SÓ FALTA A MÃE
17.05.2018
Tenho estado a reflectir e, pouco a pouco, começo a
desconfiar que o meu filho Zezinho, que conheço vagamente, talvez seja um
bocadinho aldrabão
Ilustração: João Fazenda
Tenho estado a reflectir e, pouco a pouco, começo a desconfiar que o meu
filho Zezinho, que conheço vagamente, talvez seja um bocadinho aldrabão.
Durante muito tempo acreditei na teoria segundo a qual ele vivia muito acima
dos seus rendimentos por eu ser milionária. Eu não me lembrava de ser
milionária, mas a partir de uma certa idade é normal as pessoas esquecerem-se de
pequenas coisas. Além disso, ele tinha muito, muito talento para mentir. Era
quase impossível suspeitar da integridade dele.
Tirando a informação errada na biografia do Parlamento, a trapalhada da
licenciatura, a pressão para que não se falasse na trapalhada da licenciatura,
as suspeitas do caso Freeport, a tentativa de comprar os meios de comunicação
que divulgaram as suspeitas do caso Freeport, o processo Cova da Beira, o
processo Face Oculta e mais 10 ou 20 casos, ele era absolutamente insuspeito de
ser mentiroso.
Enganou-me bem, o pirata. Recordo com saudade a criança adorável que ele
era, e os natais em que lhe perguntávamos: “Que presente gostarias de receber,
Zezinho?” E ele, muito inocente: “Fotocópias.” Quem poderia prever este
desfecho? A explicação dele era tão simples e plausível: tudo isto começou por
ser uma campanha negra da direita política. Depois, uma perseguição da justiça
ao serviço da direita política. A seguir, uma canalhice da imprensa,
instrumentalizada pela justiça, ao serviço da direita política. E agora, uma
cedência do PS à canalhice da imprensa, instrumentalizada pela justiça, ao
serviço da direita política. (O meu filho diz sempre “a direita política”,
porque é só essa direita que o persegue.
A direita futebolística, por exemplo, não lhe guarda rancor. Nem a direita
dos lacticínios.) Mas, não sei porquê, começo a ter dúvidas. Por isso, decidi
dar o exemplo e, com muita frontalidade, declarar aqui que, ao contrário do que
se diz por aí, ele talvez não seja flor que se cheire. Sei que vou contra a
corrente, mas este é o momento de ser corajosa.
E tenho vergonha, claro. Muita vergonha. Ontem encontrei o Carlos César e o
João Galamba, e organizámos mesmo um mini-campeonato de vergonha. Foi muito renhido,
mas ganhou o João Galamba. Ele estava com uma vergonha imbatível. Níveis
extremamente elevados de vergonha. O Carlos César obteve um honroso segundo
lugar. Mas nessa altura eu fiquei com vergonha de ficar em último naquele
torneio de vergonha e esse suplemento de vergonha por não ter suficiente
vergonha, curiosamente, catapultou-me para primeiro lugar. O meu filho, neste
momento, parece ser o único que não tem vergonha. Mas acredito que já tenha
pedido dinheiro emprestado para ir comprar.
(Opinião publicada na VISÃO 1314 de 10 de maio)

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