Mais de três mil queixas
registadas sobre carteiristas
13.05.2018 08:00 por Augusto
Freitas de Sousa 16
Lojistas e turistas perseguem-nos mas
estes regressam às ruas depois de serem detidos. Agentes
pedem brigadas à civil e video-vigilância.
Cofina
Media
Duas jovens passeiam-se entre o Largo do Carmo e a
entrada do Elevador de Santa Justa. Uma veste calças de ganga, camisa e blusão
impermeável. A outra, calças de fato-de-treino, blusão semelhante. Ambas de
rabo-de-cavalo, levam mochila e uma pequena carteira. (Em geral, também há
sempre lenços, cachecóis ou casacos, usados para cobrir as carteiras ou
mochilas enquanto são abertas.) A poucos metros, um terceiro homem, de calças
de ganga, com uma camisa e camisola banais, tira distraidamente fotos com o seu
telemóvel. As duas mulheres avaliam cada grupo de turistas que passa. Daí a
instantes, dois casais de chineses ainda na casa dos 20 e pouco apercebem-se de
que as suas carteiras desapareceram e identificam as duas jovens.
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Junto a um corrimão, enquanto um dos rapazes as impede de sair do local, outro liga para a polícia. Quando os agentes chegam não encontram nada. A explicação, segundo eles, é fácil: elas "conseguem desmarcar os produtos dos furtos para uma terceira ou quarta pessoa". Mesmo assim serão conduzidas à esquadra e acusadas de tentativa de furto. Nada que as mantenha sob custódia por muito tempo.
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Todos os dias, centenas de carteiristas passeiam sem receios pelos centros turísticos de Lisboa. Sabem que o pior que lhes pode acontecer é passarem umas horas na esquadra, mesmo que sejam apanhados em flagrante. O crime é de furto - nunca, ou quase nunca, utilizam violência -, .pelo que a moldura penal não permite a prisão preventiva.
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Junto a um corrimão, enquanto um dos rapazes as impede de sair do local, outro liga para a polícia. Quando os agentes chegam não encontram nada. A explicação, segundo eles, é fácil: elas "conseguem desmarcar os produtos dos furtos para uma terceira ou quarta pessoa". Mesmo assim serão conduzidas à esquadra e acusadas de tentativa de furto. Nada que as mantenha sob custódia por muito tempo.
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Todos os dias, centenas de carteiristas passeiam sem receios pelos centros turísticos de Lisboa. Sabem que o pior que lhes pode acontecer é passarem umas horas na esquadra, mesmo que sejam apanhados em flagrante. O crime é de furto - nunca, ou quase nunca, utilizam violência -, .pelo que a moldura penal não permite a prisão preventiva.
Relacionado
Em Lisboa, desde o início do ano,
segundo fonte da PSP, até ao fim da semana passada, tinham sido registadas
cerca de 3 mil queixas por furto de carteiristas e "de oportunidade"
só contra turistas - e o número tenderá a subir, uma vez que estes foram meses
de Inverno. Ainda segundo a mesma fonte, em média cada furto "vale"
cerca de 700 euros, o que ascenderá a mais de 7 milhões de euros por ano, entre
dinheiro e material como máquinas fotográficas, telemóveis e tablets. Uma fonte
da PSP apontou um recorde de 14 mil euros num furto e um comerciante assegurou
que uma japonesa ficou sem 10 mil euros.
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Encurraladas na loja
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A Direcção Nacional da PSP disse à SÁBADO que "o policiamento uniformizado" cresceu, "aumentando a visibilidade junto dos locais onde se verificam o maior número de ocorrências, de acordo com a análise permanente que é feita a este tipo de criminalidade". Em Lisboa, os carteiristas preferem as zonas da Avenida da Liberdade, Largo da Sé, Portas do Sol, Costa do Castelo, Largo do Carmo, Cais do Sodré, Praça do Comércio, Praça da Figueira, Alfama e a área de chegada de cruzeiros.
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A PSP admite que, desde 2012, tem vindo a organizar-se perante "a criminalidade praticada por autores originários do Leste Europeu (nomeadamente criminalidade itinerante)", e também quanto "à existência de grupos organizados". A Direcção Nacional referiu à SÁBADO que outra aposta é "a análise da informação criminal que permite identificar tendências, modus operandi, áreas geográficas mais afectadas e, com base nestes dados, desencadear operações policiais com vista à detenção dos suspeitos em flagrante delito".
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Operacionais da polícia no terreno apontam potenciais soluções para o problema: a implementação de brigadas à civil, rotativas, para não serem reconhecidas, fazer incidir a criminalização sobre o número de vezes que os criminosos são apanhados e a instalação de mais câmaras de vídeo-vigilância.
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Os carteiristas têm mais cuidado em locais com vídeo-vigilância e transportes públicos, já que aqui este tipo de crime pode configurar furto qualificado com penas entre os 2 e os 8 anos (sendo possível a prisão preventiva).
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Encurraladas na loja
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A Direcção Nacional da PSP disse à SÁBADO que "o policiamento uniformizado" cresceu, "aumentando a visibilidade junto dos locais onde se verificam o maior número de ocorrências, de acordo com a análise permanente que é feita a este tipo de criminalidade". Em Lisboa, os carteiristas preferem as zonas da Avenida da Liberdade, Largo da Sé, Portas do Sol, Costa do Castelo, Largo do Carmo, Cais do Sodré, Praça do Comércio, Praça da Figueira, Alfama e a área de chegada de cruzeiros.
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A PSP admite que, desde 2012, tem vindo a organizar-se perante "a criminalidade praticada por autores originários do Leste Europeu (nomeadamente criminalidade itinerante)", e também quanto "à existência de grupos organizados". A Direcção Nacional referiu à SÁBADO que outra aposta é "a análise da informação criminal que permite identificar tendências, modus operandi, áreas geográficas mais afectadas e, com base nestes dados, desencadear operações policiais com vista à detenção dos suspeitos em flagrante delito".
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Operacionais da polícia no terreno apontam potenciais soluções para o problema: a implementação de brigadas à civil, rotativas, para não serem reconhecidas, fazer incidir a criminalização sobre o número de vezes que os criminosos são apanhados e a instalação de mais câmaras de vídeo-vigilância.
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Os carteiristas têm mais cuidado em locais com vídeo-vigilância e transportes públicos, já que aqui este tipo de crime pode configurar furto qualificado com penas entre os 2 e os 8 anos (sendo possível a prisão preventiva).
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Os eléctricos continuam a ser um alvo preferencial, sobretudo as carreiras 15 e 28. Já os roubos no interior de estabelecimentos não são frequentes, disseram à SÁBADO alguns seguranças contratados pelas lojas: já todos os conhecem e vigiam-nos. Mas na rua os seguranças não intervêm, por recomendação da própria PSP.
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Às vezes, são os turistas e outros operadores que actuam. Um comerciante contou à SÁBADO um episódio em que duas inglesas altas e fortes detectaram as duas mulheres que tinham acabado de lhes ficar com as carteiras. Empurraram-nas para dentro de uma loja e ficaram à porta a impedir-lhes a saída até lhes serem restituídos os valores roubados. E dois condutores de tuk-tuk recordaram aquela vez em que um turista foi roubado no Largo da Sé e como, depois de algumas manobras com vários veículos, localizaram o carteirista e o entregaram à polícia.
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Voltar de táxi ao local do crime
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A SÁBADO observou os carteiristas dezenas de vezes, sobretudo na zona da Baixa, em Lisboa. Num dos dias, entre a Calçada do Carmo e o Largo do Duque de Cadaval, um deles foi apanhado com a mão dentro de uma carteira. Já não saiu dali. E ainda foi confrontado por dois empregados de um restaurante.
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As histórias são diárias e muito semelhantes. Os comerciantes não se identificam, até porque são vítimas de ameaças verbais. Exemplo: um empregado de café que mora perto da Baixa alertou uns turistas para a iminência de um furto. À noite, quando chegou a casa, estavam três homens de nacionalidade romena junto à sua porta: "Não te metes na nossa vida, não nos metemos na tua."
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Apesar de raramente haver algum tipo de violência, com a excepção da verbal, a SÁBADO testemunhou uma situação que, segundo os relatos recolhidos, será recorrente. Uma série de músicos de rua apresentavam-se no passeio junto ao histórico café Brasileira, no Chiado. Duas raparigas simulavam dançar, enquanto um jovem lhes tirava fotos com o telemóvel. Os três foram reconhecidos por uma das comerciantes que avisou uma transeunte despreocupada com as jovens, que se iam aproximando dela. Ao aperceberem-se de que tinham sido identificadas, afastaram-se em passo lento, a rir e fazendo um gesto obsceno na direcção da comerciante. "É sempre assim, ainda gozam connosco", desabafou a lojista.
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São o tipo de criminosos que, literalmente, regressam ao local do crime. Um comerciante até contabilizou o tempo: dois deles, menos de 40 minutos depois de serem apanhados em flagrante pela PSP, saíam de um táxi no preciso local em que tinham sido detidos.
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O misterioso "Tata"
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Segundo uma fonte judicial há, sobretudo, dois advogados que tratam da maioria dos casos, quase sempre com os mesmos expedientes. Um deles, que terá sido detido na fronteira entra a Roménia e a Bulgária por razões familiares, tem como prática solicitar a nulidade dos processos quando os documentos não são traduzidos para romeno. Os agentes não são ameaçados ou coagidos, mas a quantidade de trabalho com o expediente tem vindo a desmoralizar os polícias. Por exemplo, são obrigados a comparecer em diligências em tribunal mesmo em dias de folga, quando os alegados criminosos não aparecem ou nem sequer são notificados.
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Alguns dos detidos dão a morada de dois hostels na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, mas quando as autoridades judiciárias os tentam notificar há quem troque de quarto para evitar a identificação. Por diversas vezes a PSP encontrou cartões de visita dos dois advogados e nos telefones foi identificado um nome comum que as autoridades ainda não perceberam se é uma pessoa ou se são várias. O nome que aparece frequentemente é "Tata", que em romeno significa pai.
Artigo originalmente publicado na edição n.º 727, de 5 de Abril de 2018.
Os eléctricos continuam a ser um alvo preferencial, sobretudo as carreiras 15 e 28. Já os roubos no interior de estabelecimentos não são frequentes, disseram à SÁBADO alguns seguranças contratados pelas lojas: já todos os conhecem e vigiam-nos. Mas na rua os seguranças não intervêm, por recomendação da própria PSP.
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Às vezes, são os turistas e outros operadores que actuam. Um comerciante contou à SÁBADO um episódio em que duas inglesas altas e fortes detectaram as duas mulheres que tinham acabado de lhes ficar com as carteiras. Empurraram-nas para dentro de uma loja e ficaram à porta a impedir-lhes a saída até lhes serem restituídos os valores roubados. E dois condutores de tuk-tuk recordaram aquela vez em que um turista foi roubado no Largo da Sé e como, depois de algumas manobras com vários veículos, localizaram o carteirista e o entregaram à polícia.
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Voltar de táxi ao local do crime
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A SÁBADO observou os carteiristas dezenas de vezes, sobretudo na zona da Baixa, em Lisboa. Num dos dias, entre a Calçada do Carmo e o Largo do Duque de Cadaval, um deles foi apanhado com a mão dentro de uma carteira. Já não saiu dali. E ainda foi confrontado por dois empregados de um restaurante.
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As histórias são diárias e muito semelhantes. Os comerciantes não se identificam, até porque são vítimas de ameaças verbais. Exemplo: um empregado de café que mora perto da Baixa alertou uns turistas para a iminência de um furto. À noite, quando chegou a casa, estavam três homens de nacionalidade romena junto à sua porta: "Não te metes na nossa vida, não nos metemos na tua."
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Apesar de raramente haver algum tipo de violência, com a excepção da verbal, a SÁBADO testemunhou uma situação que, segundo os relatos recolhidos, será recorrente. Uma série de músicos de rua apresentavam-se no passeio junto ao histórico café Brasileira, no Chiado. Duas raparigas simulavam dançar, enquanto um jovem lhes tirava fotos com o telemóvel. Os três foram reconhecidos por uma das comerciantes que avisou uma transeunte despreocupada com as jovens, que se iam aproximando dela. Ao aperceberem-se de que tinham sido identificadas, afastaram-se em passo lento, a rir e fazendo um gesto obsceno na direcção da comerciante. "É sempre assim, ainda gozam connosco", desabafou a lojista.
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São o tipo de criminosos que, literalmente, regressam ao local do crime. Um comerciante até contabilizou o tempo: dois deles, menos de 40 minutos depois de serem apanhados em flagrante pela PSP, saíam de um táxi no preciso local em que tinham sido detidos.
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O misterioso "Tata"
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Segundo uma fonte judicial há, sobretudo, dois advogados que tratam da maioria dos casos, quase sempre com os mesmos expedientes. Um deles, que terá sido detido na fronteira entra a Roménia e a Bulgária por razões familiares, tem como prática solicitar a nulidade dos processos quando os documentos não são traduzidos para romeno. Os agentes não são ameaçados ou coagidos, mas a quantidade de trabalho com o expediente tem vindo a desmoralizar os polícias. Por exemplo, são obrigados a comparecer em diligências em tribunal mesmo em dias de folga, quando os alegados criminosos não aparecem ou nem sequer são notificados.
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Alguns dos detidos dão a morada de dois hostels na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, mas quando as autoridades judiciárias os tentam notificar há quem troque de quarto para evitar a identificação. Por diversas vezes a PSP encontrou cartões de visita dos dois advogados e nos telefones foi identificado um nome comum que as autoridades ainda não perceberam se é uma pessoa ou se são várias. O nome que aparece frequentemente é "Tata", que em romeno significa pai.
Artigo originalmente publicado na edição n.º 727, de 5 de Abril de 2018.
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