A IDIOTIZAÇÃO DA SOCIEDADE COMO ESTRATÉGIA DE DOMINAÇÃO
Por Ariel Correa
Por Ariel Correa
As pessoas estão imbuídas a tal extremo no sistema
estabelecido, que são incapazes de conceber alternativas aos critérios impostos
pelo poder.
Para consegui-lo, o poder vale-se do entretenimento
vazio, com o objectivo de inflamar a nossa sensibilidade social, e
acostumar-nos a ver a vulgaridade e a estupidez como as coisas mais normais do
mundo, incapacitando-nos de poder alcançar uma consciência crítica da
realidade.
No entretenimento vazio, o comportamento rude e
desrespeitoso é considerado um valor positivo, como vemos constantemente na
televisão, em programas asquerosos chamados “do coração”, e em tertúlias espectáculo
onde a gritaria e a falta de respeito é a norma, sendo o futebol espectáculo a
forma mais completa e eficaz que tem o sistema estabelecido para estupidificar
a sociedade.
Nesta subcultura do entretenimento vazio, o que se
promove é um sistema baseado nos valores do individualismo possessivo, onde a
solidariedade e o apoio mútuo são considerados como algo ingénuo. No
entretenimento vazio tudo está pensado para que o indivíduo suporte
estoicamente o sistema estabelecido sem questionar. A História não existe, o
futuro não existe; só o presente e a satisfação imediata. Por isso não é
estranho que proliferem os livros de auto-ajuda, autêntica bazófia psicológica,
o misticismo à la Paulo Coelho, ou infinitas variantes do clássico “como se
tornar milionário sem esforço”.
Em última instância, do que se trata no entretenimento
vazio é convencer-nos que nada se pode fazer: que o mundo é assim e é
impossível transformá-lo, e que o capitalismo e o poder opressor do Estado são
tão naturais e necessários como a própria força da gravidade. Por isso é normal
ouvirmos: “é muito triste, mas sempre houve pobres e ricos e sempre haverá. Não
há nada que se possa fazer”.
O entretenimento vazio conseguiu a proeza extraordinária
de fazer com que os valores do capitalismo sejam também os valores dos
escravizados por ele. (…)
O sistema estabelecido é muito subtil, com a sua
estupidez forja as nossas estruturas mentais, e para isso vale-se do púlpito
que todos temos em nossas casas: a televisão. Nela não há nada que seja
inocente, em cada programa, em cada filme, em cada notícia, traduz sempre os
valores do sistema estabelecido, e sem darmos conta, acreditamos que a
verdadeira vida é assim, introduzem os seus valores nas nossas mentes.
O entretenimento vazio existe para ocultar a evidente
relação entre o sistema económico capitalista e as catástrofes que assolam o
mundo. Por isso é necessário que exista o espectáculo vácuo: de modo que,
enquanto o indivíduo se auto degrada revolvendo-se no lixo que lhe dá o poder
da televisão, não veja o óbvio, não proteste e continue a permitir que os ricos
e poderosos aumentem o seu poder e riqueza, enquanto os oprimidos do mundo
continuam a sofrer e a morrer devido às suas existências miseráveis.
Se continuarmos a permitir que o entretenimento vazio
continue a modelar as nossas consciências, e portanto o mundo à sua vontade,
isso acabará por nos destruir. Porque o seu objectivo não é outro que o de
criar uma sociedade de homens e mulheres que abandonem os ideais e aspirações
que os tornam rebeldes, para se conformarem com a satisfação de necessidades
induzidas pelos interesses das elites dominantes. Assim os seres humanos ficam
despojados de toda a personalidade, transformados em animais vegetativos, sendo
desactivada por completo a velha ideia de lutar contra a opressão, atomizados
num enxame de desenfreados egoístas, deixando as pessoas sós e desligadas umas
das outras mais do que nunca, absorvidas na exaltação de si mesmas.
Assim, desta maneira, aos indivíduos não lhes resta
energia para mudar as estruturas opressoras (que aliás não são entendidas como
tal), não lhes fica força nem coesão social para lutar por um mundo novo.
Não
obstante, se queremos reverter tal situação de alienação a que estamos
submetidos, só nos resta, como sempre, a luta. Só nos resta contrapor outros
valores diametralmente opostos aos do espectáculo vazio, para que surja uma
nova sociedade. Uma sociedade em que a vida dominada pelo absurdo
entretenimento vazio seja apenas uma lembrança dos tempos estúpidos em que os
seres humanos permitiram que as suas vidas fossem manipuladas de maneira tão
obscena.

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