INQUIETANTE SISTEMA (REVELAÇÕES DA ACUSAÇÃO CONHECIDA COMO CASO BENFICA)
(Virgínia da Silva Veiga, 08/09/2018)

Contas por alto, a acusação que envolve o Benfica tem tudo de grave menos o futebol. Em breve leitura, é possível verificar que, em Portugal, no espaço de um ano, um funcionário judicial pôde aceder ao computador de uma Procuradora, segundo os registos ali constantes, mais de 450 vezes. Não é uma, não foram duas, foram quase cinco centenas de vezes, sobre diferentes processos a que somou pesquisas em processos administrativos e de trabalho, ao sistema da Segurança Social e aos DIAPs de Lisboa e do Porto. E a notícia é o futebol.
É verdadeiramente inquietante ler a
acusação, que se tornou notícia futebolística, quando encerra factos
reveladores de um sistema de espionagem em Portugal, a envolver vários
funcionários e uma Procuradora, Ana Paula Vitorino. Diz-se ali que a
respectiva palavra passe serviu de acesso a centenas de consultas de
variadíssimos processos.
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O acaso assume gravidade gritante ao
saber-se que a mesma Procuradora é a assessora directa da Procuradora
Distrital de Lisboa, Maria José Morgado.
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Em Março último, a revista Sábado – como,
estamos para saber, como sempre – teve conhecimento da utilização dos
dados pessoais, secretos e transmissíveis através dos quais diversos
processos foram consultados, os mais a partir de Guimarães e de Fafe.
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Nessa altura, a PGR emitiu um comunicado
que hoje se revela verdadeiramente assustador. Afirmava, então: “tal
utilização efectuou-se sem o conhecimento ou consentimento da titular
das credenciais, a qual, sendo completamente alheia ao sucedido não é,
nem nunca foi, suspeita ou visada na investigação em curso”.
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Como é possível?! Se alguém aceder ao
computador de um funcionário para cometer um crime – ao computador de
qualquer um de nós – o detentor do mesmo tem que ficar objectivamente
sobre suspeita e ser investigado até a seu próprio pedido. No mínimo, há
uma quebra de zelo. Alguém tem que explicar como teve o agora
famigerado José Pinto acesso a dados de absoluta intimidade.
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A Procuradora em causa, não se duvidando
da inocência – até por servir a quem servia – , tem que justificar ao
país, ela e a Procuradora Joana Marques Vidal, como tal pode acontecer,
tem que, evidentemente deixar de exercer as funções de assessoria até se
encontrar tudo devidamente esclarecido. É mais que caso de polícia, é
um caso de espionagem mais grave ainda por se tratar de assessora da
pessoa que todos respeitamos.
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A referida acusação afirma que o arguido
principal se serviu das palavras-passe de outros funcionários. Todos,
procuradora e funcionários, foram relegados ao papel de testemunhas sem
que se saiba ou explique quem são, no sentido de quais as ligações que
têm ou tiveram com o arguido, e como foi possível estarem envolvidos num
processo de espionagem que envolveu, não apenas o futebol, mas
espionagem ao Ministro das Finanças e ao caso Galp.
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Aliás, a acusação revela candidamente que
– e cito – José Silva consultou, igualmente com os dados da referida
Procuradora, vários processos da 9ª secção do DIAP de Lisboa “alguns sem
relação com o futebol”. Refere de seguida sete processos onde não
esclarece quem eram as partes envolvidas, os Inquéritos 183/17.4JGLSB,
5310/17.5T9LSB, 5354/17.79LSB, 770/16.4JDLSB, 7566/17.4T9LSB,
7957/17.OT9LSB, 7590/17.T9LSB, 6784/15.4JFLSB, que talvez alguém saiba
identificar ou seja parte neles.
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O mesmo arguido vem acusado de deter em
sua casa 8 computadores, uma impressora, 2 monitores e um teclado todos
pertencentes ao Ministério da Justiça. Como é que isto foi possível?
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A espionagem que – sublinho – envolve a
assessora da Procuradora Distrital de Lisboa, vários funcionários
judiciais e o acesso a processos civis, criminais, de trabalho e
administrativos, não está a ser alvo de qualquer investigação, não
mereceu uma palavra do PR, da Ministra da Justiça e, como dito, de Joana
Marques Vidal, a qual, como supra referido, apenas emitiu um comunicado
sobre o assunto exactamente para anunciar … nada estar a ser
investigado, cingindo o caso a futebol e elevando Proença à honra de ter
conseguido ser acusado por violação do Segredo de Justiça em Portugal.
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