Obrigado, Marcelo
(Daniel Oliveira, in Expresso, 22/09/2018)

Daniel Oliveira
(Muito bom texto, ó Daniel. Só o título é que destoa. Passo a explicar.
A campanha frenética da direita
político-mediática foi demasiado febril, pelo que deixou Marcelo sem
margem de manobra para pleitar pela recondução da Vidal. Passaria a
poder ser acusado de ser um Presidente de facção, carimbo de que ele
foge desde a sua campanha para a presidência. Se não se deve
partidarizar a Justiça. por idênticas razões, Marcelo não poderia nunca
deixar partidarizar a Presidência.
Logo, Marcelo não merece
agradecimentos. Fez o que está certo e deveria fazer. Por coincidência –
ou talvez não -, o que está certo contribui, de passagem, para a
manutenção da imagem que Marcelo quer dar de si e do seu pontificado:
popular, abrangente e ecuménico.
Estátua de Sal, 22/09/2018)
A não recondução da
procuradora-geral da República tem vários derrotados, e nenhum deles é
Joana Marques Vidal. Antes de tudo, os que em vez de confiarem que a
verdade da Justiça repousa no processo e na lei sonham com um Sérgio
Moro à portuguesa, papel que esta PGR nunca quis ter. Os que, à esquerda
e à direita, quiseram fazer desta nomeação uma questão partidária. E os
que, na comunicação social, nos garantiram que o Presidente estava
determinado em reconduzir Joana Marques Vidal. Participaram, voluntária
ou involuntariamente, numa campanha política baseada numa falsidade. Se
foram enganos, o código deontológico permite-lhes divulgar as fontes. Se
não foram, devem-nos uma explicação. Até porque Marcelo os desmentiu,
garantindo que nunca tinha dito em público ou em privado qual era a sua
posição. E só ele a podia conhecer.
.
Como escrevi antes, as
razões pelas quais me opunha à recondução de Joana Marques Vidal são as
mesmas porque me oporei à recondução de Lucília Gago e me teria oposto à
recondução de Souto Moura ou Pinto Monteiro. E elas ficam bem claras no
festival partidário e mediático a que assistimos nos últimos meses. Pôr
o poder político a avaliar um mandato de um PGR, chumbando-o ou
aprovando-o, é um convite à politização da Justiça.
.
Um mandato único e
longo, era esta a posição conhecida da própria Joana Marques Vidal, que
Marcelo Rebelo de Sousa acompanha. Minutos depois da nomeação da nova
PGR, Passos Coelho considerou esta posição uma “falácia” e acusou o
Presidente da República de participar numa perseguição política. “Um
agradecimento a Joana Marques Vidal”, titulou, recordando que foi ele
que a nomeou. Esta tentativa de instrumentalizar a Justiça, de que a
atual procuradora-geral não tem qualquer responsabilidade, é o melhor
argumento para não ter cometido o erro de pela primeira vez reconduzir
um PGR. De cada vez que o mandato chegasse ao fim era a este espetáculo
que assistiríamos, transformando o Ministério Público num palco da
guerrilha partidária, com políticos a patrocinar recandidaturas.
.
Estava num concerto na
noite em que se soube que, tal como os seus antecessores, Joana Marques
Vidal não seria reconduzida. Ouvi atrás de mim: “O Sócrates e o Salgado
já se safaram.”
.
A demagogia reinante
instalou no país a ideia absurda de que a condenação de duas pessoas já
acusadas pelo Ministério Público depende de quem seja o PGR. Quem pensa
assim não acredita que vive num Estado de direito. E se assim é, tanto
faz quem seja o PGR. Porque fora do Estado de direito as condenações
valem o mesmo que as suas absolvições: nada.
A oposição sabia que o PS estava embaraçado com o caso Sócrates e tentou cavalgar o incómodo no debate sobre a recondução da PGR, sem cuidar do dano que este aproveitamento causava à Justiça. O único homem que podia travar a irresponsabilidade era o Presidente da República, sem qualquer interesse político no tema. Felizmente, pôs a defesa das instituições à frente do confronto entre partidos.
Não terá sido fácil, não é
seguramente popular. Mas a democracia fica-lhe em dívida. Há quem julgue
que a crise das instituições democráticas se resolve na barra do
tribunal, com heróis judiciais. O Brasil, com um fascista à porta do
Planalto, já deixou bem claro que esse é o caminho para a tragédia.
Felizmente há, no lugar certo, quem não o queira trilhar.
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