O último enciclopedista
(Por Estátua de Sal, 18/08/2018)

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Dizem os Evangelhos que a inveja é um
pecado mortal, muito feio, sendo por isso apanágio das consciências mal
formadas. Mas que seja. Eu, Estátua, pecador me confesso e, como também
rezam os Evangelhos, a confissão é meio caminho andado para alcançar o
perdão.
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Mas, afinal de quem é que eu tenho tanta
inveja, tanta que me farto de pecar quase diariamente? Pois bem, aqui
fica a minha confissão. Tenho uma inveja danada do Dr. Balsemão. E qual a
razão? Podem avançar com palpites, digo eu. E perguntarão os meus
leitores:
— Será por ele ser rico e dono de um
empório de comunicação? Nada disso. Até dizem que a Impresa está meia
afogada em dívidas e já viu melhores dias.
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— Será por ele aparecer – ainda que cada
vez menos -, nas revistas sociais, sempre no meio de gente fina, e morar
nesse recanto selecto que é a Quinta da Marinha? Nada disso, cada vez
mais frio, estou-me nas tintas para essas manifestações de vacuidade social.
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— Será por a SIC e o Expresso continuarem
a ser, ainda hoje, potentes instrumentos de formatação da opinião
pública, o que torna o Dr. Balsemão um homem poderoso, respeitado e, ao
mesmo tempo, temido por tudo quanto é político no activo, à esquerda e à
direita? Também não, nada disso, nunca quis ser missionário de qualquer
ideologia ou crença, pelo que nunca me quereria colocar no papel de grande educador do povo.
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Pronto. Como não acertaram eu deslindo o
caso: invejo a vocação inata do Dr. Balsemão enquanto gestor de recursos
humanos. Só um grande patrão, de fina e arguta sensibilidade
na escolha do pessoal, poderia alguma vez ter contratado esse notável
comentador que é o José Gomes Ferreira! Eu explico, então, a razão da
minha inveja, mesclada de admiração, ainda assim.
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Contratar alguém que nem sequer é
licenciado em economia ou finanças para comentar assuntos de economia e
finanças numa televisão, não é para qualquer gestor de recursos humanos.
Mas, o Dr. Balsemão, conseguiu ver para lá dessas mesquinhas evidências
curriculares. E que viu ele? Que o Gomes Ferreira era uma espécie de
canivete suíço do comentário.
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.Ele perora sobre economia, sim, mas também sobre incêndios, pontes, electricidade, Direito, Justiça, política nacional e internacional, animais de estimação e, se preciso for, sobre os anéis de Saturno ou sobre a vida sexual das baratas. Consta até que lê mais rápido que o Professor Marcelo, conseguindo decorar diariamente 100 páginas da Wikipédia.
Já viram a poupança que o Dr. Balsemão já
fez estes anos todos? Em vez de contratar dez comentadores, só tem que
pagar ao Gomes Ferreira! Ele dá conta do recado, na hora e ao vivo,
cobre todos os directos sem pestanejar, e explica aos espectadores tudo o
que se está a passar com uma surpreendente e prolixa erudição.
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É daí que vem a minha inveja. O Dr.
Balsemão é um predestinado para a gestão. É que essas coisas não se
aprendem. Nascem com as pessoas. Herdam-se das linhagens. Vem lá dos
Palmelas, dos Fronteira, dos Alfarrobeira, que sei eu.
Ora, como eu nunca contrataria o Gomes Ferreira – reconheço que por falta da visão empresarial e de gestão do Dr. Balsemão -, não posso almejar a ter um empório de comunicação, e limito-me a ter um blog.
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