sexta-feira, junho 08, 2018

Diz o italiano Alberto Alesina um dos precursores da “ideologia da austeridade”




CLARO  QUE  SÓ  OS  POLÍTICOS  NÃO  CONSEGUEM  COMPREENDER  ESTES PRINCÍPIOS!!! ACIMA DE   TUDO  HÁ  QUE  ASSEGURAR  AS  SUAS  MORDOMIAS...
o italiano Alberto Alesina deu na manhã desta quinta-feira 7/6 uma aula na Faculdade de Economia do Porto centrada nos efeitos da austeridade Disse o contrário de outros distintos professores, e um já galardoado com Nobel... Se um país quer reduzir o défice e estabilizar a dívida pública, “deve cortar na despesa e não agravar os impostos”, avisa o professor de Harvard
TEXTO ABÍLIO FERREIRA In Expresso DIÁRIO
Se um país pretende “reduzir o défice e estabilizar a dívida, tem de cortar a despesa pública e não aumentar os impostos”.
A recomendação surgiu na última das 48 páginas da apresentação que Alberto Alesina, 60 anos, professor de Harvard, fez esta quinta-feira na Faculdade de Economia do Porto, no âmbito de uma sessão sobre políticas públicas e crescimento económico.
A aula de 60 minutos resultou num elogio à austeridade, como a plateia esperava. O título da conferência dizia tudo: "Austeridade". Mas, atenção: é preciso saber primeiro do que se fala, quando se invoca a austeridade.
Alesina, especialista em política orçamental e apontado como potencial candidato ao Nobel, é um dos precursores da “ideologia da austeridade”.
A RECEITA EFICAZ É CORTAR NA DESPESA
Na conferência, evitou referências a países e políticas em concreto, sem enveredar por juízos políticos. A única alusão a governos é que “por vezes os seus seus desígnios são insondáveis”.
E deixou duas mensagens essenciais: Uma política de austeridade adequada “não é necessariamente má e tem efeitos positivos a médio prazo”. É sempre “mais eficaz e vantajoso” optar “por cortes na despesa do que por aumento de impostos”.
A aplicação de medidas de austeridade “não é uma questão ideológica”, mas de racionalidade económica.
A dose de austeridade aplicada na Europa entre 2010 e 2014 terá sido excessiva e perniciosa? O Fundo Monetário Internacional já admitiu que sim, Alesia discorda e afirma que não. Os efeitos foram virtuosos e impulsionaram o crescimento económico.
“Ninguém pode dizer o que aconteceria se tais medidas não fossem adotadas”, justifica Alesia.
AUMENTO DE IMPOSTOS AGRAVA RECESSÃO
O economista italiano sustenta a sua tese com recurso a modelos que resultaram do escrutínio de 3500 medidas, divididas em 27 categorias, de consolidação fiscal aplicadas em 16 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), da Suécia à Irlanda, nas últimas quatro décadas.
Uma boa parte da apresentação incluiu gráficos e fórmulas matemáticas que permitem a análise comparada e plurianual dos efeitos de programas baseados no aumento da carga fiscal e no corte na despesa, separando aqui o investimento do consumo público.
As simulações combinam separadamente os efeitos das diferentes variáveis (impostos diretos, indiretos, transferências governamentais, etc.) para determinar os multiplicadores que influenciam a criação de riqueza e o crescimento da economia.
O ajustamento pelo aumento de impostos “leva a perdas de produção” e a uma recessão “profunda e duradoura”.
Já a consolidação pela redução da despesa, incluindo o investimento, pode ter no primeiro ano “um efeito levemente recessivo”, mas depois torna-se um fator de dinamismo, impulsionando “o consumo privado e a expansão do Produto Interno Bruto (PIB”.
Se a redução da despesa é permanente, isso “impulsionará a procura agregada e o consumo privado, compensando, pelo menos, parcialmente o impacto negativo”.
Alesia defende igualmente o corte nas transferências, apesar de não serem consideradas como despesa, por serem menos prejudiciais do que o aumento da carga fiscal.
Um outro aviso do professor de Harvard: É preferível aplicar medidas de ajustamento quando a economia prospera do que em ciclos recessivos.
BEIJO DE MORTE
Baseado no livro “Austerity: When It Works and When It Doesn’t”, a intervenção da Alesia seguiu um guião elaborado para responder a perguntas do tipo: Os programas de austeridade são todos iguais e têm os mesmos efeitos na economia e na relação dívida/PIB? A dose de austeridade entre 2010-2014 na Europa foi especialmente severa? Qual o papel das medidas associadas à consolidação fiscal ou qual influência do ciclo da economia nos resultados das medidas adotadas?
“Não há austeridade enquanto tal”, advertiu Alesia logo à abrir, antes de avisar que o sucesso depende sempre da receita aplicada.
Os efeitos são “nitidamente diferentes de caso para caso”, dependendo das medidas e do modo como são aplicadas. E partilhou a ideia de que a austeridade não foi o “beijo de morte” para os governos que adotaram políticas restritivas.
Combinar consolidações orçamentais com expansão da economia é possível. Alberto Alesia pertence ao movimento Expansionary Austerity, um conceito que defende o corte nos gastos públicos para impulsionar o crescimento económico através da procura privada.
O professor aponta como exemplos bem sucedidos desta política, os casos da Irlanda e Dinamarca (anos de 1980), Espanha, Canadá e Suécia (1990) e Reino Unido e Irlanda (após 2010).
Um programa de ajustamento pode beneficiar “com políticas do lado monetário, cambial ou com reformas estruturais”, mas isso não esconde que a diferença nuclear do modelo reside sempre “na opção pela redução da despesa ou agravamento fiscal”.
Nos países da amostra com que Alesia lidou, a estatística mostra que os multiplicadores fiscais depois de 2010 registaram uma evolução que se aproxima das estimativas anteriores, que não incorporavam os efeitos da austeridade.
A notoriedade de Alesia cresceu durante a crise da dívida na zona euro quando um dos seus artigos sobre austeridade expansionista — num estudo sobre 107 casos de consolidação orçamental no mundo onde 26 tiveram resultado positivo - serviu de suporte teórico à vaga de políticas de austeridade.

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