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Sabe do que estou a falar não
sabe? Acertou em cheio: do futebol, do Sporting e da tremenda vergonha de
ver uma fotografia destas
Esta é cabeça de Bas Dost,
o holandês que joga pelo Sporting e que é um dos seus mais famosos marcadores.
Disse que se encontrava "vazio". A
fotografia foi tirada pouco depois de conhecido ataque de
um bando à Academia do Sporting em Alcochete,
ontem, a meio da tarde, espancando com barras de ferro e cintos atletas
e equipa técnica, destruindo o balneário e vandalizando a área. Encapuçados,
ainda por cima, o pequeno requinte de grandes criminosos. É o quê esta gente:
energúmenos, vândalos, arruaceiros, selvagens, ou "casuals", como se
designam agora aqueles que só aparecem para as cenas de pancada?
O recinto estava rodeado de
jornalistas, já de plantão por causa da verdadeira
novela em que se transformou o dia a dia do clube dos leões.
Ainda ontem, a notícia era o suposto os jornais titulavam como
"terramoto", ou "ponto final" o conflito entre o
seu histriónico presidente e o seu (agora) desafortunado treinador, se tal
adjetivo é apropriado para quem ganha 7,5 milhões de euros por ano. Mas
adiante, que a questão hoje não é essa.
Os comentadores não pararam toda a
noite (e eu com eles, ó, logo eu, ironia das ironias!) e hiperbolizaram o
relato. Tragédia, ainda vá, mas ato de terrorismo? Enfim, é melhor não perder a
dimensão das coisas, se bem que reconheça que o seriado vai cada dia tomando
novas e piores tonalidades. Não vou repetir os pormenores, disponíveis, por
exemplo, aqui, aqui, e mais aqui (em vídeo) mas o que aconteceu ontem no Sporting, se foi exclusivo do
clube, não o é infelizmente no mundo do futebol.
O clube vive momentos de
pesadelo, desde que perdeu em Madrid, que custam a crer: eles são
as inacreditáveis tiradas de Bruno de Carvalho (que nem os atletas quiseram ver
ontem em Alcochete), os tumultos e insultos em Alvalade, num crescendo que
foram até ao lançamento de petardos pelos próprios adeptos no jogo com o
Benfica, à quase agressão dos jogadores Rui Patrício e William de Carvalho
depois da derrota com o Marítimo e, agora, a isto. Já para não falar das
suspeitas que impedem sobre o mesmo clube a propósito das suspeitas de suborno
dos jogos de
andebol e que parece estenderem-se a outras
modalidades (e a outros clubes), segundo diz o jornal I.
Os adeptos estão zangados. No
restrito mundo em que estou a escrever, há um que diz que pediu as quotas de
volta, outro que nem consegue falar e outro ainda que diz, como a direção do
clube, "que isto não é o meu Sporting", mas "um bando de
selvagens". Quem está por trás disto, perguntam. E com que objetivo? Que
vai acontecer a Bruno de Carvalho? E ao Sporting? Os jogadores vão-se embora?
Eu não sei, mas há muitos palpites.
Marta Soares, o tão
corajoso chefe de bombeiros que ajuda a demitir comandantes da Proteção Civil,
ainda ontem dizia que o Sporting
não vivia em crise, mas só vai convocar os
órgãos sociais do clube para segunda-feira. Houve quem reclamasse que ele devia
demitir de imediato a estrutura diretiva, mas nada, aquilo parece uma aliança
indestrutível. Quanto ao próprio presidente do clube, leia o
que ele disse, para não ter de se beliscar.
Eu, que percebo pouco do meio, deixo os comentários para quem sabe e tem
opinião - a do Pedro Candeias, por exemplo (Foi chato,
Bruno?) ou esta. Só consigo ver de fora.
Por isso pergunto: ninguém
pensou quais seriam as consequências de um "presidente-adepto",
de fala desbragada e que - como diz - "para
ter sucesso, a primeira coisa a fazer é criar fama de maluco"?[para
assinantes, lamento] Pois ganhou-a e este é o resultado do populismo no
futebol. Mas o pior é o resto. Voando sobre o Sporting, ninguém pensou sobre os
efeitos de horas sem fim a falar de futebol, no tempo extravagante que ele tem
no espaço público, na televisão e na rádio em especial, a pretexto das
audiências, num círculo vicioso de dar circo a quem pede circo porque não lhe
dão mais nada?
Ninguém imaginou o poder da
linguagem de confronto e espírito de guerra que animam os comentadores
profissionais de desporto que pululam em cada horário nas televisões? Do
escândalo após escândalo, dos crimes que atravessam este desporto? Da raiva que
suscitam nos adeptos e do "mono-papo" que abrange legiões de
portugueses? Que se pode esperar senão sangue desta cultura de ódio que parece
estender-se à sociedade inteira depois de tudo isto? Por isso, deve ler esta
opinião do Daniel Oliveira, escrita ainda
antes do que aconteceu em Alcochete.
Desculpem, mas há
consequências. A Justiça e
o Governo têm o dever de tirá-las e nós todos de
refletir sobre elas. Não sei se chegam palavras de repúdio pela violência e de
solidariedade para com os agredidos, nem a promessa de que no domingo, no final
da Taça, o Jamor será a "festa do futebol". Tem de haver regulação.
Lá fora, Portugal continua a ser o campeão europeu e o país de onde saem
campeões, entre eles o grande Ronaldo (que por acaso se formou nos primórdios da
Academia de Alcochete do Sporting). Eu, por enquanto, só consigo resumir o meu
pensamento à mesma palavra com que comecei este texto: vergonha.


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