Santana Lopes e suicídio das velhas baratas
(Carlos Matos Gomes, 19/08/2018)

(Este texto merece séria reflexão.
Tão séria quanto a atenção que deve ser dada ao nascente partido de
Santana. Quando a terra está de feição não é preciso ser grande
agricultor alcançar uma boa safra é, em síntese, a metáfora que me
ocorre para dar conta das preocupações do autor.
Comentário da Estátua, 20/08/2018)
Santana Lopes e suicídio das velhas
baratas. O Partido Santana Lopes, os reis que vão nus. Desde logo: o rei
que vai nu não é o Pedro Santana Lopes. Os reis que vão nus são o BE,
que não é radical nem revolucionário, é o PC, que não é comunista, é o
PSD, que não é social democrata, é o CDS que não é democrata cristão.
Resta o PS, que se assumiu desde o comício da Fonte Luminosa, em 1975
como o “rassemblement” de sociais democratas e democratas sociais, no
sentido que a social democracia e a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII tomaram no pós-guerra e na guerra fria.
Esses é que vão nus: não têm roupagem
ideológica que lhes cubra o corpinho. Nem o BE nem o PC podem (nem
querem, nem existem as tais condições objectivas) fazer qualquer mudança
estrutural do regime demo capitalista, nem o PSD e o CDS podem fazer
mais do que fazem: alterações pontuais na distribuição da riqueza entre
assalariados e gestores, com o grosso a ser acumulado pelo sistema
financeiro.
De Pedro Santana Lopes se poderá dizer o mesmo que o Santo Agostinho dizia pragmaticamente do Diabo: O Diabo não é diabo por ser mau, mas porque é velho. Pedro Santana Lopes não é mau por ser liberal, não é político por querer o bem do povo, mas porque anda cá há tempo suficiente para perceber o que está a dar para o povo comprar.
Ele está no mercado da política há muito
tempo. O liberalismo de face descoberta está em alta. Vende. E com as
ajudas certas da concorrência ainda vende melhor. Não existe melhor
promotor do liberalismo que maus serviços públicos. Que um Estado que
não proporciona serviços básicos de qualidade.
Pedro Santana Lopes percebeu – não é
difícil – que o mercado político em Portugal está polarizado num Partido
Socialista que tem, tant bien que mal, uma identidade
ideológica, e que o resto são produtos contrafeitos, que, por isso não
ganham eleições e não dão acesso ao poder.
O PC e o BE são hoje porta-vozes dos
sindicatos da função pública. E os grandes sindicatos da função pública,
aqueles que asseguram os serviços que dão alguma “alma” ao estado
social, sindicatos da saúde, do ensino e dos transportes, são, com as
suas ditas (e sempre justas) lutas – em que se alegram e celebram como
vitórias terem deixado 2000 doentes sem cirurgias, ou 90% de uma
população sem transporte, ou os alunos sem aulas nem exames – aliados de
beijo na boca de um partido liberal, que defenda a liberalização dos
serviços essenciais.
É que não há greves nos hospitais e
clinicas privadas, nem nos colégios privados, nem lutas por
descongelamentos de carreiras, nem cirurgias adiadas! Dirá Santana
Lopes, dizem os liberais!
É demagogia? É. Mas é isto que um partido
liberal vai vender e não há como contestar – para mais com a ajuda da
comunicação social engajada. O partido de Santana Lopes vai vender
seguros de saúde, vai vender planos de reforma. Vai fazer na saúde e na
educação o que está a ser feito – sem um ai dos sindicatos, se bem
repararam, sem uma excitação nem de Jerónimo nem de Arménio, nem da
Catarina – o que os bancos estão a fazer: despedir, fechar, cobrar todos
os serviços.
Pedro Santana Lopes sabe tudo isto. Vão
chamar-lhe demagogo. E ele vai agradecer a demagogia do Mário Nogueira e
da FENPROF, a demagogia do médico, ou enfermeiro que se ufanou de ter
anulado 2 mil cirurgias nos hospitais públicos.
O Partido Santana Lopes vai meter o dedo
na virilha dos partidos da demagogia, sim, os do sistema, vai meter o
dedo na virilha dos sindicatos do funcionalismo. Mais interessante, vai
utilizá-los para a sua promoção.
Quando, para os maiores partidos do
sistema, os principais problemas são o descongelamento das carreiras dos
professores do secundário (o tal 432 do desmiolado Nogueira), ou das
horas extraordinárias de médicos e enfermeiros, que se batem pela
diminuição da carga horária no SNS para irem arredondar o salário no
privado, quando o PSD de Rio não sabe se o problema é do défice ou da
dívida e o CDS da Cristas diz o que os ventos do dia e os incêndios
ditam, entre o eucalipto e a velocidade dos tuk tuk, é óbvio
que apresentar uma alternativa liberal – de privatização dos serviços
essenciais – faz sentido: cheque saúde, cheque educação, cheque
dentista, planos de reforma, parcerias público-privadas – o programa é
conhecido e PSL não necessita de think tanks da Católica ou do Observador para o escrevinhar.
Pedro Santana Lopes tem bons aliados nos
reis nus, que vão de Jerónimo de Sousa a Cristas, de Rio a Arménio, de
Nogueira a Catarina, à Ana Avoila. Os ventos sopram-lhe de feição. Há
dois projectos de sociedade em Portugal: o da social democracia de baixa
intensidade de Costa e o liberalismo 5 estrelas de PSL. Os projectos do
Observador, a venda de 2/3 da Impresa (Balsemão) ao Delgado amigo de
Santana, a incorporação da SIC e da TVI numa fanfarra liberal não foram,
nem são por acaso. O partido de Santana não surge de uma birra de
menino guerreiro. É um ato para ser levado a sério.
Gosto desta dicotomia? Não.
Mas presumo que a festa do Avante, o
comício do Pontal, as peixeiradas da Cristas, os acampamentos
multicolores do BE, típicos da rentrée me confirmarão a seca de ideias e
a cegueira de horizontes. Que as orquestras continuarão a tocar no
Titanic, que foi o sistema partidário português até agora, e que os seus
reizinhos nus se suicidem alegremente como as baratas da foto – mas em
luta pelos seus direitos – como dizem.
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