Tudo isto é tão português!
(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 29/09/2018)

1 Por
definição, as Forças Armadas são uma instituição que assenta numa
estrutura hierárquica rígida. Uma estrutura de comando e de
responsabilidades. Em Tancos, um paiol do Exército foi assaltado e
esvaziado, num golpe absolutamente humilhante para quem o tinha à sua
guarda. Os oficiais de comando ao paiol e ao quartel foram suspensos,
mas rapidamente reintegrados e até promovidos, sem que nenhumas
responsabilidades se tivessem apurado. Três meses depois, uma parte do
armamento roubado — em alguns casos deficitário, noutros até excedente
(o que dá ideia do rigor do controle existente) — foi “misteriosamente”
recuperado num descampado. Os “responsáveis” máximos, o chefe do
Estado-Maior do Exército e o impagável ministro da Defesa, suspiraram de
alívio e mantiveram-se em funções, como se nada fosse, fazendo orelhas
moucas às sucessivas manifestações de desconforto do Presidente da
República. Mais de um ano volvido, indicia-se toda uma trama que é um
escândalo impensável, envolvendo as mais altas esferas da PJM e da GNR
no encobrimento do crime e na disputa de esferas de influência com a
Judiciária civil. Independentemente do apuramento final dos factos e das
responsabilidades perante a Justiça, a simples suspeita política mata. É
uma vergonha que, no momento em que escrevo, o chefe do Exército se
mantenha em funções, o ministro se mantenha em funções, e que nos venham
dizer que este não é o momento para discutir a subsistência dessa
inútil e, pelos vistos, perigosa instituição que é a PJM. Afinal de
contas, é isto a hierarquia militar: a desresponsabilização em cadeia.
2 O
caso do Infarmed e da sua frustrada transferência para o Porto — uma
espécie de rebuçado para compensar a não ida da Agência Europeia do
Medicamento — é outro exemplo que ilustra bem o funcionamento do Estado
Português. Cheio de boas intenções, António Costa prometeu sem cuidar de
saber se podia cumprir. Encomendou um relatório técnico, que apoiou a
decisão do Governo — óptimo. Só que depois lembrou-se de consultar os
trabalhadores, e 90% deles responderam que não queriam ir para o Porto,
essa parvónia. Pois, não vão — nem eles nem o Infarmed. Porque o Estado
Português, a maior empresa e o maior empregador do país, não goza da
liberdade de dispor dos seus trabalhadores onde quer e onde lhe fazem
falta, mas onde eles querem e os sindicatos deixam. O PCP veio dizer que
isto era um simulacro de descentralização e que a verdadeira
descentralização seria a criação das célebres Regiões Administrativas —
mediante as quais, e à custa do dinheiro dos contribuintes, o PCP se
distrairia a criar algumas áreas no Alentejo e na Margem Sul, por si
administradas à semelhança da região da Quinta da Atalaia, com as suas
regras próprias de segurança e não só. Porém, estão errados: a
verdadeira descentralização não consiste em inventar novos e inúteis
serviços do Estado para duplicar os que já existem ou despejar dinheiro e
poderes administrativos sem objecto em novos órgãos políticos, mas sim
transferir para o interior parte dos serviços existentes e, por arrasto,
criar condições para a fixação de empresas que sejam fonte de criação
de riqueza e geradoras de emprego. O Infarmed foi a primeira experiência
de efectiva descentralização e viu-se o resultado. É preciso muito mais
do que um voluntarismo “leviano”, como acabou por lhe chamar António
Costa.
3 Não
defendo a prisão efectiva sistemática, de que já abusámos em Portugal. E
não me chocaria que, no caso da violação julgada pelo Tribunal da
Relação do Porto, tivessem sido aplicadas penas alternativas à prisão
efectiva suficientemente adequadas a cumprir a sua função punitiva e
dissuasora. Mas as penas suspensas aplicadas no caso são ultrajantes. E a
sua fundamentação é outra forma de violação, assente numa sentença de
um tribunal superior. Dizer que não houve violência, quando a vítima
estava desmaiada (para que seria preciso violência?), dizer que teria
havido “sedução mútua” anteriormente ao acto, como se isso pudesse
desculpar a violação, desvalorizar o facto de dois funcionários de uma
discoteca, vendo uma cliente em estado de coma alcoólico ou próximo, em
lugar de lhe prestar auxílio, tratarem de a violar e acharem que isso
“não deixou danos físicos” (como se fossem os únicos a ter em conta) é
uma sentença que deve envergonhar qualquer juiz. Será que a aplicariam
no caso de a vítima ser sua mulher ou filha? Que um deles seja
presidente da respectiva associação sindical e que esta se permita, em
defesa do seu presidente, vir comentar e defender a sentença ultrapassa o
mais obstruso corporativismo e entra no domínio da pura desfaçatez.
4 O
director de Serralves, João Ribas, também na função de curador,
resolveu montar uma exposição de Mapplethorpe. Para quem gosta, que não é
o meu caso: não vejo ali arte, nem fotografia, mas apenas as taras
exibicionistas e sado-maso de um homossexual doentio, e não acho, nem
nunca achei, que arte “seja tudo o que um artista nomeia como tal”, na
infeliz definição de um amigo que já cá não está. Se assim fosse,
qualquer dia teríamos alguém a propor como arte uma exposição de
fotografias das violações de crianças cometidas pelos 1260 membros do
clero católico da Alemanha. Mas, enfim, o curador é que sabe, o país é
livre e lá se fez a exposição. E eu fiquei sentado à espera de me rir,
porque já adivinhava os problemas. E, claro, eles vieram. Só que…
inventados pelo próprio curador. Salas reservadas a menores, fotografias
retiradas sem explicação, curador demissionário e desaparecido e, logo,
a inescapável suspeita de censura a levantar-se, qual nuvem ameaçadora,
sobre a venerável instituição de Serralves e a sua presidente,
malquista de alguns bem-pensantes destes assuntos. Era material
suculento demais para que o jornal “Público”, sempre atento e incansável
na luta pelo politicamente correcto, não se atirasse com unhas e dentes
ao infame caso da censura sobre as fotografias de Mapplethorpe. O
empenho foi tanto que até desenterraram do opróbrio onde justamente
jazia o Jack Lang-Carrilho para vociferar contra a censura sobre a arte
que estaria a ocorrer em Serralves, à vista de todos. Afinal, era tudo
uma farsa, cujos objectivos o sr. Ribas explicará um dia, em assim
querendo. Mas, ao menos, salvou-se o sucesso da exposição: alertados por
tão saudável polémica, seis mil cidadãos, criancinhas incluídas,
correram durante o fim-de-semana a Serralves para verem as pilas do
Mapplethorpe. Que tenham feito bom proveito!
5 Foi, até agora, a melhor coisa do mandato de Marcelo (não esquecendo também a coragem de António Costa): ter posto o interesse das instituições democráticas à frente do canto das sereias partidárias na solução encontrada para a PGR. Justamente porque era pacífico o bom desempenho de Joana Marques Vidal, o que estava em causa era mostrar que a confiança essencial tinha de ser dada à instituição e não a uma figura providencial.
E que a alteração feita de
dois mandatos de quatro anos para um de seis anos visava que este fosse
mais longo e único, de forma a garantir a independência de um PGR que de
antemão não tinha de manobrar pela sua recondução. A campanha desabrida
em contrário foi apenas uma orquestração de quem quis confundir alhos
com bugalhos e de quem tem uma estranha concepção do funcionamento da
democracia.
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