Não
sei como a nossa classe política ainda tem cara para sair à rua. Mas
que grande bando de salafrários incompetentes nos saíram na rifa! E com
um bidão gigantesco de "sem vergonhice" na cara para conotar este grande
incêndio de Monchique como "exemplo de sucesso" ao combate de fogos
apenas por não ter morrido gente. O nosso Primeiro, sempre divertido e
bem disposto, até nas tragédias, a buscar analogias em tudo, até
comparou o incêndio que lavrava há 6 dias às velas de um bolo de
aniversário para explicar aqui aos tontinhos que uma vela apaga-se bem
com um sopro mas quando são muitas é mais complicado. Que queriducho! A
sério? Então porque razão não "apagaram a vela" quando era apenas "UMA"
na Serra? Falta de fôlego? Falta de vontade? É que falta de meios não
foi de certeza porque nos anunciaram a maior preparação e investimento
em meios jamais vista em Portugal!
Podem
inventar toda a narrativa que bem entenderem mas nós, não somos cegos. E
as populações que viram tudo arder como fósforos, muito menos ainda.
Não passou despercebido logo no início da tragédia que havia uma
política do "deixa arder mas poupem as pessoas". Que havia ordens superiores para não actuar no imediato. Daí colunas inteiras de
bombeiros parados durante mais de 5 horas à espera de ordens. Não passou despercebido também, que
não
havia qualquer preocupação com os bens quando populares afirmaram não
terem visto os anunciados mais de mil homens no terreno. NADA!
Tal como disse o nosso engenhoso Primeiro, e bem, os bens são
substituíveis, as vidas humanas não. E assim, que se lixem as
propriedades, os negócios, os animais, a fauna pois não pode é haver
quem diga que morreu gente mesmo que essa gente venha a morrer depois de
desgosto, de desalento, de falta de meios de sobrevivência. Isso pouco
interessa. Estão vivos para poder assistir à miséria que irá ser sua
vida dali em diante. Mas como se pode ser tão insensível aos bens e
ganha pão das nossas gentes?
A verdade nua e crua é que só não morreu gente, apesar de toda a cautela em retirar os habitantes à força e alguns algemados,
porque houve gente que desobedeceu às ordens da GNR para seguir numa estrada em chamas,
novamente por falta de informação dum SIRESP inoperacional,
descoordenação e desorientação da Protecção Civil, como foi o caso de
Alferce. Claro que isso não passa hoje de uma hipótese, mas de uma
hipótese que não foi testada porque houve desobediência civil. Simples.
Dizem que
falhou tudo em Monchique desde o planeamento ao combate. Eu digo: não são falhas. São um propósito.
A teoria das falhas é aquela que mais convém a toda esta malta que vai de políticos a interesses privados.
Recorrer aos lapsos para justificar o que já não tem justificação
alguma plausível é como continuar a aceitar as desculpas dos nossos
filhos com professores, para justificar as negativas a todas as
disciplinas, todos os anos lectivos. Não faz sentido algum. Erros todos
comentem uma vez. Lapsos também. Mas décadas a fio sempre no mesmo
registo, sempre nos mesmos segmentos mas com a variante de, a cada ano
se gastar mais milhões em combate, sem o retorno em maior protecção, só
revela uma coisa: há interesses económicos poderosos por trás desta
mentira gigante de combate aos fogos.
Porque se houvesse combate real
todas as populações seriam apoiadas, instruídas e acompanhadas
localmente para manter as matas limpas e ordenadas; as florestas seriam
vigiadas; as localidades teriam um plano de combate a incêndios activo e
eficaz com várias bocas de incêndio espalhadas pelas aldeias ao dispor
dos habitantes; nenhuma mata estatal estaria por limpar; todos os
organismos estatais de socorro e combate a incêndios teriam apenas
profissionais da área altamente qualificados; os meios de combate seriam
eficazes e em número suficiente; os incendiários teriam penas efectivas
tão dissuasoras que jamais teriam vontade de repetir o crime.
Mas
o que se vê não é isto. Porque de quinze em quinze anos, o tempo que
leva à sua regeneração, é preciso que arda mata. Seja de pinheiro, seja
de eucalipto seja do raio que for. Arde tudo. Ora no sul, ora no centro,
ora no norte ora por todo o lado ao mesmo tempo. Dependendo das
"necessidades". Por isso deixa-se bombeiros parados durante horas. Foi
assim em Pedrógão. Foi assim nos fogos de Outubro. Foi assim em
Monchique.
Depois
vem a palhaçada de encontrar os culpados. No ano passado andaram atrás
dum raio num pinheiro; agora persegue-se os pobres postes da EDP. Tudo
para desviar o olhar dos verdadeiros responsáveis: governo e lobbies. É o
"vira o disco e toca o mesmo".
A
mim já ninguém me vende mais teorias para boi dormir. É tudo tão claro
que até ofende qualquer ser inteligente com capacidade de análise.
Monchique foi apenas um pequeno foco que por ter sido literalmente
ignorado, se transformou na maior área ardida da Europa neste verão. Que
ceifou vidas de trabalho que se vão juntar às de Pedrógão que volvido
um ano, muitos continuam por ressarcir dos danos nem sabem quando o vão
ser, se o vão ser e quanto. Isto apesar dos generosos donativos que
mobilizou uma nação inteira e que ninguém sabe para onde foram. Noutro
país, mas civilizado, esta corja criminosamente negligente da ANPC e
políticos, já estaria toda a preencher o impresso para o desemprego.
Salvar
pessoas foi o único plano de combate em Monchique para evitar a queda
de um governo que está preso moralmente por fios. Portanto, um
"sucesso" inventado só para a manutenção da geringonça no poder. Só
não vê quem não quer.
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