Já nem a comunicação social consegue esconder o desastre que esta governação tem sido
Trilho, que trilho?
Raras vezes Portugal teve um trilho e anda
historicamente desde sempre a fazer de salta-pocinhas.
Isso não impediu obviamente que tivessem surgido
homens com visão de futuro de entre os quais destacaria Afonso III, seu filho
D. Dinis (só em parte do seu reinado), João I na senda do início das conquistas
nos Algarves d’além mar, dois enormes vultos da inclita geração os infantes
Henrique e em especial seu irmão o regente infante Pedro que já na altura quis
abandonar as praças marroquinas que constituíam um sorvedouro de vidas e
dinheiros e que, segundo ele, “era dar uma boa capa por mau capelo”. Não por
acaso, é objeto de invejas várias em especial da parte de seu meio-irmão duque
de Bragança que mexendo os cordelinhos o arrasta para uma batalha sem sentido
(Alfarrobeira – onde morreu) contra ele próprio e um dos mais tontos e boçais
reis que tivemos, Afonso V.
Mas, como se costuma dizer, é no estrume que
nascem as mais lindas flores e a este rei atontado sucede o genial príncipe
perfeito João II.
Este homem tem desígnios e sabe o que quer.
Afronta quem deve afrontar e liquida quem lhe impede o passo.
Ao que parece morreu envenenado e sucede-lhe seu
primo e cunhado Manuel I. Uma espécie de Costa que recebeu o resultado da boa
governação de Passos. Mas Costa não tem por aí nenhum Afonso de Albuquerque ou
Vasco da Gama. Sobram-lhe, tão só, oportunistas que certamente o único caminho
marítimo que descobrirão é fazer aportar-nos à Venezuela.
Seguindo o curso histórico, a travessia do tempo
foi um deserto. E é preciso esperar quase dois séculos para ter outra vez um
homem que sabia o que queria e para onde ia. Refiro-me obviamente ao excelso
Marquês de Pombal. Que mesmo assim cometeu erros de percurso que o levaram a
hesitações comprometedoras. E a um jogo político em parte parecido ao de Passos
fazendo uma coisa e prometendo outra. As forças políticas retrógradas, tal como
agora esta esquerda espúria, eram de monta. E teve que se vergar a compromissos
que não o deixaram chegar onde queria, mesmo liquidando parte da nobreza com o
supliciar dos Távoras e do Duque de Aveiro, a expulsão calculada dos jesuítas
e, finalmente, cerca de três séculos e meio mais tarde, o abandono da última praça
forte em Marrocos, a monumental cidadela de Mazagão de onde mandou parte dos
seus habitantes para colonizar o Amapá no Brasil onde, aí, se fundou a ainda
existente cidade de Nova Mazagão.
No resto, tal como Passos Coelho, teve que se
situar entre compromissos. E não é aliás por acaso que tratando-se de um homem
iluminado e iluminista, chegou a proibir a leitura de vultos literários
iluministas tais como Rousseau, Montesquieu e Voltaire.
Talvez não por acaso, e tal como está a suceder
com Passos, surgiu a Viradeira. Foi assim que ficou conhecido o processo que
conduziu às reversões de Pombal por parte da rainha Piedosa, e mais tarde
louca, Maria I.
Como se pode inferir do que atrás escrevi, isto é
mais do mesmo.
E o trilho seguido pela geringonça nem sequer tem
nada de novo.
Trata-se, afinal, de um curso histórico contínuo
que não nos deve criar ilusões.
Os vendedores de ilusões e pagadores de promessas
têm quase sempre levado a melhor neste desgraçado país.
E as cigarras mais uma vez triunfarão em detrimento
das formigas que quiseram construir nesta choldra um país a sério.
Passos, poupando os seus inimigos, acabou por lhe
“morrer” às mãos.
Ameaçou muito e produziu pouco. As tímidas
reformas que efetuou e que ajudariam a colocar este país na modernidade irão,
fatalmente, acabar por ser revertidas.
Os adoradores do caos e do facilitismo desde
sempre triunfaram neste pobre país.
Passos cometeu um tremendo erro de cálculo. E
teve uma oportunidade de ouro para, de uma vez por todas, quebrar a espinha
dorsal das forças reaccionárias e sociais-comunistas que estrangulam a pátria.
Ficou a meio do caminho. Ou como dizem os
brasileiros “em cima do muro”.
O pouco que fez perder-se-à.
E o país será como sempre foi.
Um país adiado que como Stefan Zweig dizia do
Brasil “é um país do futuro e sempre será”!…
Cipião Numantino

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