O enlevo de Marques Mendes pela maioria absoluta
(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 18/09/2018)

(Caro Francisco. Deste no 20. A
direita que conta, a da finança e dos negócios mais opíparos, prefere o
Costa de calças de ganga ao Rio de smoking, ou à Cristas de vestido de
noite. Só há um pequeno “irritante” – para usar uma expressão que se
vulgarizou a propósito das relações com Angola -, é preciso que o PS
possa “respirar” o seu “europeísmo” sem o garrote da Geringonça.
E o pequenote, “o bruxo de Fafe”, lá
vai aos domingos fazendo o seu trabalhinho de sacristão da cúria
financista. A oeste, nada de novo…
Comentário da Estátua, 18/09/2018)
Marques Mendes, um dos dois únicos comentadores políticos na
televisão generalista de canal aberto e em horário nobre, a par de Paulo
Portas (um terceiro, Júdice, passou recentemente para o canal cabo da
sua estação), usa o seu poder com intensidade, arte e manha. Não seria
de esperar nada de diferente e cumprimento-o por isso. Para mais, sendo
tão conhecida a sua inclinação partidária, dado que foi presidente do
PSD, é um comentador que não se esconde atrás de um biombo de santarrona
imparcialidade. Essa assunção da sua cor política é uma forma de
respeitar os espectadores.
.
Mas a surpresa vem do que
diz. Naturalmente muito concentrado no acompanhamento do seu partido,
que desconfiava de Santana Lopes e não gostava de Rui Rio sempre esteve
bom de ver. Que por isso atende com alguma indiscreta volúpia aquelas
viragens de sentimentos nas reuniões laranjas, tantas vezes sopradas
pelos próprios para encherem as sinaléticas de algumas gazetas, isso
também é evidente no seu comentário. O que menos se esperaria é o
interesse e até o desvelo com que milita em prol da maioria absoluta do
PS.
.
Esse empenho é
indesmentível. Marques Mendes pode num domingo embandeirar em arco com
uma sondagem que dá o PS a subir, mesmo que longe da miraculosa maioria,
mas ignorará depois a sondagem seguinte, que sempre bafejara o partido
mas que agora o dá por mais afastado dessa meta. Mendes carregará nas
dissensões do seu próprio partido e, suprema ironia, indiscretamente até
elogiará Santana pela escolha do enviesado nome de Aliança para a sua
aventura, pois elas e ele favorecem o propósito maioritário.
Mendes
procurará informação, conselho e até conforto junto de fontes
autorizadas do primeiro-ministro, pois isso lhe permite fazer anúncios
antecipando medidas do governo, o que convém a uns e a outros, mas vai
mais longe, assumindo ousadamente as dores das polémicas do executivo,
vergastando os críticos de Costa e elogiando as manobras do executivo.
Se o PS menospreza os seus parceiros, Mendes desprezará; se o PS os
denigre, Mendes metralhará. Ele terá sempre o adjetivo mais afiado, a
acusação mais grave e a sentença mais definitiva. Se há debate, Mendes
ficará sempre costista, até mesmo cesarista se a tanto for impelido.
Vai nisto uma lógica coerente. A direita que conta, a dos chefes de empresas, da finança, dos bastidores e das pontes entre esses e a política, a dos fundos imobiliários, a das instituições europeias, toda essa gente já desistiu do PSD nestas eleições de 2019 e não leva a sério nem Assunção Cristas nem muito menos Nuno Melo.
Assunto encerrado, esses
partidos ou o tal salvador que é convocado ritualmente pelas preces do
Observador e de alguns iluminados filhos de Hayek e Reagan, nenhum deles
tem préstimo para servir esta elite tão habituada aos carinhos do
Estado, os primeiros por fraqueza e o outro por constrangedora
inexistência. O PS é o único partido em que confiam para esses favores.
.
Só que, para cumprir, o PS
tem que se livrar da corja de esquerda que obriga a entendimentos contra
privatizações, ou a não acelerar as bondosas parcerias público-privado,
ou que convoca os fundadores para proteger o Serviço Nacional de Saúde
das benesses de um mercado tão ansioso. Aquela esquerda que só pensa em
gastar dinheiro com políticas sociais e em diminuir os generosos
benefícios fiscais que, como toda a gente sabe, são o motor do
desenvolvimento, essa é a razão das nossas dificuldades.
.
Contra tal
plebe, o PS precisa da maioria absoluta para cumprir o desígnio de ser o
que a direita deseja para o governo deste país à beira-mar plantado. E,
sabedor, Mendes atira-se à tarefa, com alto gabarito. Até se arrisca ao
paradoxo e suprema ironia de atacar Rio por não ser alternativa a
Costa, enquanto defende a omnipotência de Costa contra qualquer putativa
alternativa.
.
Mas que o faça com um ano
de antecedência, não lho aconselharia, se bem que o PS cometa o mesmo
erro. É precipitação, é tempo demais, as sarrafuscas de agora vão ficar
esquecidas, nem se pode manter durante tanto tempo a telenovela. A
emoção, a informação plantada, a dúvida, a insinuação, tudo isso tem que
atuar depressa, atacar com estrépito, e quem é que aguenta tamanha
intriga por um ano inteiro?
.
Os advogados da maioria absoluta estarão um
ano a desdizer-se, que isto vai tão bem e que por isso é preciso mudar
de estilo de governação, que foi um sucesso e que por isso é precisa uma
maioria absoluta para acabar com a confusão, que uma maioria absoluta
não é nada parecida com a do anterior governo do PS, por ser aberta como
a geringonça, e por isso mesmo ela tem que acabar.
Tudo errado. A luta
pela maioria absoluta devia ser discreta e mesmo Marques Mendes, que só
pode falar com fanfarra pois vive numa televisão, devia entender que o
seu costismo é pícaro demais. Como sempre, a ânsia de servir a causa
maiorista pode ser contraproducente. Alguém quer um ano a ser
industriado pela pose da salvífica maioria absoluta?
.
Por tudo isto, até sugiro a
Catarina e a Jerónimo de Sousa que agradeçam a Marques Mendes. Enquanto
ele prossegue a sua cruzada basta-lhes virarem-se para os eleitores e
eleitoras e perguntarem candidamente: é mesmo isso que querem?
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