Santa Joana e o sebastianismo
(Por Valupi, in Aspirina B, 28/08/2018)

(Quem olha assim, de esguelha, e com
“cara de poucos amigos”, não pode ser boa pessoa. Por isso, acho que
está na hora de ir para casa tratar dos netos, se é que a personagem é
suficientemente afável para que eles a aturem e aceitem. Eu, cá por mim,
olhando para a cara dela, tenho as minhas dúvidas.
Comentário da Estátua, 28/08/2018)
O DN foi palco de uma operação política
tão surpreendente que até terá deixado os caluniadores profissionais que
o perseguem completamente baralhados. Começou com esta peça – Marques Mendes sabe tudo? Como o político passou a guru do comentário –
um típico exercício de relações públicas para promover alguém que actua
no campo da política-espectáculo. Misturado no serviço publicitário
onde Marques Mendes aparecia pintado como um sucesso de audiências,
ficávamos a saber que vinha a caminho mais um comício a favor da santa
Joana. O DN ensinava, pelo teclado de Paula Sá, que “a grande polémica
da rentrée política” dizia respeito ao final do mandato de
outro indivíduo também denominado Marques. Atente-se na fórmula: a
questão é política, é polémica, é a questão política mais polémica dos
próximos meses. Pois bem, e onde está a polémica? Ou donde virá? Sobre
esses pormenores, moita-carrasco.
No mesmo dia, o DN lançou a continuação da operação – A procuradora-geral deve ser reconduzida? Marques Mendes não tem dúvidas – onde se repetiu ipsis verbis o
discurso televisivo sem qualquer enquadramento, análise ou crítica do
escriba. Esta câmara de eco das mensagens que o militante do PSD quis
espalhar no espaço público teve a assinatura de João Pedro Henriques, o
mesmo que viria no dia seguinte a concluir a operação com esta serventia
– Destino da procuradora-geral nas mãos de Marcelo –
um texto que é do princípio ao fim uma exposição apologética da agenda
da direita para o controlo e uso da Procuradoria-Geral da República.
Não faço a mínima ideia de qual seja a
origem desta campanha no DN para a renovação do mandato de Joana Marques
Vidal. Sei é que não estamos no campo do jornalismo nem no da opinião,
posto que as peças são apresentadas como sendo o fruto do labor
profissional da Redacção na produção de “notícias”. Pelo que só resta a
categoria do “editorial” para explicar o fenómeno – ou então a da
“anarquia”, em que cada jornalista se sentiria com liberdade para usar a
sua carteira profissional como arma das disputas partidárias e mesmo da
subversão do Regime. Mais fácil de explicar será esse outro fenómeno de
vermos um conselheiro de Estado armado em vedeta mediática da
baixa-política a encher a boca com calúnias e ofensas.
Ao bolçar que “o PS, em matéria de
independência da justiça, não tem grande curriculum”, o grande Mendes
não só nada justifica como depende dessa desonestidade para se dedicar à
táctica favorita da direita decadente, a diabolização. Há método nesta
insídia, pois a diabolização não só aponta ao carácter do alvo como
atiça a pulsão persecutória até ao grau máximo de violência que for
possível atingir. Se o PS, sem sabermos quando nem como, manipulou a
Justiça, então temos de impedir que repita dano tão grave. Como? Ora,
fazendo com que a Justiça seja manipulada, mas desta vez pelos bons,
pela gente séria. É este o sofisma da direita, logo desde que Passos e
Cavaco escolheram a santa Joana para conseguir meter no chilindró o
maior inimigo que a oligarquia conheceu após o 25 de Abril, o tal fulano
que conseguiu despertar a ira das maiores fortunas do País. Paula
Teixeira da Cruz canonizou essa homérica vingança com a expressão “fim
da impunidade”. Tendo em conta os ritmos do Ministério Público, dos
tribunais e o volume de novos processos que se poderão abrir só a partir
das certidões já retiradas na “Operação Marquês”, vamos ter 20 ou mais
anos disto. Disto: a sistemática difamação contra o PS, explorando
mediática e politicamente a judicialização da política por todos os
meios e em todas as ocasiões.
As declarações mais perversas da sessão
foram dedicadamente recolhidas pelo seu amigo João Pedro e são um
monumento ao desprezo pelo Estado de direito, ao desprezo pelas
instituições da República, ao desprezo pela comunidade, ao desprezo por
Portugal
«Por isso, “atirar borda fora” a atual
procuradora seria suspeito, cheiraria a esturro. “Embora seja certo que
essa suspeita não se aplica a António Costa, é, ainda hoje, a suspeita
que recai sobre o PS” e uma eventual substituição da atual PGR “agrava
essa suspeita em vez de a afastar”.
Além do mais, quem substituir a PGR irá
“ficar logo com um estigma”: “Foi escolhido porquê? Foi escolhido para
defender quem?” Isto – concluindo – “é fatal”. “Será que o poder
político – Governo e Presidente – quer assumir todos estes riscos?”»
Marques Mendes, conselheiro de Estado, ex-governante, ex-líder partidário, ex-deputado, usa o seu espaço de comentário numa TV para chantagear o primeiro-ministro e o Presidente da República. Caso eles ousem substituir a procuradora-geral da República que a direita considera (e por óbvias razões) como sua comissária política, será lançada uma campanha para caluniar o seu sucessor e os responsáveis pela sua nomeação.
Aquilo que Joana Marques Vidal está a
fazer não pode ser feito por mais ninguém, berra a direita, e sem ela os
socialistas corruptos voltarão a corromper tudo e todos. É isto e só
isto que está a ser dito. Em nome de uma hipócrita e absurda defesa da
integridade da Justiça, a degradante personagem reclama a posse desse
cargo para o manter politicamente alinhado com interesses sectários e
criminosoNo DN garante-se que Mendes é o papagaio de Marcelo. Se é isto o
“jornalismo de referência”, e se tal coisa nos ajuda a entender a
realidade, acho que podemos já saltar para a mesma conclusão a que
chegou D. Sebastião em 4 de Agosto de 1578: “Foda-se, se é para isto vou
mas é desaparecer daqui.”
Fonte aqui
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