os principais homens de negócios do país, claro. E
foi essa rede que liquidou Joana Marques Vidal, comprando o silêncio dos
portugueses com “mais uns euros de ordenado ou pensão, de preferência à
custa dos impostos do vizinho”. As teses conspirativas de Rui Ramos
resumem bem um Tea Party à portuguesa.
.
Se Ramos protagoniza o
discurso polarizador típico dos populistas, João Miguel Tavares
dedica-se à obsessão quase monotemática pela corrupção. Qualquer pessoa
que defenda garantias de arguidos é amiga da bandidagem, qualquer
militante do PS é eticamente suspeito. Não preciso de fazer a ligação a
nenhum texto, podem escolher quase ao calhas.
.
A carta aberta de Passos Coelho a Joana Marques Vidal completa
a tríade “populista” (polarização, justicialismo e desprezo pelas
instituições) que afastam esta direita dos conservadores tradicionais.
Nela, Passos insinua que o Governo e a Presidência conspiraram contra a
Justiça em defesa de criminosos, não se preocupando com a inaudita
gravidade desta acusação e pondo, sem qualquer temor, as instituições
democráticas ao serviço de corruptos.
.
Muitas vezes atribuímos à
histeria ou ao desespero a retórica cada vez mais agressiva desta
direita. Eu acho que ela resulta do seu carácter revolucionário. Helena Matos explica: “No
passado os militares resolviam o assunto (…) Na democracia portuguesa
as falências têm cumprido esse papel. E agora como vai ser? Esperamos
que um novo pedido de resgate resolva o assunto?” Para Helena Matos e
Rui Ramos, os resgates não são apenas financeiros. São morais, políticos
e criminais. São purificadores e regeneradores.
.
Rui Ramos, com as suas
dicotomias simplificadoras entre os “oligarcas” e as suas vítimas, João
Miguel Tavares, com a sua cruzada para a criminalização do PS, Passos
Coelho, com a sua suspeita moral sobre toda a cúpula da democracia, e
Helena Matos, com a sua fé purificadora nas intervenções externas,
constroem um retrato completo desta direita populista.
Ela, essa direita, vê as instituições democráticas do Estado como um empecilho ao mercado totalmente livre, é revolucionária nos seus objetivos, antidemocrática na sua natureza e demagógica na sua retórica. Como todos os populistas, alimenta-se de meias-verdades e ressentimentos. Mas não é a nossa liberdade que os ocupa. É a destruição dos limites que subsistem ao poder dos que verdadeiramente mandam.
Sem comentários :
Enviar um comentário