Os sujadores de profissionais
A
carteira profissional é mais do que um diploma, não serve para pendurar
numa parede. É para a levarmos sempre connosco porque a todo o momento
podemos ser questionados, por nós próprios, se o somos, ou não.
Profissionais.
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Aquilo que um homem ou uma mulher fazem para ganhar a
vida. Profissional é estarmos sendo; não o que herdamos ou nos caiu na
rifa sermos. A palavra profissional é um elogio. Aquele padeiro é um
profissional, aquele futebolista é um profissional...
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Quim é um
profissional: aos 42 anos chegou a vencedor da Taça, jogando pelo
modesto Aves, vindo de uma freguesia cuja população mal enche meia
bancada de um estádio. Bas Dost é um profissional, remata e falha um
golo fácil mas volta a cabecear apesar de na testa já ter voado o penso
lá posto porque alguns do seu clube, dias antes, lhe abriram um lanho.
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Um profissional insiste, corre e sua, arrisca-se a voltar a falhar,
apesar de ferido na alma e com a inquietude do amanhã incerto.
Profissional. Um profissional traz em si um abençoado orgulho. Nada que
ver com os que tratam os outros pelo que sabem de si, e o que sabem de
si é tremendo e sujo.
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Por exemplo, o mecânico que cobra mas não põe óleo
nos travões. Por exemplo, ainda, o jornalista que acolhe um pulha
confesso (pois é gajo que diz comprar jogadores), e, na base da palavra
do pulha, ajuda-o a sujar o nome de profissionais.
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E sai nome do
profissional na manchete, mais cara do profissional nas fotos! E as
provas apresentadas são: o profissional, que era guarda-redes, atirou-se
para a esquerda num penálti...
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Com essas provas, nome, cara e carreira
de um homem atirados para o galheiro. Estamos assim. Repararam que não
dei adjetivo, bom ou mau, ao profissional abusado?
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Foi de propósito,
porque não sei nada dele. Nem eu, nem vocês, nem os jornais que o
enlamearam. Só sei que um homem qualquer foi abusado. E sei mais: um dia
há de calhar-vos, calhar-nos, um abuso igual. Merecido, aliás.
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É que
talvez sejamos, muitos de nós, profissionais, bons ou assim-assim. Mas
cidadãos, não. Somos distraídos, o que hoje pode ser pecado mortal.
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