Pedrógão: uma raiva a nascer-te nos dentes
Naquela reportagem Pedrógão confunde-se com Sodoma. A imoralidade é de tal ordem que o mal parece o bem e o bem parece o mal.
Quando Sérgio Godinho lançou o seu primeiro álbum, em 1971, escolheu como tema de abertura uma canção chamada Que Força É Essa,
que era simultaneamente um grito para tentar despertar uma nação
adormecida por 40 anos de ditadura e um canto melancólico sobre um país
com um talento desmedido, e incompreensível, para a passividade. No
domingo vi com dias de atraso a reportagem de Ana Leal para a TVI sobre a
utilização fraudulenta dos fundos para a reconstrução de Pedrógão
Grande – chama-se “O Compadrio” e nenhum outro nome seria mais adequado
–, e em conjunto com uma sensação do mais profundo nojo e vergonha, só
conseguia pensar em Sérgio Godinho e nos versos de Que Força É Essa:
“não me digas que nunca sentiste/ uma força a crescer-te nos dedos/ e
uma raiva a nascer-te nos dentes/ não me digas que não me compreendes”.
A raiva de que Godinho falava era uma raiva cívica e moral, que se
não vem das entranhas de cada um é porque não está lá. Imaginar que
tantas pessoas que há um ano estavam a enfrentar a maior tragédia
portuguesa em décadas, e que por isso mesmo motivou um movimento de
solidariedade sem precedentes por todo o país, rapidamente transformaram
o terrível sofrimento na mais repugnante ganância, é uma profundíssima
dor de alma. Tirando os pobres desgraçados sem conhecimentos nem cunhas,
alguns dos quais ainda estão à espera de recuperar uma primeira
habitação decente, a sensação que temos é que todos os intermediários e
respectivos familiares que puderam abocanhar o seu pedaço de
generosidade alheia, abocanharam. A excepção não é o corrupto. A
excepção é a pessoa honesta.
Naquela reportagem Pedrógão confunde-se com Sodoma. A imoralidade é
de tal ordem que o mal parece o bem e o bem parece o mal. Pessoas houve
que falaram com Ana Leal como se a fraude fosse não apenas uma
inevitabilidade, mas uma obrigação. Diziam: eles mandaram-me preencher
os documentos daquela maneira e eu preenchi; eles mandaram-me mudar a
morada fiscal e eu mudei; eu não queria, foram eles que me obrigaram a
roubar em proveito próprio. Uma das pessoas ouvidas explicou o
patriótico raciocínio: se o dinheiro é para ir para outro lado, mais
vale ficar em Pedrógão. Seja nas mãos do amigo que transformou o
palheiro em casa de habitação, seja nas mãos do funcionário que passou a
ter uma vivenda onde antes do fogo só havia ruínas, seja no bolso do
empreiteiro que cobrou valores absurdos por obras ridículas. Não é
roubar. É aproveitar uma oportunidade de negócio.
Se o caro leitor tiver filhos em idade escolar, por favor,
mostre-lhes aquela reportagem. É o que eu pretendo fazer. Se um cidadão
vir aquilo e não sentir de imediato a tal “raiva a nascer nos dentes”,
alguma coisa de errado se está a passar. Se um primeiro-ministro vê
aquilo e não sente necessidade imperativa de agir, então não está a
fazer nada em São Bento. Se um presidente da câmara é confrontado com
tantas denúncias sem dar uma única justificação de jeito, optando antes
por processar Ana Leal e a TVI – como Valdemar Alves ameaçou fazer –,
então o seu carácter está definido, para sempre. Ver aquelas imagens
pode dar aos nossos filhos vontade de emigrar, que ao longo da História
tem sido a solução recorrente para quem já não suporta o país. Mas,
ainda assim, há que arriscar e lembrar e insistir e repetir, com este
exemplo infame, o bê-á-bá da decência e da moralidade, antes que também
neles a mais reles fraude passe por manifestação de inteligência.
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