Reitor da Universidade de Lisboa arrasa política do Governo na despedida de Marcelo
20.09.2018 às 17h24
António Cruz Serra, até agora reitor da Universidade Técnica de Lisboa, toma posse na próxima quinta-feira
José Ventura
“Manifestamente pouco avisada”, foi como o reitor classificou “a estratégia política” do ministro da tutela, que culpou diretamente pela perda, este ano, de 1066 vagas nas universidades de Lisboa e do Porto
A
última aula de Marcelo Rebelo de Sousa ficará ligada a um arraso, por
parte do reitor da Universidade de Lisboa, António Cruz Serra, à
política do Governo de António Costa, nomeadamente ao ministro da
Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor.
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O ministro
não esteve presente na sessão de abertura do ano académico que coincidiu
com a última aula de Marcelo Rebelo de Sousa. Coube ao ministro da
Educação, ao ministro do Planeamento e à ministra do Mar, presentes na
sala, ouvirem o recado enviado pelo reitor em voz alta na presença do
Presidente da República.
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"Manifestamente pouco avisada", foi como
o reitor classificou "a estratégia política" do ministro da tutela, que
culpou diretamente pela perda, este ano, de 1066 vagas nas
universidades de Lisboa e do Porto. Mas António Cruz Serra não se ficou
pela redução de vagas que associou à política de alegada valorização do
interior.
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O reitor criticou duramente a falta de financiamento
para a Universidade e o que considera ser um ataque à autonomia
universitária. O ataque chegou ao ponto de Cruz Serra ver na política do
setor medidas que fazem "tábua rasa do texto constitucional" e que
"ferem violentamente" a herança deixada por Mariano Gago, o ministro da
Ciência no Governo socialista de António Guterres.
Medidas revelam “total desconsideração pela autonomia universitária"
Em
causa estão "muitas medidas legislativas recentemente tomadas em total
desconsideração pela autonomia universitária", começando pela que
resulta "da contratação sem concurso do pessoal docente e investigador".
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"Por
imposição legal, as universidades têm agora de abrir concursos para
pessoas determinadas adaptando no edital a descrição do lugar posto a
concurso ao perfil do candidato pré escolhido", denunciou o reitor,
confessando "não ver medida que mais violentamente fira o legado de José
Mariano Gago que, contra a endogamia, soube construir um sistema
científico baseado no recrutamento por mérito, através de concursos
internacionais".
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O encerramento de vagas foi outro ponto
detalhadamente desmontado por Cruz Serra: "Não podemos compreender que o
nosso Ministério force as melhores universidades a fechar as suas
portas a excelentes estudantes quando tinham todas as condições para os
receber". Embora compreendendo a intenção de valorizar as instituições
universitárias do interior, o reitor mostrou com números o falhanço da
aposta: "As instituições de Lisboa e do Porto perderam este ano, por
imposição governamental, 1066 vagas enquanto as 31 instituições do
Algarve, ilhas, Coimbra, Aveiro e Minho receberam apenas mais 98 alunos
do que no ano anterior"
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O descrédito apontado à política do
Governo não podia ser maior. "Nunca será com medidas destas, que impedem
os jovens de estudar nas universidades mais prestigiadas do país e
melhor qualificadas nos rankings internacionais, que promoveremos o
interior do país", concluíu o reitor.
Campanha político-sindical de ataque aos reitores
Cruz
Serra não se ficou por aqui, num discurso que proferiu ao lado do
Presidente da República e em que não deixou incólume nenhuma das
vertentes da política para a Ciência e Ensino Superior. Ainda falou de
"uma inexplicável campanha político-sindical de ataque aos reitores e
aos dirigentes das escolas com o objetivo de as fazer recuar no objetivo
da autonomia bem como da sustentabilidade financeira da universidade
pública, acenando com a ilusão de recursos financeiros que nunca
existiram".
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Com o Orçamento de Estado para 2019 em preparação, o
reitor denunciou a ausência de recursos para responder aos contratos
precários: "Não há um cêntimo nas dotações orçamentais propostas para a
regularização dos vínculos e só na Universidade de Lisboa os encargos
daí resultantes representam cinco milhões de euros", afirmou, com um
aviso: "O não financiamento destes contratos é uma violação do acordo
assinado entre o Governo e as Universidades públicas, como o é, também, o
congelamento do valor das propinas sem o consequente reforço orçamental
para as universidades".
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Embora tenha manifestado confiança e
esperança no "senhor ministro Mário Centeno", Cruz Serra não podia ter
sido mais duro para o Governo e a sala, repleta de alunos, professores e
investigadores, rebentou em aplausos.
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Marcelo Rebelo de Sousa
ouviu em silêncio, ora com sorrisos, ora com um semblante grave. Foi o
Presidente quem, recentemente, alertou para a urgência de reforçar as
dotações orçamentais para dar resposta ao mau estado das residências
universitárias e aos elevados valores que os estudantes têm que pagar
quando alugam um quarto.
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Na alameda da Universidade de Lisboa,
uma manifestação de alunos alertava para isso mesmo, com cartazes a
preceito: "As politicas publicas de cortes geraram por todo o país uma
situação catastrófica para estudantes, famílias e instituições do ensino
superior público".
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