Santana, o entretém de verão do país mediático
(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/08/2018)
Daniel Oliveira
(Ó Daniel, o Expresso é assim tão
pelintra que não tenha dinheiro para pagar a um revisor dos textos, como
se fazia antigamente num qualquer jornal decente? Essa gralha do “uma
derrotado” – ainda por cima a sair em caixa alta como citação sublinhada
-, é de almanaque. Podem mandar os textos para a Estátua rever que sai
tudo nos conformes…
Comentário da Estátua, 20/08/2018)
É a
distância do poder, que as próximas eleições tornarão ainda mais
asfixiante para a direita, e não qualquer orfandade ideológica que
explica a depressão na área do PSD. E a sabotagem dos deputados à
direção eleita pelos militantes faz parte do processo de transição na
liderança.
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Uma e outra coisa são um clássico, no PS e no PSD, com as pequenas nuances que as respetivas culturas partidárias impõem. Mesmo a multiplicação de protopartidos de direita liberal, com mais apoiantes nas redações de alguns jornais do que militantes, é apenas um pequeno espasmo desta crise passageira. Duvido que venha a ter grande impacto na geometria partidária portuguesa. Alguns dos candidatos a partidos, como a Iniciativa Liberal e uma tal de Democracia 21, terão o futuro de tantas outros projetos semelhantes do passado: mais notícias do que votos.
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Uma e outra coisa são um clássico, no PS e no PSD, com as pequenas nuances que as respetivas culturas partidárias impõem. Mesmo a multiplicação de protopartidos de direita liberal, com mais apoiantes nas redações de alguns jornais do que militantes, é apenas um pequeno espasmo desta crise passageira. Duvido que venha a ter grande impacto na geometria partidária portuguesa. Alguns dos candidatos a partidos, como a Iniciativa Liberal e uma tal de Democracia 21, terão o futuro de tantas outros projetos semelhantes do passado: mais notícias do que votos.
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Um caso um pouco diferente,
por envolver uma figura bastante mediática, é o da “Aliança”. Ainda
assim, a excitação mediática parece-me precoce. Prognósticos só no fim
do jogo, mas podemos olhar para os sinais. O facto de Pedro Santana
Lopes não ter conseguido arrastar ninguém relevante do PSD, mesmo os que
sabem que não terão emprego depois das próximas eleições, diz-nos
qualquer coisa sobre a inconsistência deste seu projeto. Uma
inconsistência ainda mais evidente quando conhecemos as principais
linhas ideológicas do novo partido.
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Parece que o novo Santana é
um liberal na economia e propõe coisas como razoáveis deduções fiscais
para os seguros privados de saúde – o que, tendo em conta que a política
se faz de escolhas na utilização dos recursos disponíveis, quer dizer
desvio de dinheiro do Serviço Nacional de Saúde para o sistema privado
–, privatização de parte da segurança social e redução drástica da carga
fiscal. Tal como aconteceu com Passos Coelho depois de chegar ao poder,
o seu liberalismo acaba no dinheiro. Santana rejeita “visões
utilitaristas e egoístas da vida humana”. Para quem queira tradução, é
contra a eutanásia. Para quem queira tradução ainda mas clara, Santana,
que tem uma visão meramente utilitarista de qualquer convicção, quer
deixar claro que agora é um conservador nos costumes. Mas, ao contrário
de Passos, Santana é, coisa que nunca tínhamos percebido até hoje, um
eurocético.
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Fica-se com a sensação que a
declaração de princípios foi desenhada por um publicitário, que andou a
ver onde havia nichos de mercado disponíveis. E, mais do que uma
declaração de princípios, é uma resposta circunstancial ao espaço que
Santana acha que Rui Rio deixou livre.
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É verdade que está ausente da política nacional a representação de sectores conservadores (na economia e nos costumes) e eurocéticos de direita que não estejam colados a uma extrema-direita marginal. Manuel Monteiro tentou e não conseguiu. Mas a “salganhada” santanista (roubando a expressão a José Eduardo Martins) não ocupa espaço nenhum, responde apenas a uma circunstância. A “Aliança” não deixará de ser aproveitada pelos descontentes com Rio nas próximas europeias, assim como o Livre foi aproveitado pelos descontentes com Seguro. Mas quando chegarem as legislativas ou há partido com bases ou há um balão vazio.
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É verdade que está ausente da política nacional a representação de sectores conservadores (na economia e nos costumes) e eurocéticos de direita que não estejam colados a uma extrema-direita marginal. Manuel Monteiro tentou e não conseguiu. Mas a “salganhada” santanista (roubando a expressão a José Eduardo Martins) não ocupa espaço nenhum, responde apenas a uma circunstância. A “Aliança” não deixará de ser aproveitada pelos descontentes com Rio nas próximas europeias, assim como o Livre foi aproveitado pelos descontentes com Seguro. Mas quando chegarem as legislativas ou há partido com bases ou há um balão vazio.
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Se há coisa que a política
portuguesa nos ensinou é que os partidos crescem ou em momentos de
enorme convulsão política (PRD) ou em espaços políticos que de alguma
forma já existem (BE). O Bloco de Esquerda foi o único partido que
conseguiu furar o monopólio dos quatro fundadores da democracia
portuguesa e manter-se na vida política porque representava uma massa de
eleitores que sempre se situara à esquerda do PS sem se sentir
representada pelo PCP.
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Existiu na extrema-esquerda, em vários pequenos partidos, em Otelo, com Pintasilgo. Existiu em movimentos radicais, em católicos progressistas, nas influências libertárias dos anos 60. Não foi nada disto que fez o BE chegar aos 10%. Nem sequer lhe deu 2% no início. Mas foi uma cultura política que já existia e que lhe deu raízes e consistência para ser mais do que um fogacho. Partidos de laboratório, com identidades desenhadas para responder a circunstâncias passageiras, morrem na praia. Sobretudo quando apenas respondem a opções táticas de um determinado protagonista.
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Existiu na extrema-esquerda, em vários pequenos partidos, em Otelo, com Pintasilgo. Existiu em movimentos radicais, em católicos progressistas, nas influências libertárias dos anos 60. Não foi nada disto que fez o BE chegar aos 10%. Nem sequer lhe deu 2% no início. Mas foi uma cultura política que já existia e que lhe deu raízes e consistência para ser mais do que um fogacho. Partidos de laboratório, com identidades desenhadas para responder a circunstâncias passageiras, morrem na praia. Sobretudo quando apenas respondem a opções táticas de um determinado protagonista.
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Há quem, à direita, seja
liberal na economia, seja conservador nos costumes e seja eurocético.
Mas não há um espaço onde se junte tudo isto só porque Santana acha que
estes nichos estão vagos. E não há, para compensar esta “salganhada”
ideológica, um país santanista.
Há apenas um derrotado com vontade de voltar à ribalta apesar das suas repetidas derrotas e um exército de candidatos ao desemprego no PSD que, com o apoio de jornalistas desesperados por nem as eleições internas de um partido conseguirem determinar, vão aproveitando o verão para insuflar este balão cheio de nada.
Partidos que mudam o
cenário político não resultam de amuos individuais ou de uma imprensa
simpática. Resultam de convulsões como a que tivemos depois do bloco
central ou da representação de culturas políticas com raízes mais
profundas do que a superficialidade deste projeto denuncia. O resto é
para entreter o verão do país político e mediático
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